A escala 6×1 das nossas crianças

08/05/26
Enviado para o Portal Geledés, por Luize Sampaio

O tempo é uma das maiores moedas de troca que temos e o brasileiro conhece bem esse preço. Um trabalhador médio no país cumpre jornadas semanais de aproximadamente 39,1 horas,  pelo menos 220 dias dedicados exclusivamente ao trabalho. Some a isso o tempo de deslocamento diário, que nas grandes metrópoles consome cerca de 32 dias do ano. Qual o custo desse tempo? Esse debate chegou ao Congresso. Primeiro a partir da PEC 8/2025 encabeçada pela Deputada Federal Érika Hilton (PSOL) e, posteriormente, com a força de mobilização do tema, o próprio governo federal apresentou o PL 1838/2026, que propõe uma jornada de 40 horas semanais e escala 5×2 sem redução de salário. O projeto tramita com urgência constitucional na Câmara e aguarda votação em plenário prevista para ainda esse mês.  Em um país construído pela escravidão do tempo do outro, o debate sobre a jornada de trabalho mexe vem mexendo em feridas. 

Ao falar sobre a sobrecarga de trabalho, o tempo exaustivo de deslocamento, os salários incompatíveis e a falta de lazer dos trabalhadores brasileiros, há uma figura que permanece ao lado, muitas vezes silenciada para não atrapalhar,  que também precisa ser incluída nesse debate: nossas crianças. Em um país em que cerca de 8 milhões de mães sustentam e cuidam de seus filhos sozinhas, a escala dessas trabalhadoras impacta diretamente a qualidade de vida dos seus filhos, como aconteceu comigo.

Minha mãe também trabalhou em uma escala 6×1, assim como cerca de 70% da força de trabalho brasileira, segundo o movimento Vida Além do Trabalho (VAT), por mais de 30 anos, de segunda a sábado, das 8h às 17h.  Esse horário não contava com o tempo de deslocamento, que eram ao menos 5 horas entre ida e volta. Passei boa parte dos meus sábados  acompanhando minha mãe no serviço. Na prática, isso significava acordar na madrugada seis dias por semana e enfrentar três conduções até um espaço que não foi pensado para mulheres com filhos, muitas vezes insalubre para a presença deles.

Essa é a realidade de muitas mulheres negras, que representam 16,9% dos vínculos empregatícios formais e se concentram nas ocupações de base da pirâmide, como serviços domésticos, limpeza e alimentação, segundo dados do Ministério do Trabalho e Emprego de 2024. Ao mesmo tempo, mais da metade das mulheres que chefiam lares no Brasil é negra — 53% do total de 41,3 milhões de chefes de família femininas. Se muitos desses ambientes não são sequer pensados para as mulheres, suas violações em relação às crianças são ainda mais profundas. Para aquelas que trabalham como empregadas domésticas, os filhos devem permanecer em um quartinho, sem poder brincar em voz alta e mais importante, sem incomodar os patrões. 

Quando era criança achava normal frequentar o trabalho da minha mãe mesmo aos sábados, até porque essa era uma realidade comum entre muitas amigas que hoje como pesquisadora reconheço nos dados. Os motivos para se levar o filho para o trabalho são muitos. Em um país profundamente desigual, sem as mães as taxas de letalidade seriam ainda drásticas. A falta de creches e de políticas de cuidado no contraturno escolar, o medo da violência e do abuso infantil somadas a distância entre casa e trabalho levam essas mães a carregarem seus filhos para todos os lados. Mais do que uma escolha, trata-se de uma estratégia de proteção. Por isso, a recente criação da Política Nacional de Cuidados marca um avanço importante, ainda que tardio. 

Por muito tempo, o Brasil não olhava para quem cuida como sujeito de direito e nem para o cuidado como um dever do estado. Essa combinação é parte de uma herança histórica marcada por estruturas escravocratas e patriarcais que moldaram o mundo do trabalho injusto, sobretudo para mulheres negras. Enquanto países latino-americanos como Chile e Colômbia avançam na redução da jornada de trabalho, o Brasil ainda precisa enfrentar um debate central: a quem serve o atual modelo de trabalho? A pergunta anterior pode ser respondida  analisando o perfil de quem vai decidir sobre a escala de trabalho brasileira. Uma pesquisa publicada em dezembro pela Quaest mostrou que 72% da população é a favor do fim da escala 6×1 mas já entre os deputados, apenas 42% são favoráveis. No Congresso brasileiro hoje apenas 47 das 513 cadeiras são ocupadas por mulheres negras – um grupo que representa a maior parcela da população brasileira, cerca de 28% do total de habitantes do país. Em contrapartida, 61% dos parlamentares federais são homens brancos e segundo a autodeclaração desses representantes do povo ao TSE e analisados pelo Inesc, o patrimônio médio de um parlamentar é de 3 milhões de reais, logo, 43% dos eleitos são milionários. Isso significa que o patrimônio médio de um deputado federal do Brasil é 62 vezes maior que o da média dos brasileiros.  

A manutenção de jornadas exaustivas, como a escala 6×1, não impacta apenas trabalhadores, ela organiza, limita e, muitas vezes, compromete o desenvolvimento de uma geração inteira. Frente a realidade do país, toda vez que uma mãe precisa sair para trabalhar aos finais de semana ou quando a escola está fechada, devemos nos perguntar: onde seu filho vai ficar? Repensar a jornada de trabalho no Brasil é uma agenda de infância, de cuidado e de futuro. A escala 6×1 também estrutura, silenciosamente, a rotina das nossas crianças. Basta pensar, se o dia das mães não tivesse caído no domingo, quem teria conseguido celebrar essa data?

Luize Sampaio é jornalista e pesquisadora especializada em gestão e avaliação de políticas públicas. Nascida e criada no Rio, monitora os impactos da desigualdade social nas cidades a partir das temáticas de justiça racial, de gênero e climática. Atualmente é coordenadora de informação da Casa Fluminense e pesquisadora do Programa Saberes da Rede Comuá.


Luize Sampaio é jornalista e pesquisadora especializada em gestão e avaliação de políticas públicas. Nascida e criada no Rio, monitora os impactos da desigualdade social nas cidades a partir das temáticas de justiça racial, de gênero e climática. Atualmente é coordenadora de informação da Casa Fluminense e pesquisadora do Programa Saberes da Rede Comuá. 


** ESTE ARTIGO É DE AUTORIA DE COLABORADORES OU ARTICULISTAS DO PORTAL GELEDÉS E NÃO REPRESENTA IDEIAS OU OPINIÕES DO VEÍCULO. PORTAL GELEDÉS OFERECE ESPAÇO PARA VOZES DIVERSAS DA ESFERA PÚBLICA, GARANTINDO ASSIM A PLURALIDADE DO DEBATE NA SOCIEDADE. 

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