Esses poemas
são coisas que eu faço
no escuro
estendendo a mão para você
seja lá quem você for
e
você está pronto?
(These Poems, June Jordan, tradução minha)
Era uma noite de terça-feira, 24 de fevereiro de 2026, em um momento de lazer cultural, quando entrei no Teatro “The Freight”, em Berkeley, para assistir o espetáculo “Poetry for the People: The June Jordan Experience”, com direção de Raymond O. Caldwell1. Diante da fusão de música e palavra, entoada na performance marcante das atrizes e nas notas do teclado de Adrienne Torf, fui transportado para o universo – até então desconhecido por mim – da poeta e professora June Jordan, uma das vozes mais potentes da luta por justiça racial e social nos Estados Unidos.
June Jordan nasceu em Harlem, Nova York, em 1936, filha de imigrantes jamaicanos e panamenhos, e cresceu em comunidades negras nos Estados Unidos. Escritora, ensaísta e poeta, lecionou em universidades, incluindo a Universidade da Califórnia, em Berkeley, onde fundou, em 1991, o programa “Poetry for the People” (Poesia para o Povo). A iniciativa subverteu a ideia de que a poesia é um clube de elite, ao democratizar a palavra e transformar estudantes em agentes de suas próprias histórias.
Neste contexto, o fundamento de sua proposta era simples, porém radical: validar a voz de cada sujeito, permitindo que pessoas historicamente silenciadas assumissem o controle de suas próprias narrativas. Entre os pilares teóricos mais interessantes do programa “Poesia para o Povo”, destaca-se o entendimento de evitar o enfraquecimento poético pela abstração e pelo eufemismo, pois a poesia requer uma ação política comprometida com a verdade e a precisão da linguagem.
A partir desses princípios, inspirado na tradição da poesia negra, o “Poesia para o Povo” utiliza a musicalidade das palavras para celebrar a democracia na educação, onde Jordan e seus alunos, a partir de suas experiências, utilizavam os versos para denunciar questões como os direitos civis, o preconceito racial, a luta dos palestinos, o imperialismo, o feminismo e os direitos LGBTQ+, entre outras. Desse modo, o “Poesia para o Povo” não formava apenas poetas e escritores, mas também cidadãos críticos e conscientes, prontos para dizer a verdade sobre si mesmos e sobre o mundo.
Por fim, naquela noite em Berkeley, pude perceber uma amostra desse imenso legado de June Jordan, particularmente com a instigante interação que as atrizes fizeram com a plateia. Mais do que isso, a peça não apenas celebrou uma trajetória, mas reafirmou a linguagem como um campo de luta pela democracia e pela dignidade humana. Em um mundo que tenta silenciar pessoas com base em estereótipos e preconceitos, o “Poesia para o Povo” apresenta-se como contribuição potente – em diálogo com importantes escritoras e escritores, educadoras e educadores do Brasil – para pensar e agir na realidade periférica, cultural e educacional brasileira. Assim, saí fortalecido do “The Freight” – refletindo sobre as aproximações com o projeto cartovivências, que venho desenvolvendo na Unifesp Zona Leste –, e contente por encontrar com June Jordan na caminhada, no entendimento de que todos podemos transformar o mundo por meio do poder das palavras.
- Website do espetáculo: https://secure.thefreight.org/15663/15664-poetry-for-the-people-the-june-jordan-experience-250224 ↩︎
Referências
KINLOCH, Valerie. June Jordan: her life and letters. Westport, Connecticut: Praeger, 2006.
JORDAN, June. Introduction. In: MULLER, Lauren (Org.). June Jordan’s Poetry for the People: a revolutionary blueprint. New York & London: Routledge, 1995._____. The essential June Jordan. Org. Jan Heller Levi; Christoph Keller. London: Penguin Books, 2021.

Ricardo B. da Silva é geógrafo, poeta e escritor, atualmente, professor do Campus Zona Leste da Unifesp e colaborador do Programa de Pós-Graduação ProMuSSP – EACH-USP. Foi pesquisador visitante no Departamento de Geografia da Universidade da Califórnia, Berkeley – EUA, entre janeiro e abril de 2026.
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