Após uma longa e intensa temporada de COP30 no Brasil, com todos os conflitos que ela trouxe e manteve, alguns temas discutidos nela esfriaram. Obviamente os Mapas do Caminho do Fim do Desmatamento e o do Fim dos Combustíveis Fosseis são temas mais quentes que aproveitam as discussões que aconteceram na COP30, a estrutura da UNFCCC e possibilidades paralelas à essas estruturas. Mas um rascunho de documento publicado no dia 15 de novembro de 2025, na COP de Belém, trouxe o termo “mapa do caminho” para algo que ficou em segundo plano: Sinergia entre as Convenções do Rio, estruturas criadas na Rio-92 para tratar mudanças climáticas, perda de biodiversidade e degradação dos solos.
De forma objetiva, e lembrando um pouco a palavra Mutirão, sinergia é a união de esforços em torno de um objetivo comum, gerando maior eficiência, coesão e potencialização dos resultados. Na linguagem diplomática dos espaços multilaterais, sinergia significa colocar as convenções e acordos internacionais para trabalhar em conjunto, de forma complementar, evitando conflitos entre o que já está acordado e economizando esforços e recursos na implementação dos acordos. E já tem anos que é discutida a necessidade de sinergia entre convenções do Rio, temos até um compilado de documentos em cada convenção que reforçam isso disponível online.
O que me questiono é: Por que parar nas Convenções do Rio? Existem diversas outras Convenções e acordos Ambientais que já possuem muitas proposições e ações em andamento dentro da própria estrutura da ONU que deveriam atuar sinergicamente. E obviamente as decisões tomadas nesses espaços tem pesos desiguais em cada parte da população mundial. Cada acordo tem estruturas próprias com diferentes níveis de propostas que podem considerar ou não as desigualdades de renda, gênero, raça e territoriais. Aí que ações sinérgicas baseadas nos direitos humanos, Objetivos do Desenvolvimento Sustentável e outros acordos com foco nessas desigualdades podem gerar um acúmulo positivo.
Conflitos de interesse sempre são fatores que delongam ações sinérgicas. O que pode ser positivo para um país no que é acordado em uma convenção, pode causar prejuízo em outro compromisso, causando “má adaptação”. Um exemplo comumente usado pra sintetizar problemas entre as Convenções do Rio é chamarem de reflorestamento o plantio de uma única espécie comercial de árvore, como eucalipto, para absorver carbono, sem contar com os danos na biodiversidade ou nos solos no local. Todavia isso não considera possíveis conflitos territoriais de diferentes usos da terra, tanto produtivos, quanto culturais, como fazer esse plantio em uma área tradicionalmente ocupada por Quilombolas, por exemplo. Mas hoje os conflitos de interesse se acumulam juntamente com uma crise generalizada do multilateralismo, piorando um cenário que já era socialmente e ambientalmente ruim.
A sinergia também fica prejudicada quando cada conferência precisa ficar reafirmando sua importância individualmente. Durante a “Pré-COP”, lideranças brasileiras reafirmavam a importância da COP (de clima) como mecanismo útil para o fortalecimento do multilateralismo. Isso após as reconhecidas ameaças ao multilateralismo e à COP30 devido aos conflitos tarifários criados pelos EUA, ascensão do fascismo ao poder na Europa e aumento do número de guerras, como dito pelo próprio presidente da COP30, André Corrêa do Lago, em entrevista. Uma situação criada majoritariamente por países do Norte Global, em que os conflitos têm caráter colonial e até mesmo genocida, onde os fóruns internacionais tem se mostrado ineptos para pará-los. E já no pós COP, o embaixador Corrêa do Lago reconhece que esbarramos em limites do Multilateralismo em sua 12ª carta como presidente.
Na mesma carta, afirma algo importante: “A urgência climática não esperará até que as condições políticas e socioeconômicas se tornem ideais”. E nesse espírito de urgência, propõem que o multilateralismo climático agora deve possuir dois níveis de velocidade de ação, onde o primeiro deve seguir ancorado no consenso e segundo nível focado na implementação. O Segundo nível como forma de superar a fragmentação global, e integrar estrategicamente recursos, atores e políticas, convertendo esforços isolados em “mudanças exponenciais e impactos em cascata” (chamados de Pontos de inflexão positivos) nas áreas de maior prioridade. Isso não cheira a Sinergia?
Existem motivos para eu estar utilizando mais informações sobre a última COP de clima, mesmo reconhecendo a importância das outras. Além da presidência da Conferência ainda estar na mão do Brasil, aumentando nossa capacidade de influência, a COP de clima é uma das estruturas internacionais politicamente mais visadas. O peso de decisões tomadas ali e a capacidade de mobilizar políticas e recursos financeiros e humanos é maior. Outras Convenções já avançam nesse pedido pelo da fragmentação de ação, mas falta essa influência da “irmã famosa”.
Mas como Mariana Belmont já disse por aqui, essa fragmentação, que nunca foi neutra, serve a interesses econômicos e políticos, lucrando com a desorganização e explorando os corpos e territórios de populações negras, indígenas e tradicionais. Estas estruturas seguem não só se afastando uma da outra, mas afastando a capacidade de tomada de decisão dos mais afetados pelas crises ambientais e inibindo até mesmo a participação deles, quando não recebem espaço por mero tokenismo.
Como ouvi na COP30 de Astrid Schomaker, Secretária executiva da Convenção sobre Diversidade Biológica (CBD na sigla em inglês), “não adianta reinventar a roda” ao falar que não precisávamos de mais e mais estruturas e acordos para fazer a sinergia acontecer entre as convenções ambientais, mas sim investir no que já existe. Foi lá que também vi as presidências atuais e futuras das três Convenções assinarem a Declaração Conjunta de Belém sobre as Convenções do Rio. Mas nessa mesma conferência que um embaixador, representando a presidência da COP30, terminou a reunião final sobre sinergia com “podemos concordar que estamos todos igualmente desapontados” com um documento de conclusão bem diferente do que estava proposto no rascunho citado no início deste texto. Algo que desagradou blocos bem diferentes de países, entre os com maior e menor capacidade de resposta à crise climática.
Voltando aos níveis do Multilateralismo, mesmo que o primeiro nível do consenso ainda atrapalhe muitas decisões, como tem apontado parte da sociedade civil que participa de COP, ainda é útil aproveitarmos essas estruturas que já foram ratificadas por diversos países como forma de evitar novos conflitos por consenso. Como no dito popular “o acordado não sai caro”. Ao aproveitarmos dessas múltiplas estruturas já existentes e suas complementariedades, podemos superar as lacunas de ação que tanto afetam desproporcionalmente pessoas no mundo todo.
Já no segundo nível, se o Brasil realmente acredita no potencial de criarmos Pontos de inflexão positivos, tá na hora de olhar mais para Cooperação de Organizações Internacionais via Sinergias. Não adianta focarmos apenas em mecanismos de mercado e considerar só eles implementação. Sem a participação e tomada de decisão mais justas continuaremos a alimentar a crise planetária que vivemos, mantendo poluidores na posição de poluidores e ignorando os problemas concretos das maiores vítimas.
Temos que lutar para que o sistema planetário permaneça oferecendo possibilidades para a vida em todas as suas formas, a fim de que os diversos modos de habitar e entender o mundo perdurem através das gerações. Uma biosfera indivisível, onde caibam muitos mundos. Esse é o de um mapa de um caminho justo e urgente.
Yago Rodrigues Santos é paraense e técnico científico que atua com pesquisas em ecologia e clima na Amazônia. É membro do Puxirum do Bem Viver, coletivo que pauta a agroecologia e questões socioambientais no Amazonas.
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