A escola, a novela e o racismo

Ois, cá estou novamente. E ainda sem banda larga, pois a assistência técnica deve ter gostado de hospedar o meu modem, e como eles não têm previsão de entrega, penso que terei que apelar para o Procon… mais essa.

Bem, essa semana que passou foi relevante, porque assisti a como se processa o racismo, de uma forma nem tão velada como dizem por aí. A professora de alfabetização de uma determinada escola aqui do Rio enviou para onde eu trabalho, um material que vai se transformar em apostilas para suas crianças. Esse material é bastante ilustrado, e geralmente sou eu quem faço a maioria dessas ilustrações. Algumas eu crio e outras que já existem, tenho que modificar para se adequarem aos textos da apostila. E eis que minha supervisora me aparece com uma apostila aberta numa página em que o desenho de um personagem negro tinha uma anotação feita pela tal professora: “trocar desenho”.

Tá, trocar este desenho por qual outro? Não, troca só o personagem negro por um branco.

Li o texto novamente para entender o porquê daquela troca de cor de pele; o personagem negro se chamava Mestre André, tocava instrumentos e tinha uma loja deles.

Especulamos, então, sobre o assunto. Mestre André pode ser nome de um cara que pratica capoeira. Também pode ser um mestre de obras. Um mestre cuca. Um mestre de salas de aula. Então, PQP, qualquer ofício destes pode ser desempenhado tanto por negros quanto por brancos, e por que diabos aquela professora cismou com o pretinho???

Fonte: Opiniões e Idéias –

Numa realidade como a nossa, brasileiros feitos por mistura de raças, como ignorar os negros num livro escolar? Seria o mesmo que ignorar as crianças negras na sala de aula, e eu me senti absolutamente impotente por ter que fazer aquela tarefa. Cheguei a pensar em trocar o negrinho pelo Pequeno Príncipe, como uma forma de ironizar o preconceito, mas entendi que meu emprego estava em jogo e então, fiz um lourinho de olhos azuis.

Isso tudo só serviu para me dar mais certeza dessa coisa nojenta que é o racismo, e como ele existe por baixo das boas maneiras e da boa educação. Conheço gente que diz que não é racista, mas vendo Camila Pitanga no Faustão, fica indagando como ela pode ser tão bonita e ter um cabelo tão “bom”, já que o pai é negro mesmo. “Ah, mas a mãe tem a pele mais clara…”

Também já ouvi a máxima daquele cara que que tem um amigo que é “pretinho” mas é legal. E também do sujeito que odeia negros mas não dispensa uma negra gostosona.

Hoje muitas revistas estampam a Taís Araujo Maravilhosa na capa. São inúmeras reportagens comentando o fato de duas novelas da Globo, agora, terem protagonistas negras, pois a Camila Pitanga também faz a mocinha na novela das seis. Legal pra elas e pra todo mundo que gosta de novela, mas tenho um pouco de preguiça dessa supervalorização do fato delas elas serem negras e terem um papel de destaque. Ás vezes me soa como “tadinhas, elas merecem, afinal são negras, devem ter sofrido tanto…”

Prefiro achar que são lindas e boas atrizes, pois nunca acreditei que uma raça pudesse determinar a competência de um ser humano.
Mas o interessante disso tudo é que, quando eu era criança, havia uma novela em preto e branco com o Sérgio Cardoso fazendo o papel de um negro. O nome era A Cabana do Pai Tomás, e acreditem, ele se pintava de negro para representar aquele papel.

Matéria original

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