A escravidão acabou. Só falta avisar à classe média.

Por: Paula Libence

 

Li uma nota há algum tempo sobre a crise no setor de serviços domésticos no Brasil e que dizia o seguinte: “escassez de domésticas pode mudar hábitos da classe média.” Confesso que fiquei extremamente contente depois de ter lido toda a matéria. Porque pensar que as madames cheias de blush e pompa, e que vivem atoladas nas prestações e financiamentos para sustentar seus pequenos luxos, de agora em diante terão de cuidar da própria vida, fazer suas atividades domésticas, fazer sua comida, lavar a própria roupa, levar as crianças à escola e engomar a camisa do marido. A sensação foi de puro êxtase. Isso porque as pretinhas faveladas que historicamente foram destinadas a fazer esse tipo de serviço não o querem mais, porque agora contam com a possibilidade de almejar uma condição de vida melhor nos estudos. Confesso que tenho imensa satisfação diante disso.

O interessante é que a nota traz um tom alarmista quanto à escassez na oferta de serviços domésticos à classe média no Brasil. E essa preocupação se dá no tocante de que “estamos perdendo nossas escravinhas!”. E a partir de agora, como essa classe sobreviverá? “Quem irá nos salvar?”

Para tanto, julgo necessário relembrar um pouco do nosso passado escravista para que vocês entendam o que de fato quero dizer. Acredito que lembrem muito bem de como se dava e era gerada a “oferta de serviços” na casa-grande. Um grupo de mulheres, conhecidas como mucamas eram incumbidas de realizar os serviços da casa, serviços estes que eram cuidar da casa, da comida dos senhores, da rouparia fina portuguesa, tratar da sinhá, amamentar seus filhos e ainda “servir” seu senhor, se é que vocês me entendem (não é por acaso que o uniforme de empregada doméstica é, até hoje, …).

E assim o serviço doméstico foi construído na sociedade brasileira, numa relação totalmente escravista. E guardadas as devidas proporções, isso se mantém inalterado até hoje. Ou vocês acham que o trabalho doméstico surgiu como mais uma simples oferta de emprego nas relações trabalhistas que foram se estabelecendo ao longo do tempo? Lamento informar, mas o surgimento do trabalho doméstico é algo mais complexo e eivado de resquícios escravistas do que imaginam. Afinal de contas, no período pós-abolicionista as escravizadas libertas não tinham do que viver e de onde tirar seu sustento, tão logo elas foram submetidas a continuar no regime de trabalho a que foram submetidas desde a escravidão, isso. Isso sem falar, naquelas que “optaram” por continuar a servir seus senhores porque aquela era a única forma de vida que elas conheciam e já estavam “acostumadas” àquele tipo de serviço (como elas não sabiam nem ler, não adiantaria sair de onde estavam para procurar emprego fora). Daí a escrava doméstica passou a ser a empregada doméstica da casa.

E foi isso que segurou a onda das famílias negras por muito tempo, uma vez que os homens estavam todos desempregados. Se as mulheres não tivessem saído às ruas para lavar roupa de ganho, passar roupa com ferro a carvão, cozinhar, lavar prato, fazer faxina e tomar conta dos filhos e filhas das brancas, a vida das famílias negras teria sido muito mais difícil do que foi.

Pensem o que seria dessas sinhás se não fosse o serviço da “negrinha”, visto que as belas eram moças vindas da corte portuguesa com suas finezas e de nada entendiam sobre afazeres domésticos? É o que acontece hoje com a crise da oferta de serviços domésticos. Parte da negrada que serve nas casas de família hoje estão se rebelando e buscando outras áreas de atuação que não a senzala moderna. As negrinhas agora resolveram estudar e galgar outros caminhos, por isso não tem mais escrava no mercado para atender a classe burguesa.

Eis que surge em caráter alarmista, como já fora citado, a preocupação da grande mídia que quer saber o que fazer diante desta realidade; como – e sobretudo quem – vai fazer os serviços que mulheres predestinadamente subalternizadas prestavam e agora não querem mais fazê-los.

Quem vai levar as crianças à escola, preparar o almoço, lavar a roupa, o carro, limpar a garagem, cortar a grama, passar o vestido da madame e lavar a louça? Esta é a pergunta que não quer calar (confesso que gargalhadas me tomam só de pensar que as patroinhas estão desamparadas serviçalmente), e não serei hipócrita em dizer que sinto total contentamento com a notícia e a possibilidade de ver essa maldita classe “mérdia” fazendo todo o serviço que condenava às negrinhas, ou, no melhor dos termos, empregada doméstica,ajudante, faxineira, diarista ou até mesmo secretária do lar.

O melhor de tudo é pensar que o governo agora será acionado para ofertar os serviços que deveria oferecer e que assumirá parte das responsabilidades da qual essa classe necessita. Não entendem o que digo? Seguinte: como não há mais pretinhas para trabalhar nas ditas “casas de família” e as madames precisam cuidar de seus negócios, o Estado terá de criar mais creches para abrigar seus filhos porque agora não há com quem deixá-los; terão de flexibilizar a jornada de trabalho, já que elas terão de voltar mais cedo pra casa pra cuidar dos afazeres; melhorar o sistema de transportes públicos, porque não dá pra transitar neste caos chamado de cidade com toda essa precariedade e as ruas superlotadas; e ainda ter casa, filho e marido pra cuidar.

O mais irônico é que essas ações e serviços sempre foram reivindicadas pelas pretas faveladas que saíam de casa para trabalhar nas casas das brancas, mas o Estado nunca deu atenção a isso porque à classe a qual se destinava esses serviços era a subalternizada. Agora, com essa mudança de cenário, o governo é acionado para cumpri-las. Perceberam?

A preocupação não é e nunca foi com a classe trabalhadora, com a garantia de seus direitos e seguridade social, condições mínimas de trabalho e tantos outros, até aqui (vale destacar a luta que as entidades de defesa das empregadas domésticas travam até hoje para que os direitos das trabalhadoras sejam reconhecidos, respeitados e cumpridos pelo Estado e pelo patronato). Até aqui, nenhuma novidade. A preocupação agora é o que fazer sem ninguém pra limpar a minha merda já que agora é minha responsabilidade cuidar dos meus afazeres, da minha casa, dos meus filhos, da minha roupa. Porque é muito fácil posar de mulher independente quando há uma escravinha que faz tudo pra mim. Onde está essa tal independência feminina? Está na cozinha de minha casa, quando saio pra trabalhar, vou ao escritório, planejo ações, organizo reuniões, mas não lavo o prato que como ou sequer a calcinha que usei durante o dia? Assim, eu também quero! A independência de uma mulher está na subserviência de outra? Para eu ser independente, é preciso que uma cuide de minhas tarefas…, que de próprio cunho e origem, não cabe a mim fazê-la?

Calma, ainda não é o fim de tudo. Não sou o Chapolin Colorado, mas posso dizer que dessa vez vocês não contavam com a minha astúcia. Para curar essa deficiência social, creio que essa classe “mérdia” precisará de umas aulinhas de AVD (Atividade para Vida Diária). Essa atividade é ofertada às pessoas com deficiência visual, a fim de que possam adquirir autonomia sobre sua vida. Nessas aulas, são ministrados modos de como cuidar da casa, abotoar a camisa, lavar a louça, varrer o sobrado, ligar o micro-ondas, retirar o copo da mesa e pôr na pia e tantas outras atividades inerentes à vida doméstica. Sei que parece estranho usar de métodos aplicados às pessoas com deficiência visual para tratar de uma classe que vive uma deficiência social. Mas não vejo outra possibilidade mais viável para solucionar, ainda que paliativamente, estes encalços da burguesia.

Pode parecer grosseira a analogia, mas é o modo como a classe média e alta nos vê e nos trata. Ignoram nossos problemas, fazem chacota de nossa condição social por serem abastados, e por acharem que são superiores a nós.

Por que agora se preocupar com essa massa podre da sociedade e esquecer os efeitos danosos que nos causam? Acham mesmo que eles estão preocupados se não temos emprego ou se o mercado de trabalho nos aniquila a todo o momento? Temos de deixar nossos filhos em casa sozinhos ou com o irmão mais velho para cuidar dos filhos das patroas que não podem dormir só. Temos de comer de marmita para dar tempo de preparar o almoço da senhora quando ela voltar da sessão de massagem. Temos de lavar a privada dela enquanto ela está no salão fazendo as unhas. Temos de sair no alvorecer do dia para chegarmos ao trabalho e pôr a mesa para o patrão enquanto mal engolimos aquele cafezinho preto e insosso. Vocês acham isso justo? Eu, não!

Ainda acham pouco o meu descaso com essa crise? Experimentem viver todos os dias as memórias do açoite presente nos maus tratos a que somos submetidas quando nos furtam nossa dignidade e nos escravizam nesse maldito escravismo “sem ódio”.

Aquele mesmo racismo “sem ódio” dito pelo cartunista Ziraldo que nos acalentava dizendo que o racismo sem ódio vivido por nós aqui no Brasil pela inexistência de uma Ku Kux Klan é pacífico. O mesmo sujeito que posa de bom-moço hoje, mas participou ativamente do linchamento artístico do cantor Wilson Simonal na década de 1970 ao sustentar a calúnia de que este era informante do DOPS. Afinal de contas, não estabelecemos lugar de preto e lugar de branco. Não temos negros queimados em praças públicas como mostra do nosso ódio. Esse nosso racismo é sutil. Eu acho até que ele não existe.

Eu agora vos digo que este sistema de trabalho doméstico é nada mais que a modernização do trabalho escravo dos recentes duzentos anos que se passou e que nos dizem que fora execrado da nossa sociedade. Este é o escravismo sem ódio porque não somos chibateadas no tronco das senzalas, não sentimos a força do açoite no nosso lombo. As chibatadas são dadas de outras formas: descaso, menosprezo, piadinhas de mau-gosto, baixos salários, péssimas condições de trabalho, não-reconhecimento de direitos trabalhistas, estupros…

E assim prosseguimos nesta pátria amada chamada Brasil.

 

 

 

Fonte: Correio Nago

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