quinta-feira, maio 26, 2022
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“A luta é minha vida” discurso de Nelson Mandela em 26 de junho de 1961

Em carta de 1961, com o CNA proscrito, Mandela anuncia os planos de luta contra o apartheid

Carta deixada pelo líder, Nelson Mandela, em 26 de junho de 1961, explicando sua decisão de continuar com o ativismo político depois de o Congresso Nacional Africano (ANC) ter sido proibido pelo governo sulafricano. Mandela convoca seu povo a resistir às violências da minoria branca, exorta a comunidade internacional a reagir e afirma que sua escolha é “lutar pela liberdade até o fim” de seus dias.

A magnífica resposta ao apelo do Conselho Nacional de Ação para uma greve de três dias e o maravilhoso trabalho feito pelos organizadores e trabalhadores do campo por todo país prova novamente que nenhum poder na Terra pode parar um povo oprimido determinado a ganhar a própria liberdade. Diante de uma intimidação sem precedentes do governo a empregadores e de falsidades grosseiras e distorções por parte da imprensa, imediatamente antes e durante a greve, as pessoas da África do Sul amantes da liberdade deram um gigante e sólido apoio às resoluções históricas e desafiadoras da Conferência de Pietermaritzburg. Trabalhadores de fábricas e escritórios, empresários na cidade e no campo, estudantes em universidades, escolas primária e secundária, inspirados por um patriotismo genuíno e ameaçados pela perda de empregos, o cancelamento de alvará de funcionamento e a ruína das carreiras escolares, despertaram para a ocasião e gravaram em tom enfático a oposição à república Branca, imposta à força pela minoria. À luz do conjunto formidável de forças hostis que estavam contra nós e as condições difíceis e perigosas em que nós trabalhamos, os resultados são os mais inspiradores. Estou confiante de que se nós trabalharmos mais e de forma mais sistemática, o governo Nacionalista não vai sobreviver por muito tempo. Nenhuma organização no mundo poderia ter resistido e sobrevivido ao bombardeio maciço e em grande escala dirigido a nós por parte do governo durante o último mês.

Na história de nosso país, nenhuma campanha política já havia merecido a atenção séria e de respeito que o governo Nacionalista nos deu. Quando um governo procura reprimir uma manifestação pacífica de um povo desarmado, mobilizando os recursos completos do Estado, ele reconhece o apoio poderoso da massa. Pode haver alguma outra evidência que prove que nos tornamos um poder para ser lembrado e a mais forte oposição ao governo? Quem pode negar o fato de que, desde o final do mês passado, a questão que tem dominado a política sul-africana não são as celebrações republicanas, mas nossos planos de greve geral?

Hoje é 26 de junho, um dia conhecido em todo cumprimento e largura de nosso país como Dia da Liberdade. Neste dia memorável, nove anos atrás, 8.500 de nós, dedicados lutadores pela liberdade,  deferimos um poderoso golpe contra as repressivas políticas de cor do governo. A coragem incomparável deu a eles o apreço e afeição de milhões de pessoas aqui e de fora. Desde então, tivemos várias campanhas em agitação nesta data e foi observado por centenas de milhares de nosso povo como um dia de dedicação. É apropriado que neste dia histórico eu possa falar a vocês e anunciar novos planos para a abertura da segunda fase da luta contra a República Verwoerd, e por uma Convenção Nacional.

No momento atual é suficiente dizer que nós planejamos fazer o governo impossível.  Daqueles que não podem votar não se pode esperar o pagamento de impostos a um governo que não é responsável por ele. Não pode ser esperado de pessoas que vivem na pobreza e na fome o pagamento de aluguel exorbitante ao governo e autoridades locais. Nós fornecemos os tendões da agricultura e da indústria. Nós produzimos o trabalho em minas de ouro, diamantes e carvão, das fazendas e indústria, em retorno por salários miseráveis. Por que nós deveríamos continuar enriquecendo aqueles que roubam os produtos de nosso suor e sangue? Aqueles que nos exploram e nos recusam o direito de organizar sindicatos? Aqueles que ficam do lado do governo quando encenamos manifestações pacíficas para afirmar as nossas revindicações e aspirações? Como os africanos podem servir em Conselhos Escolares e comitês que fazem parte da Educação Bantu, um esquema sinistro do governo nacionalista para privar os povos africanos da verdadeira educação em troca de educação tribal? Pode-se esperar que o povo africano contente-se em servir em conselhos consultivos e Autoridades Bantu, quando a demanda em todo o continente africano é para a independência nacional e autogoverno? Não é uma afronta aos africanos que o governo possa agora estender Autoridades Bantu às cidades, quando pessoas nas áreas rurais se recusaram a aceitar o mesmo sistema e lutaram contra isso com unhas e dentes? Qual africano não morre de indignação quando milhares de nosso povo são enviados à prisão todos os meses, por leis cruéis de passagem? Por que deveríamos continuar a carregar esses emblemas de escravidão? A não colaboração é uma arma dinâmica. Nós devemos recusar. Nós devemos usar isso para levar esse governo ao túmulo. Isso deve ser usado vigorosamente e sem demora. Todos os recursos dos negros devem ser mobilizados para retirar toda a cooperação com o governo Nacionalista.  Várias formas de ação industrial e econômica serão usadas para minar a economia já cambaleante do país. Nós vamos chamar os organismos internacionais para expulsar a África do Sul e vamos chamar as nações do mundo para romper relações diplomáticas e econômicas com o país.

Eu fui informado que o meu mandado de prisão já foi expedido e que a polícia está procurando por mim. O Conselho Nacional de Ação deu atenção integral à questão, e procurou o conselho de muitos amigos e organismos e eles me aconselharam a não me render. Eu aceitei este conselho e não vou me entregar a um governo que eu não reconheço. Qualquer político sério vai perceber que sob as condições de hoje neste país, buscar o martírio barato me entregando à polícia é ingênuo e criminal. Nós temos um programa importante pela frente e é importante realizá-lo de forma muito séria e sem demora.

Eu escolhi este último caminho, que é muito mais difícil e possui muito mais riscos e privações do que sentar na prisão. Eu tive que me separar da minha querida esposa e filhos, da minha mãe e irmãs, para viver como um fora da lei na minha própria terra. Eu tive que fechar o meu negócio, abandonar a minha profissão e viver na pobreza e miséria, como muitas pessoas estão fazendo. Eu vou continuar a agir como porta-voz do Conselho Nacional de Ação durante a fase que se desdobra e nas batalhas difíceis que vêm pela frente. Eu vou lutar contra o governo lado a lado com você. Palmo a palmo, milha a milha, até que a vitória seja alcançada. O que você vai fazer? Você vai se unir a nós ou vai cooperar com o governo e seus esforços de reprimir as revindicações e aspirações de nosso povo? Ou você vai permanecer em silêncio e neutro na questão de vida ou morte para o meu povo, nosso povo? Eu fiz a escolha de minha parte. Eu não vou abandonar a África do Sul, nem vou me render. Somente através de provisões, sacrifícios e ação militante a liberdade pode ser conquistada. A luta é minha vida. Eu vou continuar a lutar por liberdade até o fim dos meus dias.”

assinatura mandela

 

 

 

 

 

 

 

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