A Morte sem pena

eles não portavam armas nem drogas.

Reprodução/ Twitter

Por Lelê Teles Do Fasto Sene Fastos

não estavam sendo acusados de nada, não estavam em alta velocidade nem dirigiam embriagados, não fizeram “movimentos suspeitos”, não desacataram as autoridades, não tentaram se evadir, não reagiram…

mesmo assim, tiveram o carro metralhado pela polícia. os jovens foram fuzilados impiedosamente, seus frágeis corpos foram atravessados por projéteis de fuzis que não foram projetados para eles.

eram amigos e comemoravam o emprego com carteira assinada de um deles, o mais novo.

a única explicação para a chacina: eram todos pobres e negros, cabras marcados para morrer.

Big Foot, o governador, diz que racismo não se aplica a este caso.

se aplica a qual? então seus policiais atiraram no que não viram, governador? o batalhão onde trabalhavam os assassinos, em Irajá, tem histórico de fuzilamentos de inocentes.

pior que um país que condena seus cidadãos a uma pena de morte, só um outro que condena seus jovens a uma morte sem pena, sem piedade.

mortos pela mão do estado, a sangue frio, no meio da rua.

silêncio.

agora imagina a comoção se fossem eles uns jovens franceses, cruzando a Champs Elysée em um Citroen e uns barbudos encapuzados metralhassem o carango deles.

choro e ranger de dentes.

imagina se eles estivessem bebendo e fumando no Bataclan, a ouvir um barulhento rock’n’roll, e os mascarados os metralhassem.

lamentos e rasgar de vestes; avatares.

sendo eles pretos e pobres – quase humanos? – ganham um status de alteridade tão distante, mas tão distante, que não se consegue sentir nada por eles.

a sociedade se indigna quando jovens pobres e negros querem frequentar shoppings e universidades; se contorce quando veem jovens pobres e negros na televisão.

agora, sabê-los torturados ou vê-los presos ou mortos, não.

palavra da salvação.

 

 

 

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