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A mulher negra em lugar de liderança

Em entrevista à CNN, a diplomata americana Linda Thomas Greenfield fala de escravidão, racismo e conquistas

Embaixadora dos EUA na ONU, Linda Thomas-Greenfield Foto: Reuters/Mike Segar

Ouvi da embaixadora dos Estados Unidos no Conselho de Segurança da ONU, Linda Thomas Greenfield, que sou a primeira afrobrasileira que ela conheceu na vida. “Vou falar para os meus colegas brasileiros: onde estão suas pessoas negras?”, disse em tom descontraído. A diplomata é nascida em Louisiana e tem 69 anos. Naturalmente, essa conversa terminou em uma reflexão sobre como empoderar mais mulheres negras no mundo.

Não há fórmula mágica, e Greenfield enfatiza que chegar ao posto que chegou “não é fácil”. Uma combinação de estudos e resiliência explica a trajetória da mulher que se transformou na voz e face americana na principal arena de decisões do mundo sobre segurança, em tempos de guerras e violências de toda ordem, rurais e urbanas.

“Eu não internalizei (o racismo). Aquilo não virou um problema meu. Eu deixei isso como sendo problema dos outros, que queriam ser racistas. Eu sabia que tinha um trabalho a fazer. Em cada trabalho que tive, sempre tive uma atitude de comprometimento, de trabalho duro, e um senso de orgulho e de realização”, conta.

Como parte do programa de lideranças que os Estados Unidos realizam neste mês com jornalistas brasileiros negros, estou em Iowa, uma cidade com poucos negros, mas sede de um museu sobre a história afroamericana.

A entrevista com Greenfield foi online porque ela está em Nova York. Todos os estados americanos, em maior ou menor grau, celebram a partir desta sexta-feira (17) a chegada do 19 de junho, quando se comemora a emancipação dos negros.

Apesar do presidente da época, Abraham Lincoln, ter libertado os escravos com a proclamação da emancipação em 1863, somente dois anos depois, a informação foi avançando e chegou em todos os estados.

O fim da escravidão foi confirmado pelo último estado americano que ainda mantinha escravos, o Texas, em 19 de junho. Esta é a data comemorada.

A bisavó de Thomas-Greenfield nasceu exatamente em 1865, ainda como escrava. “Se o povo do estado da Louisiana tivesse sido informado [do fim da escravidão], ela poderia ter nascido uma pessoa livre”, afirma a embaixadora sobre sua bisavó, que depois recebeu a liberdade e viveu até os cem anos.

“Devo ser um dos seus sonhos mais loucos, porque a sua bisneta, apenas duas gerações à frente, se tornou embaixadora das Nações Unidas. Acho que ela nunca teria imaginado isso. Não fazia parte da imaginação dos meus avós, e certamente nem da dos meus pais, que isso poderia acontecer nos Estados Unidos”, enfatiza.

A briga dos negros nos Estados Unidos por espaço nas políticas públicas, no mercado de trabalho, na mídia, em posições de comando é constante. Mais do que serem vistos, eles reivindicam igualdade.

Acompanhe trechos da entrevista exclusiva da embaixadora à CNN:

CNN – É correto dizer que a população é sensível a esse tipo de mobilização? Os Estados Unidos comemoram a emancipação dos escravos, certo? Todos conhecem, todos celebram, ao redor do mundo e aqui, nos Estados Unidos. O mundo conhece essa data?

Linda Thomas-Greenfield – Fico muito feliz de termos criado esse feriado. E fiquei surpresa que o governo Biden conseguiu aprovar a data com tanta rapidez.

Isso passa a mensagem para os afroamericanos e para as pessoas não-brancas em todo o mundo de que podemos lembrar esse evento horrível chamado escravidão, que impactou milhões de pessoas de ascendência africana que foram traficadas em todo o mundo, incluindo no seu próprio país.

Isso nos dá a oportunidade de dar um passo atrás, de realmente olhar para a nossa história e refletir sobre o nosso passado.

No meu caso, pensei no fato de ter uma bisavó que nasceu em 1865 na escravidão e, se o povo do estado da Louisiana tivesse sido informado [do fim da escravidão], ela poderia ter nascido uma pessoa livre.

Não sei como isso afetou a vida dela e a da família ao longo de cem anos. Quando conheci a minha bisavó, eu era pequena.

Ela morreu aos cem anos, quando eu estava na oitava série. E, infelizmente, nunca tive a oportunidade ou nunca pensei nisso, porque eu era muito criança para falar com ela sobre suas experiências logo após a escravidão nos Estados Unidos.

Mas eu disse há alguns dias, num discurso, que eu devo ser um dos seus sonhos mais loucos, porque a sua bisneta, apenas duas gerações à frente, se tornou embaixadora das Nações Unidas. Acho que ela nunca teria imaginado isso.

Não fazia parte da imaginação dos meus avós, e certamente nem da dos meus pais, que isso poderia acontecer nos Estados Unidos.

Então, embora o motivo por trás do feriado de “Juneteenth” seja um pouco triste, o fato do feriado existir é um momento muitíssimo feliz, de celebração e de reflexão. Tenho muito orgulho de termos esse feriado aqui nos Estados Unidos.

O que é preciso para uma mulher negra se tornar uma líder como a senhora? Que dificuldades uma mulher tem nos Estados Unidos? Eu sou do Brasil e conheço os desafios daqui. A senhora acha que pode, de alguma forma, influenciar outras mulheres a se tornarem líderes também? E só mais uma pergunta: qual a importância dessa representatividade, Linda Thomas-Greenfield?

Ainda custo a acreditar que estou aqui. Eu acho importante ter pessoas que se parecem comigo em papéis de liderança, para que jovens como você, em qualquer lugar do mundo, saibam que essa é uma possibilidade que pode ser conquistada em suas vidas. Porque, na minha geração, quando eu era jovem, não via essa possibilidade.

As pessoas querem realizar planos e ser como outras que se parecem com elas.

Minha família me deu uma camiseta com a frase: “Minha embaixadora dos Estados Unidos para as Nações Unidas se parece comigo”, com uma foto minha. Então espero que minha presença dê confiança a jovens negros e negras, e a mulheres em especial, a pessoas negras e não-brancas, onde quer que estejam, que é possível chegar aos níveis mais altos.

Não foi fácil. Não vou dizer que foi fácil. Olhando para trás, para algumas das dificuldades que tive, não sei se as pessoas da geração de hoje aceitariam o tipo de puro preconceito e falta de respeito que minha geração teve de enfrentar para conquistar algo.

Mas eu sempre afirmei que a razão pela qual pude aceitar é porque eu não internalizei. Aquilo não virou um problema meu. Eu deixei isso como sendo problema dos outros, que queriam ser racistas. Eu sabia que tinha um trabalho a fazer. Em cada trabalho que tive, eu sempre tive uma atitude de comprometimento, de trabalho duro e um senso de orgulho e de realização.

Se os jovens tiverem essa atitude em relação ao trabalho, podem conquistar o mundo. E acho que, para sua geração, o mundo está aí para ser conquistado. Não tem nada que vocês não possam fazer.

Vocês podem ir para o espaço. Podem ser grandes médicos. Podem ser grandes cientistas. Você pode ser a melhor advogada dos Estados Unidos, e você pode ser uma embaixadora da ONU, porque pode fazer isso.

E acho que minha imagem e minha presença contribuíram um pouco com o sentimento de que tudo o que pode ser feito, nós podemos fazer.

No Brasil, eu sou jornalista há quinze anos e fiz uma pós-graduação em história também. Agora estou estudando Direito, para ser melhor no futuro.

Isso é fantástico! E acho que você também dá ao mundo a sensação de todas as possibilidades que uma jovem mulher negra pode realizar. É um prazer ver você, que você está na CNN, que você é do Brasil.

E olha, você é a primeira afrobrasileira que eu conheço. Para mim é uma grande honra, porque agora estou vendo pessoas do Brasil que se parecem comigo. Vou falar para os meus colegas brasileiros: “onde estão suas pessoas negras?”

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