A musculatura dos afetos. É preciso dançar o xirê da dignidade

São Paulo 18 de junho

BRASIL. ANO 522 P.E. (Pós- escravidão?). Diáspora.

No osso do meio do peito, no plexo solar. Já sentiu? Coração e osso. Aperto. No seu peito, no peito do mundo, que pulsa como relógio certeiro a hora de uma verdade só sua, solitária, nua, crua. Das coisas não ditas, que seu corpo grita, quando nó na garganta, na boca do estomago, na paralisia de um instinto silenciado, que engatilhado para o disparo dos seus melhores palavrões, ficou ali paralisado, ameaçado de rejeição, subornado pela aceitação. De que mesmo? De quem mesmo?

 Aquela sensação de não ter pés para caminhar quando tudo que se precisa é partir, e sustentar no corpo mais uma vez o parto de si.  E as lágrimas? Que lhe escapam pelos olhos por motivos de força maior?  A porradas verbais? A batidas policiais? Eu sinto em te lembrar tudo isso, mas não é em vão. Não celebro nem cultuo a tristeza no corpo.  É para dizer que aquilo que palavra não deu conta, está aí percorrendo as tuas veias, nervos e ossos. Há uma memória física de todas as nossas passagens, e dos que passaram antes de nós, que atravessa o brilho dos olhos, esperando uma resposta, um gesto que escreva na memória da pele uma outra história. 

Eu vou te tirar para dançar

Quero te tirar pra dançar, em um xirê, uma contradança que abre brechas nas marcas de dor.  Se é para fazer das tripas coração e dobrar o joelho, que seja no exercício fino da musculatura dos afetos. Exige desentortar o caráter para coluna ficar ereta, vertebra por vertebra.  Pode soar fácil nas palavras, mas sustentar o corpo no lugar que lhe cabe, exige fibra.  É hora, de deixar para trás os tempos de cabeça baixa e olhar direto nos olhos, chamar de volta para o corpo o espirito ofendido pelo auto(?) ódio(?), sentir o suor lavar o veneno e caminhar vibrante pelas ruas do mercado, como Oya.  

Comece com você, dois para lá dois para cá, ouvindo onde dói, onde é bom, desativando gatilhos e ganchos, a linguagem corporal e em Braille. Não precisa se pendurar no lustre (mas se quiser, pode). É outra dança. É tecnologia ancestral que conecta a cabeça, “a caixa do peito” a pélvis, e ao axé da sola dos seus pés.  Não se move um sem alinhar o outro.  Desfaça a amarração do estereótipo.  Dê um baile na dor. 

Essa contradança requer musculatura, afeta o corpo, afeto no corpo. E a fé, de nunca mais caminhar de cabeça baixa, depois de acordar pelo gesto a memória ancestral de quem em tempos extremos, nunca abriu mão de dançar o xirê da dignidade. 


Leandra Silva é Oloya. Dançarina, jornalista e astróloga. É fundadora e coreógrafa da Cia Cia VERVE de Arte Negra., onde realiza anualmente imersão em dança afro contemporânea. Atua na criação e condução de processos artísticos a partir de singulares tecnologias ancestrais.

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