Tag: afetividade

Imagem: Torsten Lorenz

Carta para minha vó

Sou a mais velha de três irmãos, fomos criados todos numa casa de madeira muito simples, onde o chão era encerado com pasta de cera, cujo cheiro lembro até hoje. Quem cuidava de nós três era minha vó, uma senhorinha de um metro e meio de altura, mas com um coração gigante. Minha mãe se dividia em dois empregos, jornada dupla entre um e outro e era na minha infância, uma presença ausência na casa. Quando estava em casa, precisava dormir e nós não podíamos fazer barulho. Brincávamos no pátio, cheio de árvores, laranjeiras e bergamoteiras.. Minha vó para reforçar o orçamento apertado, desde sempre, lavava para fora. Era uma exímia lavadeira e tinha muito orgulho por saber alvejar uma roupa como ninguém. Eu lembro dos carros das “patroas” chegando, trazendo trouxas de roupas imensas, lençóis e toalhas, muitas com manchas que minha vó se esmerava em colocar no anil, ...

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Mate o amor romântico antes que ele te mate: por outras insurgências do amar

As nossas mártires, as nossas matriarcas, as nossas mais velhas carregaram em seus corpos negros a insuficiência da realização do amor romântico. A tradução desse lamento pode-se perceber pela hereditariedade trazida por nós, mulheres negras, que ainda insistimos (in)conscientemente na busca desse amor.  A aspiração desse desejo imposto tem um caminho enraizado por conta das mediações do colonialismo patriarcal e a formação da sociedade capitalista. Normatizar os padrões do sentir, e hierarquizar socialmente os estágios da felicidade e realização pessoal, foram algumas maneiras de contagiar as pessoas com a ideologia da romantização do amor.  Um amor substantivo, único e essencializado. Construído a partir de dispositivos de controle dos corpos e da mente a fim de designar ao outro a total responsabilidade do servir amor. Essa subserviência enquanto consubstancialidade de uma relação afetiva é a morte para os nossos povos pretos.  Afinal, a construção histórica das nossas sociabilidades - desde as ...

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Photo by ActionVance on Unsplash

Queria tanto ser amada…

Cresci ouvindo aqui e ali que isso não é coisa pra preto não. Entre escolhas e desistências acabei por sufocar a negra que eu nasci. Me deixei direcionar, dizer como e porque era. Me descontrui toda. Na escola os apelidos eram recebidos por mim com risos amarelos e respondidos com chacotas maiores. O menino de olho azul não queria ser meu namorado, o pretinho corria atrás da pele clara. Compreensível até. Ele não queria desaparecer na névoa do não ser nada. Queria tanto ser amada. Ouvi dizer que tinha que limpar a raça. Permiti o mal trato do branco, mas tinha algo. Veio a idade da dúvida, e nos bailes da vida, nunca dancei Alisei cabelo, usei lentes verdes, dei suporte à amigas brancas. Queria tanto ser amada. E chegou a idade da consciência, nela encontrei o amor. Na verdade veio o rebento, clarinho, como a lei. Fruto de um ...

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Afetividades na margem e preterimento da bicha preta

A homossexualidade em sociedades conservadoras e violentas quanto a nossa, é definida e catalogada como algo que foge a normatividade e isto por si só implica numa série de barreiras aos indivíduos que não se submetem aos padrões sociais e vivem suas vidas em desacordo com o que nos é constantemente imposto. Estar a margem da sociedade é algo com que nos habituamos desde muito cedo, e entre nós a ideia de universalidade é também colocada à prova quando nos deparamos com diferentes atravessamentos que compõe a nossa totalidade. Pensemos o gay negro! Este por sua vez, tem suas experiências sobrecarregadas pelo fator racial. Sexualidade e raça se somam reconfigurando as formas com que iremos participar das dinâmicas sociais, aos sermos imediatamente (re)colocados em uma margem dentro da própria margem da qual já nos encontramos. Violência, rejeição, isolamento, etc., fazem parte dessa normalidade, somos dupla ou triplamente marginalizados, é como ...

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Duas ou três questões sobre mulheres negras, relações não monogâmicas e questões raciais

Começo esses escritos sobre afetividades das mulheres negras, relações não monogâmicas e questões raciais olhando para minhas próprias memórias, no dia cinquenta e três da quarenta em virtude da pandemia de covid-19. Estou a dois anos num relacionamento heterossexual, aberto e inter-racial. Eu brinco que nós somos iguais, só que ao contrário. Ele, homem branco, olhos verdes, classe média, casa própria, pais universitários. Eu, mulher negra, pele escura, pais com ensino fundamental, vivendo de aluguel. Ele, gosta das imagens, da tecnologia, da comunicação, diz que “chama todo mundo que conhece de amigo"... eu, da escrita, dos livros, da música ouvida em silêncio, conto meus amigos nos dedos. Ele, se diz uma porta, mas tem um coração que cabe até quem não conhece. Eu, que sinto tudo muito, alterno minha empolgação infantil com a com momentos de severa rabugice. Cultivamos juntos o gosto pela terra, pela cultura, pela estrada, por fazer ...

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Nossas subjetividades pretas também importam: potencializando nossos afetos

Ônibus lotado. Fila na entrega da senha de atendimento do cadastro único. Hoje, o médico não fez plantão no único posto de atendimento à saúde da comunidade. A creche está sem vaga para matricular minha filha. O carro do ovo não quis mais me vender fiado. O saque do bolsa família só na quinzena que vem. Ando sem tempo para desejar o amor. Versos rimados de histórias reais da população preta que batalha todo santo dia pela sua sobrevivência. O “cumê” sempre será, nessa sociedade injusta chamada Brasil, nossa prioridade. Almoçamos pensando na janta. Dormimos pensando no café de amanhã. As emergências concretas da vida cotidiana das pessoas pretas sempre foram (e é) a base circular dos nossos pensamentos. Nossas aspirações, sonhos e desejos estão entre o atravessar a faixa da miserabilidade social à ascensão e o status social. Esse prisma resulta da própria história oficial e colonizada, que nos ...

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bell hooks (photo by Liza Matthews) and Thich Nhat Hanh (photo by Velcrow Ripper).

Construindo uma comunidade de amor

Thich Nhat Hanh, monge budista, tem sido uma presença em minha vida, como um professor e guia, por mais de vinte anos. Nos últimos anos eu comecei a duvidar da conecção de coração que eu sentia com ele porque a gente nunca havia se encontrado ou falado um com o outro, e ainda assim seu trabalho estava sempre presente no meu. Comecei a sentir a necessidade de encontrá-lo cara a cara, mesmo enquanto minha intuição continuava dizendo que isso aconteceria na hora certa. Meu trabalho com o amor tem sido confiar que a intuição continuava dizendo que acontecereria quando fosse a hora certa. Meu trabalho com o amor tem sido confiar nesse conhecimento intuitivo. Aqueles que me conhecem intimamente sabem que eu tenho contemplado o lugar e significado do amor nas nossas vidas e cultura por anos. Eles sabem que quando um assunto atrai minha imaginação intelectual e emocional, eu ...

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Encontro das águas: precisamos falar sobre afetividade

Gênero, raça, sexualidade e religiosidade de matriz africana são temas tratados no documentário “Encontro das águas” | Foto: Estúdio Pose Por Cristiane Mare da Silva via Guest Post para o Portal Geledés O sistema escravocrata e as divisões raciais criaram condições muito difíceis para que os negros nutrissem seu crescimento espiritual. Falo de condições difíceis, não impossíveis. Mas precisamos reconhecer que a opressão e a exploração distorcem nossa capacidade de amar. bell hooks Há temas que são urgentes, Libertem Rafael Braga, Diretas já, a reforma trabalhista. Outros se constituem nas insurgências dos tecidos sociais ___ Encontro das Águas, documentário produzido por Flávia dos Santos e Zaíra Pires, faz parte desse segundo grupo, onde Iara Viana e Rosana Pires Viana, contam-nos sua história de encontros, cumplicidade e AMOR. Impossível não pensar, que este é o momento. Como ambas na roda de conversa e apresentação do documentário (Bar Aparelha Luzia, na cidade de São Paulo) negritaram__ “Precisamos ...

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O comercial lacrador – e a resposta ainda melhor – de uma marca brasileira para o Dia dos Namorados

Para além do sentido comercial que há por trás de uma data como o Dia dos Namorados, o aspecto bonito que pode haver, sobre comemorarmos nossos encontros e amores, não discrimina gênero, cor, classe social – nem muito menos orientação sexual. E foi isso que perfeita e orgulhosamente a marca Reserva propagandeou, em sua campanha para essa data. no Hypeness Como uma marca de roupas masculinas, a Reserva contou a história de Victor e João, que nada é além de uma linda história de amor como muitas outras – e é isso que justamente diz a chamada da campanha: contar uma história de amor como todas as outras. Como lamentavelmente acontece, alguns usuários criticaram a marca por simplesmente dar voz e contorno ao amor em todas as suas formas. Após divulgarem a nova campanha, com uma foto e depois um vídeo, ela viralizou – e, entre muitos comentários positivos, algumas ...

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Afetividade perpassa por gênero, raça e classe, afirma Stephanie Ribeiro

A ativista Stephanie Ribeiro, em entrevista ao Alma Preta, afirma que as escolhas afetivas das pessoas são influenciadas por gênero, raça e classe. A pesquisadora organiza no dia 18 de Março, sábado, curso sobre a solidão da mulher negra. Por Pedro Borges Do Alma Preta No dia 18 de março, sábado, das 14h às 18h, Stephanie Ribeiro coordena curso sobre a solidão da mulher negra. A formação, organizada em conjunto do Coletivo Dijejê, acontece no Aparelha Luzia, Rua Apa, 78, centro. As inscrições podem ser feitas aqui. O Alma Preta entrevistou Stephanie Ribeiro sobre o tema. A pesquisadora e ativista apresentou algumas das nuancês deste problema brasileiro e de muitos países da diáspora africana. Porque é importante estudar a solidão da mulher negra? Acho que não é apenas uma questão de estudar, mas sim de falar sobre esse tema. Vamos discutir o que se entende como solidão da mulher negra e ...

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Filmes imperdíveis sobre mulheres negras e afetividade

Esse ano a hashtag #OscarsoWhite bombou nas rede sociais levando a uma série de discussões nos E.U.A. sobre representatividade no cinema, meses antes Viola Davis no Emmy levantou a mesma bandeira, aplaudida de pé por atrizes negras como Taraji P. Henson e Kerry Washigton, todas as três com personagens importantes em séries populares pelo mundo todo. Surpreende, no entanto, que enquanto as mulheres negras começam a chegar na TV em um número expressivo, com personagens complexos e não-estereotipados; no cinema o mesmo não se repete. Do iamnotastereo. Nos E.U.A. uma parcela dos filmes que retratam o cenário contemporâneo pouco falam sobre mulheres em ocupações domésticas, como é o caso do Brasil onde a mulher negra só aparece retratada como empregada doméstica, babá, entre outros similares. No entanto, no cinema norte-americano a mulher negra recorrentemente é a figura divertida e “esquentada” - os filmes da Vovózona - , ou a figura que ...

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O dia das mães e a afetividade das mulheres negras

Em pleno século XXI me angustia a ausência de imagens positivas da família negra e especialmente da mulher negra nas mídias, seja na publicidade, jornais, tv, e até mesmo nas redes sociais, em páginas que não tratam especificamente as questões raciais. Numa simples busca no banco de imagens do Google, quando digitamos a palavra “mãe”, a ausência de imagens de mulheres não brancas com seus filhos é absurda, assim como quando digitamos a palavra “casamento”. Não há casais negros, seja hétero normativo ou não. Isso nos confirma que, para a comunicação, as mulheres negras não estão relacionadas ao amor, à família, e muito menos à afetividade. Por Mirts Sants Do Alma Preta Bell Hooks, no seu texto traduzido “Vivendo de Amor”, diz que “Muitas mulheres negras sentem que em suas vidas existe pouco ou nenhum amor. Essa é uma de nossas verdades privadas que raramente é discutida em público. Essa realidade ...

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A afetividade da mulher negra – Parte 2

TEXTO: Maitê Freitas | FOTOS: Sangoma | Adaptação web: David Pereira Confira a segunda parte da matéria especial sobre a afetividade da mulher negra Lucélia Sérigio, atriz e diretora do espetáculo “Pari Cavalos…”, acredita que a solidão não afeta apenas as mulheres negras e pobres, mas é uma constante entre mulheres cuja formação intelectual e cultural é acima da média. Além disso, temos muitos estereótipos sexuais, temos mulheres que precisam ser fortes para não sucumbirem e isso também é um problema no amor. Não somos o ideal de beleza, não estamos em bons empregos para ajudar o companheiro a crescer, somos duras demais, ou cultas de menos, entre muitas outras coisas. Não estamos nem nas novelas! Uma negra bonita é vista como exceção para a maioria dos brasileiros, culta e inteligente, mãe de família e companheira, então... Damos barraco, somos gostosas e cozinhamos bem, é pra isso que servimos. Nossa luta ...

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A afetividade da mulher negra

A afetividade da mulher negra Parte – 1

TEXTO: Maitê Freitas | FOTOS: Sangoma | Adaptação web: David Pereira Matéria aborda o cotidiano afetivo da mulher negra. Vira e mexe dizem por aí que “tem muita mulher solteira”. O que não se diz é que a maior parte das mulheres solteiras no Brasil são negras. De acordo com o Censo 2010, 52,89% das mulheres negras estão solteiras, ante 24,88% negras casadas e 2,60% divorciadas. Os números assustam, mas viver essa estatística no cotidiano e saber que isso é uma herança histórica é muito pior. Autora do livro “Virou Regra?” (2010/Scortecci), a pesquisadora, ex-vereadora e presidente do SEDIN - Sindicato de Educação Infantil, Claudete Alves, explica: “A mulher negra enfrenta a solidão independente do extrato social. Não se trata de uma exceção, é a regra, um sintoma histórico que indica um comportamento real, as mulheres negras não têm (em sua grande maioria) a experiência do amor”. Na mesma linha, a ...

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