Um sorriso negro traz felicidade

E o meu medo maior é o espelho se quebrar.

− João Nogueira e Paulo C. Pinheiro

Na casa dos meus pais há vários discos de samba, lançados entre os anos 60 e 80. Todos eles, relíquias do meu pai − conhecido no bairro como Carioca. Aliás, poucas pessoas sabem que ele não nasceu na cidade do Rio de Janeiro, apenas morou por um tempo e acabou assimilando o sotaque regional. A sua cidade natal é Limeira, interior de São Paulo.

Carioca era um apreciador do samba, e sempre que estava inspirado arriscava uns dedilhados no violão. Em sua marcenaria, nos fundos de casa, enquanto montava e reformava os móveis dos clientes, a vitrola Sonata reproduzia Aniceto do Império, Ataulfo Alves, Bide e Marçal, Beth Carvalho, Cartola, Candeia, Leci Brandão, Jamelão, Monsueto, Noel Rosa, Pixinguinha e outros nomes do samba. Essa dinâmica acontecia quase que todos os dias (sem exagero!), ou seja, o samba tornou-se parte integrante das atividades profissionais dentro da marcenaria e, obviamente, de nossas vidas.

Dona Helena, minha mãe, não era muito chegada nesse gênero musical e resmungava por conta da fixação do marido. O negócio dela era moda de viola e músicas do movimento da Jovem Guarda. E para a sua infelicidade, o filho foi influenciado pelo pai. Eu me apaixonei pelo som do tamborim, agogô, cavaquinho, surdo, pandeiro, repique de mão, e no clima que as rodas de samba proporcionavam. Por alguns anos até participei de grupos de samba da região, e, em várias oportunidades, os ensaios aconteceram na casa dos meus pais. Imagine, a Dona Helena pirava!

A maioria dos álbuns do Carioca trazia, em seus encartes, informações sobre as letras das músicas, biografia dos compositores e intérpretes, ilustrações. Temas como política, a fome, a cultura negra, as favelas e os morros, a violência, também constavam. Por isso que nos momentos oportunos costumo ressaltar que a minha consciência de classe nasceu através do samba.

Na ocasião do falecimento da icônica Elza Soares, aos 91 anos, neste ano, fui à casa dos meus pais para conversar um pouco sobre a irreparável perda. Antes de começar o assunto coloquei para tocar o álbum Lição de Vida (1976) como homenagem a memória da artista. Nesse trabalho, Elza Soares interpreta magistralmente a canção Malandro. Enquanto a música tocava, uma coisa me chamou a atenção. Notei que o Carioca batucava de leve e descompassado na mesinha, próxima a sua cama. Foi uma cena que eu não testemunhava há muito tempo. “Pai, sabe quem está cantando?”, perguntei. Ele ficou quieto por alguns instantes e respondeu “claro, moleque, é a Elza”, em seguida sorriu. “Moleque” é a maneira que ele me chama desde a minha infância. Confesso que aquele sorriso me arrancou lágrimas.

Neste mês, celebraremos o centenário do nascimento da Dona Ivone Lara, mulher negra, assistente social, cantora e compositora, com uma importância inestimável para a cultura brasileira. Espero que meu pai consiga sorrir – novamente − ao ouvir a “Dama do Samba” cantando a música Sorriso Negro “um abraço negro, um sorriso negro, traz felicidade…”. Esse era um dos sambas que ele mais gostava.

O Carioca está com 83 anos de idade, debilitado fisicamente, e há uma década diagnosticado com o Mal de Alzheimer.

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