“A polícia, que é para proteger, acabou de matar”, diz pai de transexual assassinada em SP

Laura Vermont, de 18 anos, foi assassinada na madrugada do último sábado (20) na zona leste da capital paulista; policiais militares que atenderam o caso estão presos por falso testemunho e fraude processual e serão investigados ainda por envolvimento no homicídio da jovem

Por Anna Beatriz Anjos, da Revista Fórum 

Indignação e tristeza: é assim que o comerciante Jackson de Araújo descreve os sentimentos de sua família após o assassinato da filha Laura Vermont, jovem transexual de 18 anos. Na madrugada do último sábado (20), ela foi encontrada pelos pais caída ao chão e ferida na Avenida Nordestina, zona leste de São Paulo.

Mais tarde naquele dia, os policiais militares Ailton de Jesus, de 43 anos, e Diego Clemente Mendes, de 22, que atenderam a ocorrência por volta das 4 horas da manhã, foram presos administrativamente e indiciados por falso testemunho e fraude processual. De acordo com a Secretaria de Segurança Pública (SSP) de São Paulo, eles mentiram sobre a morte de Laura e forjaram uma testemunha. Ambos serão investigados ainda por envolvimento no homicídio da jovem, conforme revelado por reportagem do portal R7.

Na primeira versão contada pelos PMs na delegacia, posteriormente desmentida, eles dizem ter encontrado Laura após denúncia através de ligação ao 190. Ela teria, então, assumido o controle da viatura e fugido em alta velocidade, chocando-se contra um muro metros adiante. Depois disso, teria deixado o veículo e corrido pela Avenida Nordestina, quando, supostamente, foi atingida por um ônibus que passava pelo local. Ainda assim, segundo o relato dos policiais, não parou e bateu a cabeça em um poste. Ao cair, foi socorrida pelos agentes, que a conduziram ao Hospital Municipal Professor Waldomiro de Paula, também na região leste da capital.

entenda o caso: Policiais militares são presos após mentirem sobre o assassinato da travesti Laura Vermont em SP 

A história foi confirmada por um rapaz de 19 anos chamado Alex, levado ao 63ª Distrito Policial (Vila Jacuí) horas após o registro do primeiro boletim de ocorrência. De acordo com o R7, ele teria conversado com os PMs por cerca de meia hora próximo ao DP, sem que a delegada responsável pelo caso soubesse que se tratava de uma testemunha ocular.

Versão desmontada

A Polícia Civil começou a desconfiar da história contada pelos PMs após visitar o local onde os fatos ocorreram e encontrar vestígios que não se encaixavam no depoimento da dupla. Imagens de câmeras de segurança foram analisadas e ficou constatado que Laura foi baleada por um dos policiais, além de chutada após descer do veículo acidentado.

A família de Laura já havia contestado a versão de Jesus e Mendes. Araújo conta que ele e sua esposa socorreram a filha com seu próprio automóvel. “Encontrei ela já caída. Fui, catei, pus no carro, mas do jeito que eu vi já estava em uma situação muito feia”, relata. O casal foi avisado por um amigo de que a jovem estava perambulando pela avenida, machucada e desorientada. Araújo também questionou a parte de que Laura teria assumido a viatura da PM em uma suposta fuga, pois ela não sabia dirigir. “Nunca se interessou em aprender”, afirma o comerciante.

Um vídeo, gravado por um homem que cruzou com Laura pela rua, a mostra em sua caminhada. Segundo seu pai, naquele momento ela tentava voltar para casa, que também fica na Vila Curuçá. Havia saído ainda na noite de sexta-feira para ir a um bar.

Diante das evidências, os agentes voltaram ao 63º DP e contaram o que realmente aconteceu. A SSP informou que Jesus confessou ter atirado na vítima, e Mendes alegou que “foi instruído por Ailton a mentir sobre os fatos”. Alex, a falsa testemunha, disse posteriormente que recebeu um papel de Jesus com as informações que deveria apresentar na delegacia, diferente do que realmente havia presenciado. Os PMs foram encaminhados ao Presídio Militar Romão Gomes e sua conduta será investigada também pela Corregedoria da corporação.

“Estou indignado”

À família de Laura Vermont, restam apenas o pesar e as lembranças. “Está todo mundo arrasado, não quer fazer nada. Ninguém quer ficar em casa mais, porque quando entra, tudo que vê lembra ela. Era uma filha muito maravilhosa, brincalhona, apegada à mãe”, declarou à Fórum Jackson de Araújo.

O comerciante critica a atuação da Polícia Militar no caso. “Estou me sentindo muito mal. O pessoal que é para proteger, que é a polícia, foi quem terminou de matar minha filha”, desabafa. “Queria que a polícia agisse mais em relação ao pessoal que bateu. Quer dizer, vai saber também da polícia, não dá para falar mais nada. Porque polícia que é para proteger, correr atrás [de quem bateu], termina de matar. Então como é que eu chamo a polícia para ir atrás desses caras que bateram? Não falo de todos [os policias militares], mas estou indignado.”

Ainda de acordo com Araújo, a transfobia era frequente na vida da filha, que já havia sido agredida fisicamente outra vez. A violência verbal e psicológica era ainda mais constante. “Teve um época em que ela estudava, mas aí o pessoal começou a querer mexer. Fui e tirei da escola, quase arrumei confusão lá”, relembra o pai. “Durante a vida toda [ela sofreu preconceito]. Isso porque não falava para nós do que acontecia quando saía, que todo mundo ficava falando, xingando. Essas pessoas [transexuais]sofrem.”

Laura entrou para as estatísticas que fazem do Brasil o líder mundial em mortes de travestis e transexuais. Relatório da ONG Transgender Europe aponta que, entre janeiro de 2008 e abril de 2013, 486 pessoas trans morreram por aqui, número quatro vezes maior do que no México, segundo país com mais casos registrados.

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