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A representatividade na discussão sobre o racismo

Ampliar espaço dos negros beneficia toda a sociedade

Por Tauá Lourenço Pires, da Folha de São Paulo

A historiadora Tauá Lourenço Pires, coordenadora de programas na Oxfam Brasil – Divulgação/Reprodução/Folha de São Paulo

Você acha que existe racismo dentro de si? No mês da consciência negra, gostaria de iniciar plantando essa pergunta coletivamente. Uma reflexão interna sobre nossos imaginários, valores e referências mais íntimas. Lidar com os nossos preconceitos não é fraqueza —pode ser uma forma de autoconhecimento e de desenvolvimento pessoal.

As pessoas tendem a reproduzir aquilo que entendem como norma padrão. Por isso, discriminação significa segregar os indivíduos considerados diferentes em função de aspectos como raça, gênero, nacionalidade, religião ou classe social. Tratar desse campo simbólico pode parecer distante do dia a dia, que está repleto de “piadas” sobre cabelo afro, pessoas sendo seguidas nos shoppings por conta da sua cor de pele e de outras milhares de maneiras do racismo se concretizar.

Na verdade, talvez seja justamente esse universo que embasa o sistema do racismo institucionalizado. Esse racismo que também mata, encarcera, subjuga, agride, atinge e violenta as pessoas negras. O mesmo racismo que se amplia de acordo com a escala da cor —o que significa que, quanto mais escura a pele, mais ele se explicita e se manifesta.

Dentro da simbologia, nossas referências são fundamentais. São elas que nos remetem ao que conhecemos enquanto estética, artes, cultura e, especialmente, política. A palavra “representatividade” se situa nesse lugar e parece ser uma chave para que grandes mudanças possam ocorrer num horizonte de uma sociedade mais justa e igualitária.

Se as pessoas negras só são vistas servindo a outras (brancas, em geral) ou nas páginas policiais, como uma criança negra, por exemplo, poderá naturalmente se imaginar como juíza, astronauta, cientista ou presidenta? Representar é inspirar, ampliar padrões e consolidar identidades.

Um passo mínimo é garantir que as pessoas negras estejam presentes —proporcionalmente— nas equipes, nos esportes, nas revistas, na televisão, na academia, na literatura, nos cargos do Executivo, do Legislativo e do Judiciário —ou seja, em todos os lugares. Num país onde 54% da população é negra, nunca será normal situações institucionais sem pessoas negras. Por que se não estão nesses lugares, onde elas estão?

Ampliar o espaço de representação de negros é algo que beneficia o conjunto da sociedade e não apenas um grupo social. É um componente que contribui para a redução das desigualdades, para a promoção da empatia e da tolerância e, por conseguinte, para combater a violência.

Essas reflexões são uma como contribuição ao debate público, entendendo que na contramão das polaridades de opiniões que se atacam nas redes sociais, como se a verdade fosse totalitária, mudanças podem ocorrer quando o horizonte for plural e de busca por um bem comum.

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