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A vida e a obra do poeta-escravo cubano Juan Francisco Manzano

Para quem não vai poder vir aos lançamentos, o livro já está em pré-venda.

convite-manzano-SP-finalLançamentos

São Paulo, terça, 1 de setembro, 18h30

Livraria da Vila

R. Fradique Coutinho, 915, Pinheiros

convite-manzano-RJ-finalRio de Janeiro, terça, 8 de setembro, 18h30

Baratos da Ribeiro

R. Paulino Fernandes, 15, Botafogo

(evento no facebook)


Juan Francisco Manzano, poeta na ilha de Cuba, foi a única pessoa escravizada latino-americana a escrever uma autobiografia sobre sua experiência no cativeiro.

por alex castro no Revista Fórum

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Cuba, por volta de 1835.

Sob o patrocínio de um grupo de literatos, o poeta afrocubano Juan Francisco Manzano escreveu uma autobiografia sobre sua experiência no cativeiro. O manuscrito, depois de consideráveis revisões e reescrituras por parte de diversos membros do grupo, foi traduzido ao inglês e publicado em Londres, como parte dos esforços abolicionistas para acabar com a escravidão nas Américas.

Para Manzano, então ainda escravizado, a redação de sua autobiografia foi um empreendimento temerário, repleto de dificuldades práticas e políticas. O quanto falar? O quanto silenciar? O quanto aqueles homens brancos e ricos, aparentemente tão tolerantes, eram capazes de ouvir e aceitar? Sua autobiografia é um texto de lacunas gritantes, elipses conspícuas, entrelinhas prolixas. É necessária uma leitura cuidadosa para decifrar seus silêncios.

Uma antiga proprietária de Manzano, a Marquesa de Prado Ameno, e seu filho, Nicolás, ambos retratados com destaque na obra, ainda eram vivos quando a autobiografia foi escrita. Nicolás inclusive fazia parte da mesma sociedade literária que encomendou o trabalho.

Então, por um lado, os objetivos antiescravistas do grupo exigiam um documento que demonstrasse os horrores da escravidão; por outro, as vilãs de uma narrativa assim teriam necessariamente de ser as próprias pessoas do grupo e suas famílias, todas as quais possuíam pessoas escravizadas ou eram de alguma maneira dependentes da economia escravista.

A linha entre negociação e resistência é tênue. Até hoje, nos departamentos de História, debate-se onde começa uma e termina a outra (se tirar um cochilo em vez de moer cana era um ato de resistência da pessoa escravizada contra a produtividade do engenho… então, o que não era resistência?).

Para Manzano, essa linha tênue entre negociação e resistência não era um debate intelectual a posteriori, mas uma questão de vida ou morte a ser encarada hoje: era uma navalha em cima da qual ele precisava andar, se equilibrar, dançar.

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A autobiografia de Manzano hoje

Nos Estados Unidos, na Europa e na América Hispânica, existem diversas traduções, adaptações, edições críticas, artigos e teses sobre a autobiografia de Manzano.

Considerada uma precursora do testimonio, gênero literário que busca dar voz às populações subalternas, a autobiografia nos permite testemunhar o poder transgressor da palavra escrita e, mais ainda, seu impacto revolucionário na vida de uma pessoa até então silenciada.

A autobiografia é considerada um excelente documento histórico sobre a vida das pessoas escravizadas em Cuba no começo do século XIX.

Como a realidade brasileira era bastante parecida — monocultura do açúcar ou do café, leis de fundo católico, elite conservadora e cautelosa — a autobiografia também tem muito a nos ensinar sobre a nossa própria escravidão.

Sobre nossos avôs e avós que viveram no cativeiro.

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A voz de Manzano

Manzano aprendeu a ler e escrever por conta própria, em um ambiente onde pessoas escravizadas surpreendidas nessa atividade eram punidas ou mortas. Naturalmente, seu domínio da norma culta é tênue. Muitos literatos, na época e hoje, não resistiram à tentação de consertar sua prosa, melhorar seu estilo, reescrever seu texto — sem se dar conta que estavam reproduzindo, no papel, a própria tirania senhorial que Manzano tanto sentiu literalmente na pele.

Bastaria limpar o texto e libertá-lo de suas impurezas para que a maneira clara e tocante na qual Manzano relata seus infortúnios se revele em toda sua simplicidade”, escreveu um historiador literário.

Mas essa ideia de que existe uma narrativa límpida aprisionada sob as orações desconjuntadas, parágrafos ofegantes, sintaxe distorcida e ortografia idiossincrática de Manzano, essa noção de que o texto impuro precisa de um editor para torná-lo legível, aliás a própria negação da legibilidade da escrita original em seus próprios termos, são novos lanhos sempre renovados ao longo dos séculos.

É como se Manzano nunca tivesse parado de apanhar.

A autobiografia é mais que seu conteúdo: a forma da escrita de Manzano é o melhor autorretrato que temos dele e sua maior contribuição à literatura. Seus erros de ortografia, gramática e sintaxe nos inspiram respeito: não são erros, mas sim marcas tão concretas e tão reais da escravidão quanto os lanhos de chicote em sua carne. Corrigi-los significa apagar sua trajetória, silenciar seu sofrimento, rasurar sua vida.

A narrativa de Manzano, hoje, não é mais difícil de ler do que autores como William Burroughs, Tomas Pynchon ou Lobo Antunes, mas muito mais recompensadora.

Manzano fez o sacrifício de escrever. Será que somos capazes de fazer o sacrifício de ler?

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Manzano no Brasil

A edição brasileira da autobiografia de Manzano, publicada pela Editora Hedra em 2015, contém duas versões do mesmo texto, ambas bem diferentes, cada uma servindo a um objetivo: a tradução e a transcriação.

A primeira versão, chamada tradução, tem como objetivo ser acessível a estudantes de nível médio e ao público geral.

A segunda versão, chamada transcriação, tem como objetivo ser fiel à voz de Manzano, à sua sintaxe, à sua escolha de palavras, ao ritmo de suas frases, à sua pontuação idiossincrática.

Para isso, foi necessário criar desvios da norma culta e idiossincrasias verbais em português que fossem similares, e na mesma proporção, que no espanhol escrito por ele.

Ou seja, na prática, se criou a voz de um Manzano lusófono fictício, com os desvios da norma culta que ele teria cometido se tivesse crescido e aprendido a escrever como uma pessoa escravizada no Brasil de princípios do século XIX.

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Uma ressalva à tradução

Mestres como John Beverly e Gayatri Spivak já alertaram: por detrás da boa-fé do intelectual solidário e comprometido ajudando a dar voz à pessoa em posição subalterna, está a construção literária neocolonial de um “Outro” com o qual não podemos nos comunicar, poupando-nos assim da ansiedade que nos causa o fato concreto da diferença, e reafirmando a naturalidade da nossa situação receptiva.

Em outras palavras, sim, trazer o texto de Manzano à norma culta simplificada do português significa, ao mesmo tempo, colocá-lo na posição de “outro” que não consegue falar por si próprio e, também, colocar a nós mesmas na cômoda posição de pessoas leitoras normativas e normalizadas para quem a fala do “outro” deve se adequar para poder ser consumida com mais conforto.

Para mim, apaixonado que sou pela voz de Manzano, criar a primeira versão foi uma experiência particularmente penosa. A última coisa que eu gostaria de fazer seria corrigir e sanitizar a prosa de Manzano.

Entretanto, infelizmente, para que o texto possa ser publicado por uma grande editora, ter distribuição nacional, ser adotado em escolas, atingir o público jovem, era inevitável que fosse adaptado à norma culta da nossa língua.

O que peço às pessoas leitoras é: depois de ler a tradução e tomar assim conhecimento dos fatos eventos da vida de Manzano, leiam então a transcriação.

Os fatos concretos da escravidão estão disponíveis em qualquer livro didático. Sabemos que as pessoas escravizadas eram separadas de suas famílias, que eram exploradas e torturadas, que morriam cedo. Sabemos que isso aconteceu com milhões e milhões de pessoas, que eram tão únicas e inteligentes, capazes e sensíveis quanto nós.

Mas saber não basta.

A dádiva que Manzano nos oferece — nesse texto cuja existência e sobrevivência são dois pequenos milagres — é a oportunidade única de experimentar a voz de uma dessas pessoas.

Não basta apenas conhecer os fatos eventos da vida de Manzano (e de uma pessoa escravizada): é preciso entregar-se à sua voz, aprender seu ritmo, mergulhar na sua experiência.

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Como ler Manzano

A melhor maneira de extrair sentido de um texto marcado por forte registro oral e pontuação muito irregular é lendo-o em voz alta.

Assim, construções antes confusas subitamente farão sentido, os sujeitos vão se atrelar aos verbos corretos e as pausas intuitivamente se revelarão.

Nosso desafio, como pessoas leitoras, é suspender os hábitos adquiridos de leitura silenciosa, abraçar a oralidade da prosa manzaniana e permitir que o texto fale em seus próprios termos.

Quebrar a normatividade de nosso modo de leitura tradicional pode ser difícil, mas a recompensa será experimentar os diferentes caminhos que a literatura em prosa poderia ter seguido se o advento da pontuação não tivesse restringido a diversidade textual.

Toda linguagem, mesmo quando opressora, é sempre dialógica: se lermos com cuidado, as brechas cavadas pela fala e pela prática das pessoas oprimidas nos permitem ouvir até mesmo quem não tem voz. Nesse sentido, o esforço de oralidade que estou propondo é bem mais do que um exercício de autenticidade:

É um exercício de alteridade.

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Uma missão impossível

A autobiografia de Juan Francisco Manzano, mais do que tudo, nos apresenta um herói inteligente diante de uma tarefa impossível: como denunciar a escravidão sem ofender as pessoas escravocratas?

Em jogo, sua vida e sua liberdade.

Para descobrir o que aconteceu, é só comprar o livro.

Abaixo, uma pequena amostra.

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O castigo da mãe (tradução)

Desde que pude fazer algo, meu primeiro destino foi ser pajem, tanto em Havana quanto em Matanzas. Desde minha remota infância, eu velava mais da metade da noite em Havana, nas noites de teatro, nos saraus na casa do Senhor Marquês de Monte Hermoso, ou na casa das Senhoras Beatas Cárdenas, de onde saíamos às dez e passeávamos até as onze ou doze da noite, depois de haver jantado, e em Matanzas, em dias marcados ou não marcados, comia-se na casa do Senhor Conde de Jibacoa, ou na do Senhor Dom Juan Manuel O’Farrill, e, onde quer que se fosse, íamos passar tarde e noite na casa das Senhoras Gomes, onde se reuniam as pessoas mais conhecidas e decentes do povoado para jogar partidas de baralho. Eu não podia sair detrás do espaldar do banquinho de minha sinhá até a hora de partir, que era geralmente à meia-noite, hora em que íamos para El Molino.

Se no meio do sarau eu dormia, ou se, ao ir atrás do carro, por acaso a lanterna se apagava, mesmo que fosse porque os sulcos que as carretas deixam se enchem de água e, no cair da roda, espirravam, entrando pelos ornamentos da lanterna de folha de latão, chegando lá se mandava despertar o capataz ou administrador, e eu ia dormir no tronco. Ao amanhecer, exercia esse em mim uma de suas funções, e não como se eu fosse uma criança.

Mas o sono tem tanto domínio sobre o espírito humano que não passavam quatro ou cinco noites e se repetia, pois ninguém ninguém me valia, nem a minha pobre mãe. Mais de duas vezes, ela e meu irmão amanheceram me esperando, enquanto eu, trancado, esperava um doloroso amanhecer. Já vivia minha mãe tão receosa que, quando eu não chegava mais ou menos na hora, descia de sua choça e chegando-se até a porta da enfermaria, que era onde estava o tronco, para ver se eu estava ali. Ela me chamava:

“Juan.”

E eu lhe respondia, gemendo, e ela dizia:

“Ai, filho.”

Então, chamava seu marido da sepultura, pois nessa época meu pai já havia morrido. Três ocasiões, em menos de dois meses, me lembro ter visto repetir-se essa cena. Mas, para mim, a vez mais memorável foi a seguinte.

Estávamos saindo do povoado, e já era muito tarde. Eu vinha sentado como sempre, segurando uma barra com uma mão e, na outra, a lanterna. O carro vinha em um andar mais para lento do que para regular e caí no sono, de tal maneira que soltei a lanterna, mas tão bem que caiu de pé, uns vinte passos depois. Abri de repente os olhos, me vi sem a lanterna, vejo a luz onde estava, me atiro para baixo, corro para buscá-la. Antes de chegar, levei dois tombos, tropeçando nos terrões. Afinal, eu a alcanço. Quero correr atrás do carro, que já tinha uma vantagem considerável, mas qual não foi a minha surpresa ao ver que a carruagem apertou o passo. Eu me esforçava em vão para alcançá-la, mas desapareceu.

Já sabia eu o que havia de acontecer.

Chorando, fui a pé, mas quando cheguei perto da casa-grande, me vi agarrado pelo Senhor Silvestre, que era o nome do jovem capataz. Conduzindo-me até o tronco, nos encontramos com minha mãe que, seguindo os impulsos de seu coração, terminou aumentando meus infortúnios. Ela, ao me ver, quis me perguntar o que havia feito, quando o capataz, impondo-lhe silêncio, quis impedi-la. Sem querer ouvir nem rogos nem súplicas nem dádivas, irritado porque o tinham acordado àquela hora, ele levantou a mão e deu em minha mãe com o chicote.

Esse golpe eu senti em meu coração.

Dar um grito e converter-me de manso cordeiro em um leão, foi tudo uma coisa só.

Me soltei com um forte puxão do braço com que me segurava e pulei em cima dele com dentes e mãos.

Quantas patadas e chicotadas e demais golpes eu levei, pode-se adivinhar.

Minha mãe e eu fomos conduzidos e postos em um mesmo lugar. Os dois gemíamos juntos ali, enquanto meu irmãos Florêncio e Fernando choravam em casa. Um deles tinha uns doze anos e o outro, cinco. (Esse último serve hoje o médico Senhor Dom Pintado.)

Nem bem amanheceu quando o capataz e dois capatazes negros nos pegaram, levando cada um dos morenos sua presa ao lugar do sacrifício. Eu sofri muito mais do que o ordenado, por ter sido tão atrevido, mas as sagradas leis da natureza trabalharam de maneiras maravilhosas.

A culpa de minha mãe foi que, vendo que me levavam para me matar, se atirou em cima e, ao chamar atenção para si, me deu oportunidade de ficar de pé.

Minha mãe foi posta no lugar do sacrifício pela primeira vez na vida, pois embora vivesse na fazenda, estava isenta de trabalho, pois era mulher de um escravo que soube se comportar e ser benquisto por todos. Vendo eu minha mãe nesse estado, suspensa pelas mãos e pelos pés, eu não conseguia nem chorar, nem pensar, nem fugir.

Eu tremia.

Enquanto isso, sem pudor, os quatro negros se apoderaram dela e a jogaram por terra para açoitá-la. Eu pedia a Deus por ela. Resisti a tudo, mas ao ouvir estalar a primeira chicotada, virei um leão, um tigre ou uma fera mais arrojada. Estive a ponto de perder a vida nas mãos do citado Silvestre, mas passemos em silêncio o resto dessa cena dolorosa.

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(Acima, a página do manuscrito autógrafo da autobiografia de Manzano onde está o trecho destacado. Conseguem encontrar? A página começa com as palavras: “Haba como en Matanzas” que estão na primeira linha do trecho.)

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O castigo da mãe (transcriação)

Como desde qe. pude fazer algo meu primeiro destino foi ser pajem tanto em Hava (1) quanto em Matanzas desde minha mais remota infansia vellava mais da metade da noite em Havana si naõ nas noites de theatro nas tertulhas na caza do Sor. Marquez de Monte Ermoso ou na caza das Sras. Beatas Cardenas de onde sahiamos ás dez e comesçava o paceio até as onze ou doze da noite depois de aver jantado (2) e em Matanzas, em dias marcados ou naõ marcados (3) comia-se na caza do Sor. Conde de Jibacoa, ou na do Sor. Dm. Juan Manuel Ofarrill (4) onde quer qe. foce hiamos pasar tarde e noite na caza das Sras. Gomes onde se reuniaõ as pesoas mais conhecidas e desentes do povoado pa. jogar partidas de tresillo matillo ou burro (5) eu naõ podia sahir de traz do espardar de seu banquinho até a ora de partir qe. era geralmente á meia noite ora em qe. partiamos pa. el Molino si no interim a tertulha demorace eu dormia, ou si ao ir atraz da volante pr. algum acazo a lanterna me apagace mesmo qe. foce pr. qe. as rodeiras (6) qe. as carretas deixaõ se enxem d’agua e no cahir da roda espirrava entrando pelos ornatos da lanterna de folha de lataõ chegando mandava-se despertar o maioral ou arministrador (7), e eu ia dormir no cepo (8) e ao amanhecer ezercia este em mim huma de suas funsoens e naõ como apenas á hum rapaz (9) mas o sono tem tanto dominio sobre o espirito humano qe. naõ pasavaõ quatro ou sinco noites quando era repetida (10) pois ninguem ninguem me valia nem minha pobre maẽ mais de duas vezes com meu irmaõ amanheceo me esperando enquanto eu trancado esperava hum dolorozo amanhecer ja vivia minha maẽ taõ reseoza qe. quando eu naõ chegava mais ou menos na ora decia de sua xoça (11) e chegando-se até a porta da enfermaria qe. era antes dos homens onde estava o cepo á isquerda pa. ver si eu estava alli me chamava “Juan” e eu le respondia jemendo e ella dizia de fora “ai filho” entaõ chamava seu marido da sepultura pois quando d’isto ja meu pai avia morrido trez occazioens em menos de dois mezes me lembro ter visto repetir-se esta sena assim como notras me encontrou no caminho mas (12) a vez pa. mim mais memoravel qe. todas foi a siguinte. (13) Estavamos sahindo do povoado e ja era mui tarde como vinha eu sentado como sempre segurando com huma maõ numa barra e na otra a lanterna a volante vinha num andar mais pa. lento qe. ao paso regular cahi no sono de tal maneira qe. soltei a lanterna mas taõ bem qe. cahio de pé, huns vinte pasos depois abri derrepente os olhos me vi sem a lanterna vejo a luz onde estava me atiro pa. baixo corro pa. buscalla antes de chegar levei dois tombos tropesando nos terroens afinal alcanso (14) quero correr atraz da volante qe. ja tinha huma vantajem consideravel mas coal naõ foi minha surpreza ao ver qe. a carruajem apertou o paso e eu me esforsava em vaõ pa. alcansalla e disappareceu; ja sabia eu o qe. me avia de suseder; xorando fui apé mas quando cheguei perto da caza de vivenda me vi agarrado pelo Sor. Silbestre qe. era o nome do jovem maioral este conduzindo-me até o cepo se encontrou com minha maẽ qe. siguindo os impulsos de seu coraçaõ terminou aumentando meus infortunios ella ao ver-me quis perguntar-me qe. avia feito quando o maioral impondo-le silensio quis impedilla sem querer ouvir rogos nem suplicas nem dadivas irritado pr. qe. o tinhaõ levantado á aquella ora levantou a maõ e deu em minha maẽ com o manati (15) este golpe eu senti em meu coraçaõ e dar hum grito e converter-me de manso cordeiro num leaõ foi tudo huma couza (16) me soltei com hum forte puchaõ do braso com qe. me segurava e pulei em cima d’elle com dentes e maõs (17) quantas patadas manatiazas e demais golpes levei se pode adivinhar e minha maẽ e eu fomos conduzidos e posto num mesmo lugar os dois jemiamos juntos alli enquanto meu irmaõ Florensio e Fernando choravaõ em caza hum d’elles tinha huns doze annos e o otro sinco este hultimo serve hoje o medico Sor. Dm. xxx Pintao (18) nem bem amanheceo cuando dois contra-maioraes e o maioral nos tiraraõ levando cada hum dos morenos sua preza ao lugar do sacrificio eu soffri muinto mais do qe. o mandado pr. atrevido mas as sagradas leis da natureza obraraõ em otros effeitos maraviliozos, a culpa de minha maẽ foi qe. vendo qe. me levava pa. matar se atirou em cima e ao chamar attensaõ pa. si consegui ficar de pé quando chegaraõ os cuidadores do tendal (19) nos conduziraõ posta minha maẽ no lugar do sacrificio pela primeira vez na vida pois em bora estivece na fazenda estava izenta de trabalho como mulher dum escravo qe. soube se comportar e ser benquisto por todos; vendo eu minha maẽ n’este estado suspenso naõ conseguia nem xorar nem pensar nem fugir tremia enquanto sem pudor os quatro negros (20) se apoderaraõ d’ella e a jogaraõ por terra pa. asoitalla pedia a Deus pr. ella rezisti á tudo mas ao ouvir estalar o primeiro fuetaço, virei hum leaõ hum tigre ou huma fera mais arrojada (21) estive a pique de perder a vida em maõs do sitado Silbestre mas pasemos em silensio o resto d’esta sena doloroza (22)

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(A página seguinte à anterior.)

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Notas explicativas

A edição brasileira tem mais de 300 notas explicativas. Abaixo, alguns exemplos.

(1) Havana.

(2) O médico irlandês Richard Madden (1798-1886) passou quatro anos em Cuba, de 1836 a 1840, como Superintendente dos Emancipados e Árbitro Interino da Comissão Mista Britânico-Espanhola. (Ou seja, era um dos responsáveis por vigiar se a Espanha estava de fato cumprindo os tratados anti-tráfico impostos pela Inglaterra.) Abolicionista convicto, Madden provavelmente foi um dos catalisadores do boom de literatura antiescravista produzida pelos membros do círculo delmontino. Em 1840, ele publicou em Londres um volume chamado Poemas de um Escravo na Ilha de Cuba, Recém Libertado, que incluía, além da autobiografia de Manzano, traduzida por ele e intitulada “Vida do Poeta Negro”, diversos outros textos e poemas. Em um deles, “Condição dos Escravos em Cuba”, Madden conta que, durante seu primeiro ano, não viu nem ouviu falar de nenhuma atrocidade contra pessoas escravizadas. Pelo contrário, facilmente se pegou enxergando pelos olhos da classe proprietária, pensando como pensavam, acreditando naquelas histórias idílicas sobre a felicidade dos escravos, contadas nas casas-grandes, depois do jantar, entre digestivos e charutos (“customary after-dinner doze of the felicity of slaves”).  Foi apenas quando visitou os engenhos por conta própria, de surpresa, sem ser esperado, recebido ou guiado, que pôde finalmente testemunhar as terríveis atrocidades e maldades transcendentes de um sistema escravista tão assassino.

(3) Era comum as famílias abastadas abrirem suas casas para visitas em dias e horas regulares: por exemplo, sempre às segundas à tarde, etc. Aqui, Manzano quer enfatizar que havia tanta intimidade entre as famílias que elas se visitavam mesmo em “dias não marcados”.

(4) Juan Manuel O’Farrill y Herrera (1756-1825), coronel da milícia de Matanzas, ficou famoso por introduzir a navegação a vapor no mundo hispânico, antes mesmo da Espanha, ao trazer para Cuba o vapor Neptuno, que em 1819 começou uma linha regular entre Havana e Matanzas, duas das mais prósperas cidades açucareiras cubanas.

(5) O primeiro, também chamado de “piña” era um jogo de sinuca; os dois últimos de baralho.

(6) Sulco deixado pelas rodas dos carros.

(7) Os diferentes cargos e funções nas propriedades rurais e engenhos cubanos variaram muito, dependendo da região, da época, do próprio engenho. A partir de começos do século XIX, com o boom açucareiro, surgiu uma maior divisão de trabalho. Em termos gerais, o funcionário mais alto e responsável final era o administrador. Abaixo dele, estava o mordomo (“mayordomo“), responsável pela contabilidade e finanças, e pela administração interna não diretamente produtiva: controle de estoque de insumos, supervisão da enfermaria, distribuição de rações e roupas às pessoas escravizadas, etc. A execução das tarefas do dia-a-dia ficava a cargo do maioral, às vezes mais de um. Sob suas ordens estavam os contra-maiorais. Os administradoresmordomos e maiorais eram sempre brancos e assalariados (apesar de esse já ser o hábito, uma lei de 1832 obrigava que todos os maiorais fossem brancos); os contra-maiorais, sempre negros, escravizados ou livres. Os maiorais e contra-maiorais se distinguiam também por portar açoites: eram os responsáveis pela aplicação dos castigos físicos e das torturas.

(8) De um panfleto abolicionista espanhol de 1871: “O tronco consiste em um enorme tabuleiro com orifícios, nos quais se introduz o pé, a mão ou a cabeça do negro castigado. Às vezes, são os dois pés, e então o negro descansa ou sobre as costas, ou sobre o peito e ventre. O castigo se converte em um verdadeiro suplício em pouco tempo, especialmente pelas condições climatológicas de Cuba. Qualquer um pode imaginar o que é o “tronco de cabeça”, reminiscente do antigo e bárbaro costume de enterrar alguém apenas com a cabeça para fora. Os mosquitos, as moscas e os insetos de toda espécie, cujo número é incalculável nas Antilhas, se fartam até o indizível no rosto e na cabeça do pobre escravo, impossibilitado de se defender com as mãos.” O Regulamento de Escravos de 1842 proibiu o tronco de cabeça”em Cuba.

(9) A construção impessoal e burocrática (“exercia em mim uma de suas funções”) poupa Manzano de descrever mais alguns açoites.

(10) A fadiga residual acumulada pela falta de sono, pelos horários irregulares e pelo excesso de trabalho (o que hoje chamamos de “fadiga industrial”) era irreversível e causava envelhecimento precoce e perda de atenção nas pessoas escravizadas — nos engenhos, o acidente mais comum era perda de braços na moenda de triturar cana de açúcar. Manzano, no serviço doméstico, estava em posição privilegiada e, ainda assim, vivia acossado pelo sono.

(11) Original: “bojio” (sic). Os bohíos eram as choças ou cabanas rudimentares das pessoas escravizadas, sem janelas, feitas de palha, varas, ramos, etc, onde geralmente habitavam famílias e casais.

(12) No manuscrito, depois de “mas“, Manzano escreveu “a última“, rasurou e substituiu por “a vez pa. mim mais memoravel qe. todas“. Quantas cenas terríveis de tortura e castigo Manzano não deveria estar equilibrando em sua memória para fazer esse tipo de autocorreção?

(13) Carta de Manzano para del Monte, em 29 de setembro de 1835: “Me preparei para lhe fazer uma parte da história da minha vida, mas deixando de fora os acontecimentos mais interessantes, para, se algum dia me encontre sentado em algum canto de minha pátria, tranquilo e com minha sorte e meu sustento assegurados, escrever um romance propriamente cubano: convém, por ora, não dar a esse assunto toda a extensão maravilhosa dos diversos lances e cenas, porque daria um tomo, mas, apesar disso, não faltará material para vossa mercê. Amanhã, começarei a roubar da noite algumas horas para fazer isso.” Quais seriam os tais fatos mais interessantes que Manzano não nos conta? Seu anseio literário é mais radical do que parece: nesse momento histórico, ainda não se havia escrito nenhum romance em Cuba. Manzano jamais escreveu seu “romance propriamente cubano” mas sua autobiografia certamente é um dos textos fundacionais da literatura do país.

(14) A lanterna.

(15) Tipo de açoite feito do couro do peixe-boi (em espanhol, manatí). Na época em que Manzano escreve a autobiografia, seu uso já estava proibido, por ser excessivamente cruel e por deixar marcas permanentes.

(16) Ao narrar as duas últimas linhas, a caligrafia de Manzano parece apertada, acelerada, borrada.

(17) Para a elite açucarócrata cubana, apavorava muito mais a possibilidade de uma nova revolta escrava como a do Haiti, risco ainda vivo e real, do que a existência continuada da escravidão ou mesmo o status de colônia da Espanha. A encomenda da autobiografia se inseriu nesse projeto de desmentir o tão falado e tão temido “perigo negro” e mostrar ao mundo um negro submisso, religioso e obediente, que abandonou a cultura negra (vista como uma não-cultura bárbara e incômoda) para aprender a ler e escrever os códigos brancos. Queriam não um escravo humano, com subjetividade individual e projetos intelectuais, mas sim uma lista infindável de castigos e torturas; queriam um escravo “representativo”; queriam um corpo degradado, torturado, atormentado e silenciado. Manzano era o escravo ideal: seus sofrimentos denunciam os maus-tratos do escravismo e os horrores do tráfico negreiro, mas nunca defende a abolição ou qualquer tipo de revolta. Seria Manzano o “manso cordeiro” que demonstrou ser quase sempre, ou um leão capaz de atacar um capataz para defender a mãe? Estaria somente interpretando um papel e dando aos literatos o escravo submisso que tanto desejavam, em troca de sua liberdade? Talvez a segunda parte do texto não tenha se perdido: talvez era simplesmente agressiva e perigosa demais para ser divulgada.

(18) Os três x constam no manuscrito.

(19) Pequeno cercado onde se deixava os grãos de café para secar ao sol.

(20) Manzano enfatiza sempre a cor de quem executou a ordem para sua tortura, mas nunca a de quem deu a ordem. São tantos “negros” lhe vitimizando que quase podemos pensar que a culpa de seu sofrimento era deles, e não da escravidão em si, ou das pessoas brancas que se beneficiavam dela. Provavelmente, é parte de sua refinada e bem-sucedida estratégia narrativa: culpar as pessoas negras que executavam ordens para assim exculpar as pessoas brancas recipientes finais de suas palavras e que, por fim, lhe concederiam a liberdade.

(21) Somente nos anos imediatamente anteriores à escritura da autobiografia, houve diversas importantes rebeliões escravas por toda a ilha de Cuba, incluindo Matanzas, em 1825, e Havana, em 1835. Depois da Revolução do Haiti, um dos maiores intelectuais da açucarocracia cubana ainda caçoou dos franceses: “tinham ensinado a seus escravos sobre a Revolução Francesa e, assim, construído sua própria ruina. Criadores de anarquia não podem reclamar.” Na verdade, como diz um dos personagens do romance O Século das Luzes, de Alejo Carpentier, a Revolução Francesa não causou as rebeliões escravas, mas apenas deu sentido político e “legalizou” a Grande Fuga que já estava em andamento desde o século XVI. A verdadeira causa das rebeliões escravas era uma só: a própria escravidão.

(22) Em Manzano, todo clímax é seguido de um silêncio ainda mais estrondoso, um silêncio intencional que simultaneamente revela e ofusca.

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Para saber mais

Um site recheado de imagens e informações: juanfranciscomanzano.com

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