sábado, agosto 13, 2022
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Afetividades ordinárias: arte, cura e liberdade

Não queimem as bruxas
Mas que amém as bixas
Mas que amém
Que amém
Clamem
Que amém
Que amém as travas também
(Oração, de Linn da Quebrada)

Quando estamos implicadas em um processo criativo de realização artística e política, não deveríamos interrogar tanto as nossas competências. Afinal, produzir uma obra e torná-la existência sensível faz com que a gente possa se conectar com a nossa própria vulnerabilidade, o tempo inteiro. Desta forma, percebo a importância da pesquisa do fotógrafo, artista e jornalista João Bertholini, que pude reconhecer através da amiga, artista e ativista, Neon Cunha. Vejo-o diante do espelho quebrado da ideologia da branquitude. 

A partir dos novos pactos civilizatórios em debates públicos, a Neon tornou-se os olhos, a pose fundamental de alguns registros e a curadoria da exposição “Afetividades Ordinárias”, de Bertholini, que reúne uma série de retratos de pessoas trans e travestis. A programação estará em cartaz na Oficina Cultural Oswald de Andrade, até sábado (05/02), no Bom Retiro, Centro de São Paulo.  Ao todo, são 31 retratos selecionados, dentro de um acervo de mais de 200 imagens. São cenas cotidianas, demonstrações de afeto e de intimidades trocadas, de ativistas conhecidas a pessoas vivendo em situação de vulnerabilidade.

Fernanda Nahas e Neon Cunha, no Largo do Arouche (junho/2018) – Foto: João Bertholini

“Este projeto não para de ter recomeços, porque começou de um jeito em 2013… aí tem um outro recomeço. E a relação com a Neon… outro recomeço. Daí, a pandemia, me fez ter que fazer online, num site expositivo… E agora, finalmente, poder fazer ao vivo” .

João Bertholini

Por meio de videochamada, eu pude entrevistá-lo, para saber sobre “Afetividades Ordinárias”, que se iniciou há sete anos e agora, tem endereço para visitação (últimos dias!!). Um projeto expográfico ao público, a exposição de fotos que estava agendada para o ano de 2020, precisou ser adiada por conta da pandemia de COVID-19. Contemplada em 2019 pelo ProAC (Programa de Ação Cultural), da Secretaria de Cultura e Economia Criativa do Estado de São Paulo, a produção só pode ser aberta ao público no início de 2022. O projeto também teve versão online no site, com a produção de um vídeo DOC, de minha direção, apresentado no início de 2021, e finalmente pode ser visto em espaço físico.

Making Of para o Video DOC “Afetividades Ordinárias”

Perguntei ao João poucas coisas, já que estive ao seu lado nestes últimos dois anos, por conversas longas e intermináveis, sobre como tornar-se artista é um processo também contínuo de autopercepção, num desejo pela sensibilidade sem reprodução de violências. E antes de chegar neste texto, debatemos privilégios, muitas vezes. Por outro lado, o artista torna-se próximo da Neon por conta de uma jornada dupla, a ativista em marcha pelo centro de São Paulo, escolhe-o para também olhar os seus gestos com o mundo, ele acompanha-a por meio da fotografia. Os dois passam a frequentar o Arouche, em andanças pelas ruas da República, como quem monta uma cartografia das histórias e memórias da própria Neon e de suas iguais, como ela costuma dizer. Fazem destes caminhos o compromisso e respeito à amizade em pleno voo – identificações, celebração e a convicção pela arte política. 

“Aqui, o corpo não é objeto, a curiosidade não é premissa, e o registro não é factual”

João Bertholini

Foto: João Bertholini

Tive a possibilidade de filmar para o video DOC na casa-ateliê do João, junto à Nuna Nunes (direção de fotografia) e Andressa Clain (som direto), e o resultado imprimiu o que vivenciamos naquela tarde de domingo, em 2020. Neon e João estavam à vontade para atravessar os mistérios dos grandes encontros. Além da compreensão narrada acima, acerca do projeto em geral, ao acompanhar a abertura da exposição e seus desdobramentos, vibro muito, pois, temos um público conectado, percebendo-se sendo olhadas e olhados de volta, não o contrário, pelos registros de Bertholini, que confirma: “Não quero ser um fotógrafo extrativista”. 

Assim, fazer a denúncia por humanidade de corpos travestis e trans só se faz possível porque a categoria raça está implicada aqui pelo olhar da Neon, inclusive, “diante de seu conhecimento profundo de arte”, diz João. E o espelho quebrado da branquitude torna-se uma diretriz dentro do projeto, inclusive, perante tantos não’s e recomeços. As artistas alinharam registros para uma memória e ótica do afeto ordinário para corpos dissidentes à sociedade racista e transfóbica. Ao mesmo tempo, que interessante pensar, enquanto relembro como foi estar ao lado delxs para a exposição de fato acontecer, me senti convidada pelo desejo genuíno de expressar-me e não esquecer a minha sensibilidade em alguma sabotagem não autorizada por mim. 

O trabalho ainda conta com a publicação de zine feito pelo artista, distribuído gratuitamente durante o período que a exposição fica em cartaz. Nele, João desenvolve com pinturas, colagens e costuras, a ideia central da exposição: falar sobre a liberdade, e o que isso significa em um mundo como o nosso, já que o Brasil segue tendo o triste título de um dos países mais violentos para a população LGBTQIA+, e país com maior número de assassinatos de pessoas trans e travestis do mundo.


Day Rodrigues

Diretora, roteirista e produtora, já esteve na realização de videoclipe, séries, curtas e longas-metragens. Fez parte da equipe de diretores da série inédita “O Enigma da Energia Escura” (Lab Fantasma), criada por Emicida e Evandro Fióti; e para a série “Quebrando o Tabu” (Spray Filmes). Ambos para o canal GNT & GloboPlay. Esta última foi premiada em 2019, no New York Festivals TV & Films (USA) e, em 2020, a segunda temporada, premiada como melhor série documentário TV paga no Grande Prêmio do Cinema Brasileiro. O episódio “Racismo e resistência”, premiado na MIPCOM Diversify TV Excellence Awards 2019 (Cannes). E mais recentemente, dirigiu a websérie: “Racismo e Bullying – como proteger jovens negras?” (Geledés – Instituto da Mulher Negra/ Instagram).

SERVIÇO:

AFETIVIDADES ORDINÁRIAS

Exposição de fotos, publicação de zine e oficina de retrato

De João Bertholini

Curadoria de Neon Cunha

Exposição e distribuição gratuita de zine

3 de janeiro a 4 de fevereiro de 2022

Oficina Cultural Oswald de Andrade (Rua Três Rios, 363 – Bom Retiro, São Paulo/SP)

De segunda a sexta, das 10h às 21h, e sábados das 11h às 18h.

Entrada Gratuita

Artistas do projeto

João Bertholini é jornalista, fotógrafo e artista. Desde 2013, fotografa pessoas LGBTQIA+, em especial pessoas transgêneras. Acompanha, desde 2015, a ativista independente Neon Cunha, produzindo série de retratos para sua biografia. Em 2018, fotografou o cartaz e a produção do curta-metragem Preciso Dizer Que Te Amo, de Ariel Nobre, um alerta sobre o suicídio de pessoas trans; as reportagens “Dois Dias na Terra Prometida”, sobre ocupação na zona rural da cidade de Mauá, liderada por uma mulher trans e outra mulher cisgênera, para a revista Marie Claire; e “Vida Nova Atrás das Grades”, sobre a situação das mulheres trans e travestis encarceradas no Centro de Detenção Provisória de Pinheiros II, e homens trans que trabalham como agentes penitenciários no Estado, para a revista VejaSP.  (Portfólio em www.joaobertholini.com)

Neon Cunha é ativista independente, artista, publicitária e designer. Com 50 anos, presencia as políticas de extermínio de pessoas trans e travestis no centro de São Paulo, desde os anos 1980. Foi a primeira mulher transgênera a discursar na OEA – Organização dos Estados Americanos, onde denunciou a situação de pessoas trans no cárcere.

Ave Terrena é atriz, dramaturga, roteirista e escritora transvestigênera. Ela é a autora da peça “As três Uiaras de SP City”, montada com o grupo Laboratório de Técnica Dramática e inspirada nos relatórios da Comissão da Verdade. Seu livro de poesias, Segunda Queda, foi lançado em maio de 2018 pela Editora Kazuá.

Danna Lisboa é dançarina e cantora trans paulista desde 2015; Entre seus hits mais populares estão ‘Trinks’, seu primeiro single, e Quebradeira, onde faz parceria com a estrela drag Gloria Groove.

Day Rodrigues é diretora, roteirista e produtora, já esteve na realização de videoclipe, séries, curtas e longas-metragens. Fez parte da equipe de diretores da série inédita “O Enigma da Energia Escura” (Lab Fantasma), criada por Emicida e Evandro Fióti; e para a série “Quebrando o Tabu” (Spray Filmes). Esta última foi premiada em 2019, no New York Festivals TV & Films (USA) e, em 2020, a segunda temporada, premiada como melhor série documentário TV paga no Grande Prêmio do Cinema Brasileiro. E o episódio “Racismo e resistência”, premiado na MIPCOM Diversify TV Excellence Awards 2019 (Cannes).

Ficha Técnica

Concepção e coordenação geral: João Bertholini

Curadoria: Neon Cunha

Textos: Ave Terrena, Danna Lisboa e Neon Cunha

Webdesiner: Maria Olivia Aporia

Designer gráfico: Victor Ioriatti

Assessoria de imprensa: Elaine Calux

Produção executiva: Junior Guimarães

Vídeo: Direção de Day Rodrigues, edição de Fernanda Giusfredi, fotografia de Nuna Nunes, som de Andressa Clain, e arte de Maria Olivia Aporia


** ESTE ARTIGO É DE AUTORIA DE COLABORADORES OU ARTICULISTAS DO PORTAL GELEDÉS E NÃO REPRESENTA IDEIAS OU OPINIÕES DO VEÍCULO. PORTAL GELEDÉS OFERECE ESPAÇO PARA VOZES DIVERSAS DA ESFERA PÚBLICA, GARANTINDO ASSIM A PLURALIDADE DO DEBATE NA SOCIEDADE.

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