Afinal, a negrinha era uma mulher?

No pós-escravidão, uma reminiscência drummondiana. Cautela com as reminiscências literárias, claro. No início dos anos setenta do século passado, era comum nas faculdades de Letras o uso do manual “Teoria da Literatura”, de Wellek e Warren, cuja primeira edição norte-americana é de 1948. Wellek e Warren já alertavam os leitores, em meados do século XX, sobre os perigos de se considerar a arte uma mera cópia da vida e advertia-nos sobre os equívocos do “método biográfico”. Não entro aqui, obviamente, no mérito da questão. 

Drummond, o poeta, filho de fazendeiro no interior de Minas, nasceu em 1902 e escreveu, à exaustão, sobre sua infância. Não se trata de abstrações, há marcas ostensivas de  processos históricos e sociais, cenas paroquiais e familiares. 

Os ex-escravos estão por ali, agregados ou não. No poema que nos interessa (“Tentativa”, Boitempo, Poesia completa, 2004, transcrito a seguir), um garoto conta com a ajuda de seu primo (“Me ajude”), igualmente inexperiente, para realizar um ato de vontade: violentar “uma negrinha”. Há medo de não saber fazer, há fogo. 

           

 T E N T A T I V A

Uma negrinha não apetecível

é tudo quanto tenho a meu alcance

para provar o primeiro gosto

da  primeira mulher.

 

Uma negrinha, sem cama

salvo a escassa grama

do quintal, sem fogo

além do que vai queimando

por dentro o menino inexperiente

de todo jogo.

 

Ai medo de não saber

o que fazer na hora de fazer.

Me ajude, primo igual a mim.

Seremos dois a navegar

o crespo rio subterrâneo

 

No chão, à luz da tarde, a tentativa

de um, de outro, em vão, no chão

sobre a fria negrinha indiferente.

 

Em meio à indiferença dos repolhos,

das formigas que seguem seu trabalho,

eis que a montanha

de longe nos reprova toda ferro.

 

A garota está deitada no chão do quintal. Omite-se a derrubada, a abordagem violenta. Como só há o medo de não saber fazer, e tudo pode ser feito à luz da tarde, impossível não pensar nos privilégios do direito de propriedade. O direito de propriedade sobre os negros estende-se ao período pós-Abolição. Ele não desaparece de imediato no 13 de Maio de 1888. Quando se comemorava o centenário da Abolição (1988), ainda circulava a anedota marota: “Você sabia que a lei Áurea foi escrita a lápis?”.

A “negrinha” se apresenta pela negação. É o objeto que se coloca diante do intenso desejo do menino, mas ele não deseja exatamente a negrinha. Ele deseja fazer certas coisas, mas entre elas não está o reconhecimento da negrinha. O primeiro gosto da primeira mulher será provado numa… mulher?  Na grande expectativa de realização de desejos humanos insinua-se a  negação do outro. Mas não só.

Não me apetece, mas é o que tenho à mão. O fruto pode ser colhido tranquilamente, basta estender o braço. O problema ético que o poema levanta não está na censura da montanha de ferro, ao longe, nos versos derradeiros. A questão obviamente é a seguinte: afinal, a negrinha é uma mulher?

O problema ético que desafia o menino é mesmo a humanização da negrinha. O poema personifica a montanha em sua reprovação, o leitor chega a reconhecer formigas e repolhos, em estado de alheamento, mas com consistência ontológica. E a negrinha?

Curioso é que “uma negrinha não apetecível” ganha adjetivos (“fria”, “indiferente”) que parecem sugerir, em seu avesso, que as tentativas ansiosas e a imaginação do menino alimentam expectativas de que a quase-humana, pela violência, comece a reagir como os humanos reagem ou poderiam reagir, em circunstâncias idealizadas. A violência desumanizadora alimenta expectativas de vir a recepcionar o humano?

Por que ficarmos aqui desenterrando o passado? Porque a questão do menino antigo (a negrinha é uma mulher?) ultrapassa os limites das reminiscências do poeta e expressa o problema central de uma sociedade constituída por uma maioria de negrinhas e negrinhos: afinal, todos são igualmente humanos?

A fábrica da morte que empilha cadáveres pretos em valas, lixões, centros e periferias poderia decidir assim, impune e tragicamente, o destino de seres… humanos? Por que consentimos? Todos parecem colaborar, de algum modo, com as engrenagens da  fábrica da morte. Por que consentimos? A negrinha é pilha, é montanha, é legião.

 

** ESTE ARTIGO É DE AUTORIA DE COLABORADORES OU ARTICULISTAS DO PORTAL GELEDÉS E NÃO REPRESENTA IDEIAS OU OPINIÕES DO VEÍCULO. PORTAL GELEDÉS OFERECE ESPAÇO PARA VOZES DIVERSAS DA ESFERA PÚBLICA, GARANTINDO ASSIM A PLURALIDADE DO DEBATE NA SOCIEDADE. 

         

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