‘Mãe preta, casa comum’

A casa construída no debaixo da rua dos Pirineus, localizada no Pau Miúdo, bairro periférico soteropolitano, no ano de 2020, ainda existe. A casa construída no debaixo da rua dos Pirineus foi erguida sobre um naco de terra cedido aos novos proprietários pela Igreja Católica, dois quartos, sala, cozinha e o cercado destelhado na parte externa era o único banheiro. A casa construída no debaixo da rua compartilha uma das suas paredes com a comunidade tradicional de terreiro, chamada Ilê Axé Adjemim, fundada pelo pai de santo Apolinário e conduzida por sua filha Aureliana, mais tarde conhecida como “mãe Lelu”. A casa construída no debaixo é apenas acessível desde uma escada bastante íngreme e, no dentro da casa, concluída a ribanceira de degraus mal-acabados, uma família absolutamente negra. São absolutamente negros porque a mãe é a mulher responsável pela casa, pela comida, pelas roupas, pela limpeza e pelas seis crianças — três filhos biológicos com o pai negro e três outros também dele, mas nascidos de mães sortidas, brancas e negras. Dentre os três filhos biológicos, eu dizia, dois rapazes negros, João Souza Cruz e Carlos Augusto Souza Cruz, cujos nomes são exibidos assim, por extenso, porque a inaptidão de ambos para as coisas do livro será crucial. Por acaso, João e Carlos não são cativos, muito embora sua sobrevivência tenha dependido da pífia remuneração por serviços de reparo na casa de seus outros. Da certidão de nascimento a de óbito, João, o filho mais velho, viu-se defrontado com tijolos, pedras e argamassa — porque igual maneira o pai de João quitava a conta do armazém com o saldo da alvenaria. João, “João do Galo”, trabalhou todos os dias dos seus dias até o último, em 2015. Já mais fácil dar a Carlos uma biografia alternativa, posto ter sido o caçula submetido a uma cirurgia no quadril que o impedia de caminhar sem a ajuda de uma bengala; daí que logo foi tomado desde sua condição motora frágil, descobrindo no jogo de dominó, ainda hoje, um assento e uma atividade rigorosamente diária. Os corpos de João e Carlos voltaram, sistematicamente, para a casa, porque lá foi sempre o lugar de João, porque Carlos ainda vence os degraus de ladrilho para suas partidas e porque para casa — a língua, a mãe, o solo— sempre retornamos. 

Concluído o ginásio, os pré-adolescentes deveriam anunciar ao pai sua decisão. Na sala da casa, funcionava uma pequena fábrica de colchões e de tijolos artesanais. No quintal da casa, e de responsabilidade exclusiva da mãe, uma carvoaria e um depósito de querosene. O quadro de funcionários contava com a mãe ela mesma e a trinca de descendentes, de modo que seria preciso deliberar quem dali seguiria com os estudos — um dos três, apenas, a fim de não desfalcar a produção familiar, pondo em risco, assim, as raízes, o acaçá, o pão, a luz, os ovos, feijão, arroz, a pamonha, os legumes, poucas frutas e só. João e Carlos declinaram porque a inaptidão para as coisas do livro, eu dizia, é uma extraordinária tecnologia colonial de sujeição, podendo ser abreviada pela ideia de Frantz Fanon, segundo a qual, para o colonizado, a violência é uma espécie de Zeitgeist; e, portanto, a ordem natural do mundo (FANON, 1968). O livro é tornado um objeto estranho, estrangeiro, não familiar. Não é alimento, não remonta ao que é imediatamente reconhecível, não está lá. 

Na casa não há livros, mas há a irmã de João, de Carlos e dos três irmãos não biológicos a quem nada foi perguntado. Sonia Maria Souza Cruz que, com atraso por mim calculado, alcança a história em tempo de se autoproclamar a estudante eleita. É calculado o atraso porque é com atraso que a irmandade feminina branca (HOOKS, 2017, p.139) convulsiona o welfare state perene de homens brancos, garantindo às mulheres brancas, suas filhas e filhos, um tanto de coisas. Ao passo que, à irmandade feminina negra, tem sido preciso não morrer antes de assegurar coisa qualquer e, uma vez a mínima cota, que suas filhas e filhos não sejam deliberadamente aspirados para dentro de tabelas estatísticas (AKOTIRENE, 2019). 

Sonia nasceu no dia 17 de fevereiro 1948, assistida pela parteira Eulina, e até os seus 16 anos de idade julgava o mundo inteiro pelo Largo do Tamarineiro, a Baixa de Quintas, a Caixa d’Água, a avenida Barros Reis e todo aquele perímetro que, no Brasil colônia, abrigou jesuítas retirados para descanso (BRITO, 2008). A escola improvisada nos fundos do terreiro de candomblé, administrada pela mãe de santo Lelu — também mãe Lelu a única professora, foi onde Sonia conheceu os primeiros números e letras. Nos 27 de setembro, quando o calendário negro celebra os filhos gêmeos de Xangô e Iansã, a sala de aula era tornada um oferendário. Caruru, farofa de dendê, acarajé, frango cozido, feijão fradinho e as crianças da rua naquele dia não jantavam, apresentando-se para a festa de Cosme e Damião metidas nas suas melhores roupas. O professor de grego Luís dos Santos Vilhena redigiu uma carta afetadíssima quando deu com negros vendendo quitutes nas ruas. O ano de 1802, a grafia é como está e, “mortificado”, Vilhena ilustra o que batizou um “cathalogo de viandas tediosas”: “mãos de vaca, carurus, vatapás, mingáos, pamonhas, cangicas; isto é, papas de milho, acassás, acaragés, abarás, arroz de coco, feijão de coco, angus, pão de ló de arroz, o mesmo de milho, roletes de canna, queimados […]” (CASCUDO, 1983, p.858). “A comida era muito gostosa, havia batida de candomblé e os filhos de santo dançavam para nós”, diz Sonia, cuja mãe de fé católica, apostólica e romana dava de ombros para a modalidade de fé alheia e bem convivia com a vizinhança feita no santo. 

Aos seis anos, Sonia foi matriculada no Colégio Estadual Marquês de Maricá, sediado no Pau Miúdo, relembrado por ela como um espaço adequado porque muitas salas de aula e merenda escolar e banheiro com privada e tudo e jardim e dentista e uma quadra esportiva. Alunas e alunos se distribuíam em equipes para manter varrido o chão, regadas as plantas e as carteiras enfileiradas. Os recitais de poesia, as aulas de música e outras “atividades de palco” faziam associarem à escola um centro público de excelência em ensino. “Eu ficava entusiasmada para estudar e obter novos conhecimentos, diferente da comunidade onde morava. Fui considerada inteligente e as professoras gostaram muito de mim”, anota Sonia em seu caderno. Em 1960, Sonia seguiu para o curso ginasial no Instituto Central de Educação Isaías Alves (ICEIA), ali na Praça do Barbalho, cerca de quatro quilômetros distante da sua casa. O colegial foi concluído no Colégio Central da Bahia — primeira instituição de ensino médio do estado, situado na Praça Carneiro Ribeiro. Distante, agora, quase sete quilômetros do Pau Miúdo. “À medida que eu mudava de escola, ampliava minha visão territorial e eu estabelecia contato com novas realidades, novos usos e costumes. E eu ia me diferenciando da comunidade onde nasci”, escreve. E ela ia se d i s t a n c i a n d o do seu checkpoint civilizacional em direção a outras paragens (AKOTIRENE, 2019). 

As negativas dos irmãos garantiram à irmã o diploma colegial. O pai entendeu que já bastante isso de livros, livros, livros e que a filha deveria trabalhar. Era 1967 — ano de promulgação da Constituição anunciada o regimento supremo do regime militar — quando, aos 19 anos, Sonia decidiu estudar às escondidas e prestar vestibular para medicina. (Ensinando a transgredir, de bell hooks, é tão excedente e na página 178 eu li hooks se lembrando que “[…] como jovem negra do Sul segregado, eu pensava — e meus pais pensavam — que eu voltaria àquele mundo e seria professora da escola pública. Mas nunca ocorreu a ideia de eu pudesse ser professora universitária […]”). A nós também nunca ocorreu Sonia, tão negra e tão pobre, um dia médica de verdade. A primeira turma de médicas e médicos da Escola Bahiana de Medicina e Saúde Pública (EBMSP) teve início em 1953 e, no ano de 2018, era possível se formar na instituição particular com R$52.800,00/ano (CORREIO, 2020). Na década de 1960, 50% da população brasileira recebia até 60% do salário mínimo de em vigor no país (CUNHA, 1975, p. 5). Então, não havia o suficiente para a mensalidade, para o deslocamento casa↔universidade, para os livros, para as refeições, para uma segunda roupa das mais ajeitadas. E os livros. Os livros de medicina custavam — e ainda— órgão vital porque, veja, um único atlas de anatomia, hoje e em média, pode extrapolar os R$500,00 ou 47% do salário mínimo atual. 

Aos 12 anos de idade, Sonia ouviu um pedido de socorro e sua mãe ordenou que a menina fosse checar o que era aquele bérradêro da comadre Dona Detinha. Deitada no chão, Detinha deixava escapar um bebê pelo meio das próprias pernas e, desmesuradamente plácida, providenciou-se: “minha filha, pegue o paletó de Júlio e coloque em cima da minha barriga. Tire o bebê do chão, ponha-o sobre o paletó e vá avisar sua mãe que meu filho nasceu”. Entendemos que Sonia quis muitíssimo cuidar de crianças desde então e ela se lembrou da cena quando caminhava até a banca de jornal. Os olhos percorreram a lista de aprovação, ultrapassando o primeiro, o segundo, o terceiro, o quarto, o quinto, o sexto, o sétimo, o oitavo e o nono nome era o dela. O nome dela, Sonia Maria Souza Cruz, era o nome de número nove e aquilo tinha a consistência de uma tragédia. Primeiro, comunicar a mãe — e a mãe toda vida nos precede, sobre a insubordinação seguida do bilhete para o ingresso no curso superior de uma instituição particular de ensino; mas a mãe não entendia, exatamente, o que significava “passar no vestibular”. Esclarecido o enredo, tramaram um plano para fazer a notícia enlaçar o pai que, de pronto, quis saber quem financiaria a desobediência. Antecipando-se, a mãe prometeu três cortes de tergal para três saias e cinco de cambraia para cinco blusas, eu mesma costuro e você, meu esposo, fará o que? Rendido, o pai assegurou sandálias feitas de pneu de carro, 50% da mensalidade e um único bilhete diário de ônibus. Lembrando-se da primeira escola e da mãe de santo Lelu, Sonia organizou uma lista extraordinária. 1. Criar uma escola nos fundos de casa para angariar os 50% restantes da mensalidade. 2. Ir de ônibus para a faculdade e “chegar arrumada, sem suar”. 3. Levar marmita e permanecer o dia inteiro na faculdade, estudando na biblioteca. 4. Voltar a pé os quinze quilômetros que separam a sala de aula da casa para economizar no transporte. E assim foi feito. De segunda a sexta-feira, todos os dias e salvo circunstância incapacitante, ao longo de três anos. No quinto e último item da lista, 5. Filiar-me ao centro acadêmico da faculdade de medicina e saúde pública da Bahia. 

O quarto ano do curso de medicina e saúde pública exigia dedicação exclusiva, razão pela qual a escola doméstica foi extinta. “Primeira ameaça de interrupção”, anota no bloco de papel. Foi extinta também a escola doméstica por ser parte do plano de Sonia que, tendo pleiteado a monitoria em histologia, técnica cirúrgica e farmacologia, recebeu em contrapartida 50% de desconto na mensalidade. “Segunda ameaça de interrupção”, no bloco de papel. Os dois últimos anos da graduação eram ainda mais demandantes e atividades presenciais e regulares, matutinas e vespertinas, impediam a continuidade da monitoria remunerada. Tão melhor que isso seja dito de modo o mais direto possível porque é importante saber o leitor que Sonia julgou por bem escrever uma carta para a primeira-dama do país Yolanda B. da Costa e Silva, companheira do militar e apoiador do golpe de 1964, Artur da Costa e Silva, no poder entre 1967 e 1969. Na carta, conforme lemos no aviso de recebimento emitido pela secretária particular do gabinete do Presidente da República, uma “solicitação de bolsa de estudo (curso superior)”. Yolanda não podia ajudar, sem mais e atenciosamente. Então Sonia se voltou para Antonio Carlos Magalhães, médico e governador da Bahia em exercício pelo período de 1971 e 1975. Como resposta, uma carta de Magalhães para o Banco do Estado da Bahia (BANEB) ordenando que o compromisso financeiro de Sonia com a Escola Bahiana de Medicina e Saúde Pública fosse, IMEDIATAMENTE, quitado. “Daí resulta que em nada se crê tão firmemente como naquilo que menos se sabe, e que não há pessoas tão seguras quanto as que nos contam fábulas, como alquimistas, especialistas em prognósticos, astrólogos, quiromantes, médicos, id genus omme [todos os dessa espécie]” (MONTAIGNE, 210, p. 159). Magalhães foi também empresário e, dois anos após sua formatura como médica, Sonia haveria de ressarcir o BANEB pelo crédito universitário. No sexto ano do curso de medicina, a possibilidade de cumprir optativas ao lado de alunas e alunos da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (FMRP-USP), seguida da oportunidade de uma prova para bolsas de estudos no departamento de puericultura e pediatria; aquilo lhe pareceu excelente. Uma bolsa de estudos paga pela fundação filantrópica norte-americana Josiah Macy Jr. Foundation. Uma bolsa de estudos para os dois anos de especialização em pediatria social, “[…] campo de práticas e saberes, [que] começou a ser construída no Brasil no final da década de 60 e início de 70, junto com as propostas de reforma do ensino e da atenção médica, influenciadas pelos movimentos de medicina integral, medicina preventiva, medicina comunitária e medicina social” (ZANOLLI; MERHY, 2001, n.p.). Com a bolsa de estudos, eu estava contando, Sonia foi contemplada. 

E iria para São Paulo. Dois mil quilômetros distantes do Pau Miúdo.

Durante a residência em pediatria social no Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (HC/PMRP-USP), entre fevereiro de 1974 e janeiro de 1976, Sonia deu início à prestação de serviços médicos em Pradópolis, lugarejo de Ribeirão Preto, localizado no estado de São Paulo. Depois em Franca, também no estado, e três anos sediada no Vale do Ribeira; primeiro na cidade de Ribeira e, em seguida, Pedro de Toledo. Lá idealizou, desenvolveu e colocou em prática um curso de formação de agentes de saúde, tendo mais tarde trabalhado em postos de saúde, prontos-socorros e hospitais públicos regionais. Sua passagem por unidades de saúde sempre afastadas dos grandes centros urbanos e seu entendimento da saúde pública como um processo histórico interseccional dirigiu seu interesse para a atenção primária à saúde; que, de modo geral, não prescinde do t e r r i t ó r i o para assistir coletividades desde a promoção e proteção da saúde ao tratamento e a reabilitação das coletividades (BRASIL, 2020). 

Eis quando, precisamente, Sonia escapuliu para o lado de fora do círculo biotecnológico — que, em 2009 e bastante tardiamente, seria descrito e confrontado pela Política Nacional de Saúde Integral da População Negra (PNSIPN) — e enxergou na comunidade o expediente conciliatório entre o corpo tornado vulnerável por tecnologias necropolíticas² e as políticas públicas de saúde. 

Ela se enxergou uma mulher negra cercada por mulheres negras. 

E sua clarividência será definitiva. 

Caravana organizada por Sonia com lideranças femininas de movimentos sociais para a 1a Jornada do Comitê das Nações Unidas no Brasil Contra a Discriminação à Mulher (ARQUIVO PESSOAL).

Mudando-se para Osasco, fundou uma série de Sociedades de Amigos do Bairro³, células do movimento social comunitário que se esgueiravam para longe da vigilância perpetrada pelo regime militar, especialmente, depois de decretado o Ato Institucional no. 5, em 1968. No primeiro de fevereiro de 1983, Sonia assumiu a diretoria da Divisão de Medicina Preventiva da hoje extinta Fundação de Saúde do Município de Osasco, a FUSAM, permanecendo até o ano de 1985. No cargo, incentivou mutirões de saúde em escolas estaduais e consolidou um convênio entre a FUSAM e a Universidade de Campinas (UNICAMP), garantindo maior abrangência de iniciativas para a prevenção do câncer ginecológico. Em 1982, empossada secretária da saúde do município de Osasco, instalou a Casa da Mulher, programa ocupado com atenção à mulher; o Programa de Assistência à Saúde do Trabalhador, em conjunto com sindicatos e associações de classe; escreveu o projeto de lei de reestruturação do código sanitário de Osasco; foi delegada brasileira no Seminario Internacional de Atencion Primaria de Salud⁴, realizado em 1986, na cidade de Havana, Cuba — cujos resultados contribuíram para a implantação do Programa “Médico de Família” na cidade de São Paulo; conduziu a Semana de Cultura Negra em conjunto com entidades afro-brasileiras; organizou uma caravana Osasco↔Brasília com mulheres líderes de movimentos sociais para prestígio da 1ª. Jornada das Nações Unidas no Brasil contra a Discriminação da Mulher e lá as presenças de Benedita da Silva e Hadja Assa Diallo Soumaré; convocou assembleias populares para o debate sobre o racismo e os direitos da mulher; tornou-se presidenta do Clube Amigos do Samba e promoveu palestras educativas sobre sexualidade na infância, aleitamento materno, planejamento familiar, prevenção de doenças e o dobro. Tudo dito seria suficientemente excepcional não estivesse registrado no material de campanha eleitoral para o cargo de vereadora de Osasco. Um material de campanha que é uma cartilha para a liberdade dados os seus itens reunirem estratégias discursivas e práticas curativas e revolucionárias. Sobretudo, porque se vivia o primeiro mandato da Nova República (1985-1990), comandado pelo presidente da república José Sarney, desde o plot twist ilustrado pela morte imprevista de Tancredo Neves. No dia 5 de agosto de 1987, o jornal O Diário publicou página inteira que estampava o seguinte. “Sonia Cruz toma posse e faz discurso polêmico”. Suplente do falecido Ananias Kir Biyikian, e interrompendo o presidente da Câmara Municipal de Osasco com pedido de “questão de ordem”, a vereadora Sonia⁵, alcançando o microfone, disse assim. 

Este é um momento de reflexão política. O PMDB, o maior partido brasileiro, que outrora ergueu bandeiras de combate à ditadura, a bandeira das eleições diretas e muitas outras bandeiras de profundo interesse popular, vê-se agora numa posição constrangedora. O presidente Sarney, que não tem e nunca teve compromisso com as propostas do PMDB, não cumpriu nem cumprirá as promessas feitas por Tancredo Neves. E não cumprirá porque seus interesses são os mesmos dos seus amigos latifundiários, empresários e banqueiros que tem como única meta entregar o país nas mãos do imperialismo internacional (ODIÁRIO, 1987). 

Ato Contra a Discriminação Racial convocado pela vereadora Sonia Cruz na Câmara Municipal de Osasco e com presenças de Tereza Santos e Sueli Carneiro (ARQUIVO PESSOAL)

No ano de 1989, a hiperinflação atingiu espetaculares 1.764%, o plano cruzado naufragou poucos meses passados desde sua adoção e o período ficou conhecido como a “década perdida”; tendo como resultado também o fato de que mais membros de famílias de baixa renda — especialmente, esposas e filhos— fossem obrigados a ingressar no mercado de trabalho⁶ (OMETTO; FURTUOSO; SILVA, 1995, p.405). Do ponto de vista político, por outro lado, assistimos à promulgação da Constituição da República Federativa do Brasil de 1988 e a emergência de mobilizações populares em protesto contra o cenário erguido pelo aumento das desigualdades de renda. Cerca de cinquenta dias depois de assumir o gabinete⁷ na Câmara Municipal, Sonia reuniu uma centena de pessoas no Ato Contra a Discriminação Racial. Entre os presentes, constavam o presidente da Câmara José David Binsztajn; a assessora estadual de assuntos afro-brasileiros Tereza Santos, o representante do Conselho Estadual da Comunidade Negra Eduardo Joaquim de Oliveira, a representante do Conselho da Condição Feminina Sueli Carneiro e “outras personalidades”, conforme nota da assessoria de imprensa da vereadora; no jornal Primeira Hora, entretanto, lemos apenas os nomes masculinos e eis a razão pela qual a história deve ser o nosso principal alimento. Os temas debatidos na ocasião do ato fizeram incluir os movimentos negros internacionais de libertação e suas relações com o Brasil; a criança negra na escola; o negro no poder; a discriminação no mercado de trabalho e “entidades a recorrer em casos de preconceito de cor” (ARQUIVO, 1987). 

Tornar o próprio corpo a casa do mundo, esgarçando-o até fazer caber dentro dele condições de existência equânimes para o conjunto de pessoas sobre a terra. A casa é um imperativo ético e sociopolítico. A casa é onde habitamos e apenas habitamos o que é comum. A casa é onde nasce a vida, o útero, onde se administra a vida, o teto. No ano de 1995, aos 47 anos de idade, Sonia era já mãe de Maria Angélica Souza Ribeiro, Mariangela Souza Ribeiro e João Gilberto Souza Ribeiro, filhas e filho dela com o jornalista Gilberto Alves Ribeiro, um homem que assumiu os afazeres domésticos e o backstage das campanhas eleitorais, oferecendo o suporte necessário para que Sonia não precisasse mais das suas listas extraordinárias, muito embora ela ainda as rabisque. Pois, eu dizia, 1995 e Sonia, como coordenadora do Instituto de Assuntos da Família (IANFAN) da Secretaria da Promoção Social do Estado de São Paulo, lá ocupada com atribuição voltadas para menores de idade, adoção, guarda, tutela e relações familiares, viajou até a China. Dezessete mil quilômetros contados entre Pequim e a casa construída no debaixo da rua dos Pireneus, localizada no Pau Miúdo, bairro periférico soteropolitano. Em Pequim, Sonia participou da IV Conferência Mundial sobre a Mulher, cujo tema central era “Ação para a Igualdade, o Desenvolvimento e a Paz” e o compromisso com uma plataforma de ação contra os obstáculos que impedem mulheres de se desenvolverem integralmente. 

Em 2020, Sonia Maria Souza Cruz, pós-graduada em Administração Hospitalar e de Sistemas de Saúde (Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo) e em Medicina de Família e Comunidade (Hospital Israelita Albert Einstein), tem 72 anos de idade e é a única pediatra à disposição de crianças que fazem uso das unidades básicas de saúde do município de São Pedro, interior de São Paulo, sua nova casa. 

 

 

*Este ensaio é dedicado aos meus avós maternos Maria de Lourdes Souza Cruz e João da Cruz Filho. Minha vó e meu vô, a benção, suas histórias continuam. 


¹ Eu, Maria Angélica Souza Ribeiro, autora do presente artigo, declaro-me uma mulher negra. Formada em Ciências Sociais (PUC-SP). Mestre e doutora em Comunicação e Semiótica (PUC-SP/SP, Université Paris-Diderot). Pós-doutoranda no Programa de Pós-Graduação em Humanidades, Direitos e Outras Legitimidades (DIVERSITAS/FFLCH-USP). 

² E nas agendas da Câmera Municipal de Osasco, constam anotadas as reivindicações de Sonia tais como a instalação de torneira comunitária em área ocupada por famílias sem-teto; tratamento adequado dos lixos doméstico e hospitalar em regiões de vulnerabilidade social; abaixo-assinado firmado por 300 moradores do Jardim Aliança que, apoiados pela Escola de Samba Águia Negra, exigiam asfaltamento há uma década. 

³ A Sociedade Amigos do Bairro do Jardim Veloso; a Sociedade Amigos do Bairro do Jardim Lofredo; a Associação de Mulheres da Vila das Rosas; a Associação de Mulheres do Jardim Aliança; a Associação de Mulheres do Jardim Oriental e outras estão entre os núcleos de enfrentamento popular cujas bases foram propostas e assentadas por ela em bordas periféricas da cidade de Osasco (SP).  

Em Havana, Sonia esteve à mesa com o presidente cubano Fidel Castro, em jantar oferecido no Palácio da Revolução. Grupos de participantes do Seminario Internacional de Atencion Primaria de Salud se organizaram para visitar os Comités de Defensa de la Revolución (CDR). Os “cederistas” correspondem a organizações de massa, instituídas por Castro em 1960 e dedicadas a um “[…] sistema de vigilancia revolucionaria colectiva” (SANTOS, 2017).

 Sonia era da base aliada do prefeito Humberto Parro, embora atuasse como oposição porque filiada à ala progressista; inclusive, travando importantes embates contra os encaminhamentos de Parro. Certa feita rompeu com o PMDB, assumindo o diretório municipal de Osasco do Partido Socialista Brasileiro (PSB) por três anos. 

“A participação da mulher na População Economicamente Ativa (PEA) se eleva de 21% para 28% e as taxas diferenciadas decrescimento segundo o estado civil verificadas favorecem o aumento da participação da cônjuge na força de trabalho. Desta forma em 1980 as mulheres casadas passam a constituir 36% da PEA feminina, enquanto em 1970 eram apenas 27%” (OMETTO; FURTUOSO; SILVA, 1995, p.406). Ao ler “participação da mulher”, leia-se “participação da mulher branca”, posto não haver recorte de raça no levantamento feito pelo Anuário Estatístico do Brasil.

Com o falecimento do vereador eleito Ananias Kir Biyikian, o vereador João Paulo Cunha (PT) transferiu seu gabinete para o gabinete de Biyikian que, segundo consta, era mais bem apanhado. Tendo sido empossada porque suplente de Biyikian, Sonia se recusou a ocupar a sala de João Paulo, obrigando-o a desocupar o gabinete de Biyikian — de Sonia, doravante — e a voltar para sua antiga sala. A disputa foi documentada pelo jornal “O Grande Osasco”, em 15 de agosto de 1987. O episódio está todo ele apoiado no que já viram há muito Sueli Carneiro, Lélia Gonzalez, Thereza Santos, Carla Akotirene e demais articuladoras, do que eu chamaria uma cosmografia negra — uma sismografia negra, possivelmente — e a ideia de que é preciso combater a semiose do racismo, em todos os seus níveis. 


Referências bibliográficas:

AKOTIRENE, Carla. O que é interseccionalidade?. São Paulo: Sueli Carneiro; Pólen, 2019. 

BRASIL. Saúde em família. Ministério da Saúde. Disponível em: https://www.saude.gov.br/atencao-primaria. Último acesso em 29JUN2020.

BRITO, George (2008). Baixa de Quintas guarda ecos da história. Disponível em: https://atarde.uol.com.br/bahia/salvador/noticias/1247797-baixa-de-quintas-guarda-ecos-da-historia#:~:text=A%20Baixa%20de%20Quintas%20remete,jesu%C3%ADtas%20foram%20expulsos%20do%20Brasil. Último acesso em 28JUN2020.

CARNEIRO, Sueli. Racismo, sexismo e desigualdade no Brasil. São Paulo: Selo Negro, 2011. 

CASCUDO, Luis da Camara. História da alimentação no Brasil. vol. 2. Belo Horizonte: Ed. Itatiaia. São Paulo: Ed. Da Universidade de São Paulo, 1983. 

CUNHA, Luis Antônio C. R. Educação e concentração da renda na década de 60: uma polêmica. In: Revista Síntese, no.3, janeiro/junho 1975. 

FANON, Frantz. Os Condenados da Terra. Tradução de José Laurênio de Melo. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1968. 

hooks, bel. Ensinando a transgredir: a educação como prática da liberdade. Tradução de Marcelo Brandão Cipolla. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2017.

MONTAIGNE, Michel de. Os ensaios: uma seleção. Tradução de Rosa Freire d’Aguiar. São Paulo: Companhia das Letras, 2010. 

ODIÁRIO. Sônia Cruz toma posse e faz discurso polêmico. Jornal “O Diário”, publicação de 05 de agosto de 1987. Arquivo pessoal. 

OMETTO, Ana Maria H.; FURTUOSO, Maria Cristina O.; SILVA, Marina Vieira da (1995). Economia brasileira na década de 80 e seus reflexos nas condições de vida da população. In: Revista de Saúde Pública. Disponível em: https://www.scielo.br/pdf/rsp/v29n5/11.pdf. Último acesso em 29JUN2020.

SANTOS, Rhenan Pereira. En cada cuadra un comité, en cada barrio revolución: os cdr e a participação popular na transição socialista em cuba (1960-1975). Dissertação de mestrado apresentada ao Programa de Pós-Graduação em História do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRJ), 2017. 

ZANOLLI, Maria de Lurdes; MERHY, Emerson Elias. A pediatria social e as suas apostas reformistas. Cadernos de Saúde Pública, vol. 17, no 4. Disponível em https://doi.org/10.1590/S0102-311X2001000400032. Último acesso em 29JUN2020.

 

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