Africanos quebram barreiras, mudam cenário e já somam mais de 2 mil no Ceará

Entre desafios, superações e conquistas, os imigrantes da “Mama África”, mostram que vieram para contribuir com o desenvolvimento do Brasil

Por Marianna Gomes Do Tribuna do Ceara

Com roupas de cores vibrantes, penteados cheios de estilo e um sotaque de timbre forte, os africanos já somam mais de 2 mil com residência registrada no Ceará, segundo dados da Polícia Federal. Entre desafios, superações e conquistas, os imigrantes da “Mama África” mostram que vieram para contribuir com o desenvolvimento e cultura do Brasil, e contam como tem sido viver em terras cearenses.

Escolha certa

Eveline Amado, de 21 anos, é natural de Cabo Verde, país a oeste da África, e já está no Estado há dois anos e meio. A jovem veio para o Brasil por intermédio do Programa de Convênio de Graduação (PEC-G), acordo que oferece bolsas de estudos a alunos estrangeiros. A jovem cursa Arquitetura e Urbanismo na Universidade Federal do Ceará (UFC).

De acordo com Eveline, sua adaptação foi tranquila. Como já havia estudado português por 12 anos, a africana não teve dificuldades em se comunicar com os brasileiros. “Escolhi o Nordeste também pelo clima ser parecido com o que eu estava acostumada”. Ela conta que, no início, ficou um pouco assustada apenas com a quantidade de pessoas que circulam nas ruas. “É muita gente”, ri.

“Algumas pessoas costumam estranhar nossa cor. Nunca alguém falou algo preconceituoso comigo, mas já me aconteceu várias vezes entrar em lojas e os seguranças ficarem seguindo meus passos, ou quando entro no ônibus. Todos ficam te vendo como se você fosse um extraterrestre”, lamenta. Contratempos a parte, Eveline elogia o turismo local. “Percebo que aqui tem muitas potencialidades que ainda são pouco exploradas”, opina.

Para o futuro, a jovem pretende, ao terminar a graduação, se especializar em sua área e estabilizar sua vida profissional no Estado. “O mercado de trabalho e a profissão de arquiteto aqui são mais amplos e valorizados do que em meu país”, explica.

Quebrando barreiras

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Conterrâneo de Eveline, o africano Andy Monroy, de 26 anos, chegou ao Ceará com 18 com um único propósito: estudar. Casado com uma brasileira e formado pela UFC em Publicidade e Propaganda, o africano também fez parte do programa de intercâmbio PEC-G e atua  como designer gráfico.

Se adaptar ao Ceará foi fácil, segundo Andy.”Falamos português em Cabo Verde. Hoje falo mais gírias do que um monte [sic] de cearense por aí”, brinca. Porém, se estabilizar na cidade não foi de todo tranquilo. O preconceito por ser negro e estrangeiro apareceu para ele nos primeiros dois meses morando em Fortaleza. “O racismo é diário”, revela.

“Chegando da faculdade, desci do ônibus em direção ao prédio onde morava, na Varjota. Uma mulher que morava no mesmo condomínio que eu se assustou quando me aproximei do portão, abriu a porta rapidamente e fechou, se sentindo segura (pensei). Não pensei que fosse comigo. Abri a porta calmamente e fui em direção ao elevador. Ela, não sabia se olhava para o chão ou para o céu, absorta na sua ignorância. Com o passar do tempo vi que o racismo seria algo desafiador. E foi”, relata.

A cena musical da cidade é o maior atrativo para o designer, que diz sempre estar em apresentações no Centro Cultural Dragão do Mar e Praia de Iracema. “E o Benfica, bairro do meu coração”, completa. O africano fez parte ainda de um documentário que trata a questão do racismo na cidade de Fortaleza sob a ótica de quatro imigrantes africanos.

Superando limites

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Há cerca de cinco anos, a facilidade de aprender o idioma e o custo de vida foram os atrativos que Gino Pereira, da Guiné- Bissau, localizado na costa ocidental da África, encontrou para vir morar no Ceará.

Gino conta que a maior dificuldade que teve ao vir para o Estado foi conseguir uma moradia. “É muita burocracia só pra alugar uma casa”, diz. Após a estabilização, ele assegura que fez muitas amizades.”Sou muito querido pelos meus vizinhos”, pontua.

O litoral do Ceará é o que ele mais aprecia e o compara com o de seu país. “Ambas são lindas”, observa. A panelada, iguaria típica do Nordeste, até gora está sendo o prato preferido de Gino. “É muito bom”, elogia.

Embora o africano goste do novo lar e pretenda concluir seus estudos no País, ele lamenta o preconceito que sofre junto com seus conterrâneos. “Às vezes, alguns cearenses nos olham com jeito de desconfiança, desconforto. Nós não viemos pedir favor, mas contribuir com o estado. Eu, por exemplo, estou desenvolvendo uma pesquisa aqui no Ceará que poderá beneficiar o povo brasileiro, e não povo do meu país, mas me sinto bem por estar dando essa contribuição para cá. Recentemente, fui representar os universitários cearenses num programa de estudos da ONU em Genebra, Suiça. Entre 70 estudantes do mundo inteiro, fui o único selecionado aqui no Ceará”, esclarece.

O africano é graduado em Processos Gerenciais, especialista em Gás e Petroleo, Auditória e Finanças, e mestrando em Desenvolvimento e Meio Ambiente pela UFC, Gino é ainda o atual presidente da Associação dos Estudantes Africanos no Ceará, (AEAC).

Conquistas

Criada em 2009, a AEAC tem como propósito defender o direito de estudantes africanos nas faculdades e universidades do Estado, quando estes forem lesados. “Na associação são realizados encontros acadêmicos, congressos, seminários, atividades culturais entre outras coisas. Já temos 1,205 associados e nossa maior conquista foi conseguir a autorização de renovação de visto de mais 200 estudantes que estavam irregular”, explica Gino.

África em números no Ceará

De acordo com Polícia Federal, 2.167 africanos possuem registro de residência no Ceará, oriundos da Angola, Cabo Verde, Congo, Gana, Moçambique, Nigéria, Senegal, Serra Leoa, São Tomé e Príncipe, e Guiné-Bissau, este último com maior número de imigrantes, 1.116.  Ainda segundo a PF, entre 2010 e 2014, 3.721 estudantes africanos foram recepcionados pela imigração cearense.

A Universidade Federal do Ceará informa que, atualmente, a instituição conta com 140 estudantes africanos. A metade deles conta com apoio financeiro do Projeto Milton Santos de Acesso ao Ensino Superior (Promisaes), do Ministério da Educação.

Já a Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira, (Unilab), que tem seu campus na cidade de Redenção,  a 59 quilômetros de Fortaleza, é pioneira no Estado na integração entre os países membros da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), especialmente os africanos. Atualmente, a instituição conta com 550 alunos matriculados, oriundos do continente.

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