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Ah, Linda.. Luislinda Valois. O que te aconteceu? Não é culpa dela. A culpa é do RACISMO psicológico, entendam.

A magnífica preta paulista Luh Souza disseca em  um texto mais magnífico ainda, sobre o insidioso poder do racismo em [email protected] que circulam na hegemonia do poder do mundo da branquitude.

Por Arísia Barros Do Cada Minuto

Bravo, Luh.

Bravo!

Vai lendo…

“Quando me descobri negra, lembro de me apaixonar imediatamente por Luislinda Valois. Sua trajetória de vida, quando decidiu ainda criança ser juíza e colocar seu professor racista na cadeia, me fizeram amá-la intensamente. A primeira juíza negra brasileira e que nem passando em 1º lugar no concurso pode escolher o lugar de atuação, foi enviada para uma cidadezinha do interior, quando podia ir pra qualquer lugar que quisesse. Foi a primeira juíza a proferir uma condenação por racismo. Sua luta para se tornar Desembargadora, cujas palavras jamais esquecerei: “Eu muitas vezes tive condições de chegar lá. Muitos que nasceram e cresceram quando eu já era juíza, estão desembargadores. Eu sou mulher, baiana e negra e as portas do judiciário não são fechadas, são lacradas para quem é negro.” Ela só se tornou Desembargadora de tanto que o Movimento Negro e Negros/as em Movimento gritou junto com/por ela, assim mesmo o fizeram por Decreto, após julgamento. Ou quando defendia os jovens negros da violência policial e dizia “A culpa é sempre do negro”. Ah, Linda.. Luislinda.. O que te aconteceu?

Dos múltiplos racismos que sofreu nesse caminho, mesmo depois de toda a sua história, de ser nacional e internacionalmente conhecida, com livros publicados, foi impedida de entrar em uma cerimônia em sua própria homenagem onde esperavam uma loira com fenótipo francês e não uma negrona de tranças. Foi confundida com camareira da Globo, que cuidava da atriz Natália do Vale e José Mayer. São muitas histórias para contar e eu a tinha como uma das referências, tencionava ser como ela um dia.

Embora ainda penso que não se enterra o passado de alguém por conta de um mal passo, já foram dois muito errados. Me decepcionei quando ela se filiou e saiu candidata pelo PSDB. Agora, ela conclama nosso diabo machista branco como padrinho das mulheres negras. O que eu retiro dessa lição? Ela é referência ainda. Referência de luta e agora referência de como devemos nos cuidar, nos curar da doença psicológica do racismo e entender que essa doença pode nos acompanhar por toda a vida. Vejam, ela ascendeu SOZINHA, escreveu suas páginas da vida desde os 7 anos e percorreu o caminho perseguindo seus sonhos … Ah, Linda.. Querida, Luislinda…

Chegou lá, sozinha, sem ajuda desses que agora se aproximam dela. Algo não ficou definido na maturidade das relações Racismo x Mérito para ela durante essa jornada. Precisa devolver a ‘benfeitoria’ que lhe fizeram convidando-a para participar de um partido majoritariamente branco, racista e elitista. Precisava devolver a gratidão por chegar ao Ministério e ai onde precisa abaixar a cabeça pra acenar agradecimento se esquecendo que lá era mesmo o lugar dela, sempre foi. Batalhou sozinha pra entrar em todos os espaços, e perdeu a mão, esqueceu de onde veio, esqueceu quem ela era e tinha de demonstrar ‘Amar seu Senhor porque passou a viver na clave ou no sótão’, como bem diria Malcolm X.

Sinto tanto, envergonhada por ela, por mim, por todas as mulheres e filhos de mulheres negras, que ela tenha tomado todos os medicamentos ao longo da vida e não se curou do racismo psicológico que nos injetam nas veias, nos olhos, pela pele e no cérebro desde que nascemos. O legado anterior dela não pode ser questionado. É uma trajetória linda, poderosa e vai ser sempre, mas da doença do racismo psicológico da reverência, agradecimento e servidão aos seus senhores da qual ela não se curou, sim! Não é culpa dela. A culpa é do RACISMO, entendam. Sabemos que essa doença existe, temos Celso Pitta , Holiday e ela para provar.

Meu coração não permite espezinhá-la. Não, não.. Ela é minha mãe negra de longe, sabe? Eu a tinha adotado há anos! Mulher, negra, pobre, nordestina, idosa.. Não posso matá-la em mim, não posso. Eu sinto tanta dor, porque não a queria pregada numa estaca sendo apedrejada nessas alturas da vida. O Racimachismo é o culpado (palavra que inventei na junção do Racismo + Machismo). Se ela fosse minha mãe realmente? Ela é como se fosse. Ela é. A culpa não é dela. Não é.

Vamos nos medicar em doses mais altas daqui pra frente.”

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