‘Ah, se não Fosse o Ilê Aiyê’: bloco afro mais antigo do país celebra 50 anos de resistência e pioneirismo

Conheça a história do ‘Mais Belo do Belos’, suas inspirações, objetivos, desafios e trajetória ao longo das décadas

Se o bloco afro mais antigo do país enfrentou resistência ao desfilar pelo circuito de Carnaval de Salvador (BA) pela primeira vez, em 1975, seus 50 anos têm sido celebrados vivamente na maior festa de rua do Brasil, em 2024.

Nascido em novembro de 1974 e composto por ritmistas, cantores e dançarinos negros, o Ilê Aiyê completa 50 anos esse ano, e o primeiro dia de folia na capital baiana, na última quinta-feira (8), foi marcado por homenagens.

O Carnaval de Salvador foi aberto pelo encontro dos trios de Ivete Sangalo, Carlinhos Brown, BaianaSystem e Ilê Aiyê. Momento que emocionou foliões na Praça Castro Alves, e que vai se somar a uma gama de memórias de quem faz o bloco acontecer.

Para Antônio Carlos dos Santos, de 72 anos, o Vovô do Ilê, a lembrança mais marcante da história do bloco afro, ainda é a primeira vez que ele foi posto à desfilar na rua. “Foi muito forte, muito emocionante. Conseguimos colocar 100 pessoas na rua, com toda a dificuldade, toda a repressão, mas foi realmente muito marcante esse momento.”, recorda.

O Ilê foi criado por Vovô do Ilê, e por Apolônio Souza Filho, o Popó, dentro do terreiro Ilê Axé Jitolu, liderado por Mãe Hilda Jitolu, no Curuzu, bairro com maior percentual de população negra no país, de acordo com o IBGE. A iniciativa se propôs a ser o primeiro bloco afro do Brasil, um bloco formado exclusivamente por negros e para negros, que se tornou uma referência na luta contra o racismo ao enaltecer as raízes africanas na cultura nacional.

Inspiração no movimento negro norte-americano

Naquele período, década de 1970, a juventude fundadora do Ilê se via inspirada no movimento de Black Music e na “onda soul” que vinha se estabelecendo nos Estados Unidos. Nomes como James Brown, Marvin Gaye, Diana Ross e Isaac Hayes se destacavam. A época era marcada também pela luta por justiça racial e direitos civis entre a população afro-americana, tendo entre suas principais organizações o movimento dos Panteras Negras, criado em 1966.

Toda essa efervescência contribuiu para influenciar a identidade do primeiro bloco afro do Brasil, que quase se chamou “Poder Negro”, em homenagem ao movimento norte-americano “Black Power”.

Assim, o primeiro desfile chocou ao levantar questões da pauta racial em meio à disseminação do mito da democracia racial e em pleno regime da ditadura militar. Na ocasião, o Ilê apresentou a música “Que Bloco é Esse”, de Paulinho Camafeu.

“Somos crioulo doido, somos bem legal
Temos cabelo duro, somos black power […]
Que bloco é esse? Eu quero saber
É o mundo negro que viemos mostrar pra você”


Em entrevista à Folha de S. Paulo, a ex-diretora do Ilê Aiyê, Arany Santana, conta que o bloco invadiu “o circuito do carnaval branco na cidade de Salvador. Nós sempre brincamos carnaval. Mas nos nossos bairros, na periferia. Em 1974, o Ilê Aiyê surge e ousa atravessar o circuito do carnaval dos privilegiados. Fomos escoltados pela polícia, tivemos tímidos aplausos e muitas vaias. Fomos considerados negros rebeldes, que estavam espalhando o racismo em Salvador, considerando que vivíamos em plena democracia racial, e não era nada disso”.

“Nossa Casa”

A resistência e pioneirismo que atravessa décadas, é algo que o Vovô do Ilê considera muito forte. Nos anos seguintes, o bloco passou a contar com apoio de nomes como Gilberto Gil e Caetano Veloso.

“Nós começamos a ter aliados. A partir do segundo ano do Ilê, já começaram a surgir outros blocos afros, como o Melô do Banzo, na Federação. A partir daí, essa ideia foi se disseminando Brasil afora. Hoje tem muitos blocos pelo Brasil. Isso tem ajudado a nossa luta inicial, que foi de combater o racismo no Carnaval”, conta.

Considerado patrimônio cultural da Bahia, o nome do bloco tem origem iorubá: Ilê significa casa, e Aiyê, significa terra. O nome pode ser traduzido como “Nossa Casa” ou “Nossa Terra”. Para Arany Santana, o vínculo com o candomblé é fundamental na história do bloco afro. “Pra você ver a importância que tem os terreiros de candomblé, as matriarcas dos terreiros, com esse desenvolvimento cultural na cidade de Salvador”, declarou à Folha de S. Paulo.

Beleza Negra

A preocupação com a valorização da autoestima da população negra sempre esteve expressa no Ilê Aiyê. Uma das suas manifestações foi a criação da Noite da Beleza Negra, evento considerado uma política de afirmação voltada para a valorização da beleza, identidade, conhecimento e história das mulheres negras.

A tradicional festa realizou esse ano sua 43ª edição, e é responsável por eleger a Deusa do Ébano do bloco. Além disso, é considerada bem cultural imaterial do estado da Bahia, com tombamento do Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural da Bahia (Ipac).

O Ilê Aiyê nasceu sob o lema “o mais belo dos belos”, e todo ano elege um tema para seu desfile. Alguns desses, fizeram referência à história do continente africano. Em 1976, o bloco contou a história de Watusi; em 1981, Zimbábue; em 1984, Angola; e em 1988, Senegal.

“Ah, se não Fosse o Ilê Aiyê”

Em 2024, em comemoração ao meio século que se completa, o tema escolhido foi: “Vovô e Popó, com o Axé de Mãe Hilda Jitolu, a Invenção do Bloco Afro – Ah, se não Fosse o Ilê Aiyê”.

Olhando para trás, Vovô do Ilê acredita que a principal mudança que é capaz de observar nesses 50 anos de celebração da cultura afro-brasileira no Carnaval da cidade mais negra fora de África, é o aumento da conscientização do povo negro sobre o racismo. “O resgate, o orgulho de ser negro. Hoje você vê as crianças muito mais empoderadas, é o resultado disso”, avalia.

Apesar dos avanços, ainda há muito o que se conquistar. Em entrevista à Folha, Arany não deixa de ressaltar que a expectativa para esses 50 anos, era de que o quadro da desigualdade e do racismo no país fosse outro. “Mesmo o Ilê Aiyê com 50 anos, com esse reconhecimento em Salvador e no Brasil, é um bloco que ainda tem muita dificuldade para sobreviver, para acessar os recursos, para sobreviver mesmo como instituição que contribui muito com o progresso do estado da Bahia”.

Argumento que nos lembra da luta social travada pelo Ilê para além dos dias de folia em fevereiro. Em 1995, o bloco afro criou o Projeto de Extensão Pedagógica do Ilê Aiyê, voltado para a educação da cultura negra. Através do projeto, foi inaugurada a série Caderno de Educação, cujas publicações se desdobram a respeito de informações sobre a cultura negra. O projeto também foi responsável pela Band’Erê, iniciativa criada em 1992 para promover ações extracurriculares para jovens e crianças, que recebem aulas de percussão, literatura, dança, canto, coral, entre outras atividades.

Neste sábado (10), os seguidores do ‘Mais Belo dos Belos’ vão se concentrar a partir das 20h e fazer a tão aguardada e tradicional saída da Senzala do Barro Preto, no Curuzu, bairro da Liberdade. O percurso segue até o Plano Inclinado da Liberdade. O primeiro desfile em circuito oficial, o Osmar, pode ser acompanhado pelos foliões às 2h do domingo (11). Na segunda (12), o desfile pelo circuito no Campo Grande está marcado para começar às 18h, e na terça (13), às 19h.

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