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“Amor e Sexo”: morri e fui pro inferno

Recebemos inúmeros tweets e emails a respeito do programa “Amor e Sexo” de ontem.

Achei que era o caso de ver, pois me contaram barbaridades. Só digo que a minha sensação, após ver metade do programa, foi: Morri e fui pro inferno.

por Clara

Não sei nem por onde começar a gongar, mas posso garantir que ninguém precisa passar por aquilo, então nem vejam. Eu achei que fosse ter um treco. Foi tanta, mas tanta coisa errada que não cabe tudo num post, então vou ficar em apenas um dos inúmeros equívocos daquele programa.

Poucas vezes me constrangi tanto quanto ao ver esta buceta falando ao telefone com a “siririca” ao seu lado. Globo, vocês estão precisando de roteiristas? Me add
Poucas vezes me constrangi tanto quanto ao ver esta buceta falando ao telefone com a “siririca” ao seu lado. Globo, vocês estão precisando de roteiristas? Me add

A gente bate, bate, bate e bate na tecla de que o que acontece na rua não é “cantada”, não é legal e às vezes até tememos por nossa integridade física, o debate evolui, alguns homens começam a entender e aí fazem o que? Selecionam pedreiros gatinhos no Rio de Janeiro pra contar na televisão o tipo de cantada que eles passam nas mulheres. Como se o cara ser bonito anulasse o desconforto e liberasse tudo. Como se só pedreiros fizessem isso. Como se esse circo fizesse algum sentido.

amor e sexo

A única pessoa que fazia sentido lá era Regina Navarro Lins, coitada, que deveria estar ganhando adicional por insalubridade.

Que tipo de plateia GARGALHA quando uma mulher (no caso, a Letícia Spiller) conta que quando estava grávida de 5 meses e a barriga não aparecia direito um cara enfiou a mão debaixo da saia dela (“lá”, segundo ela) e apertou? Gargalharam, gente. Não vou nem entrar na questão da barriga aparecer ou não, dela estar grávida ou não, as pessoas riram de uma mulher sendo assediada desse jeito. É engraçado? Onde que isso é engraçado?

Tinha lá também uma delegada sem noção que relativizou assédio, disse que “não tem problema chamar de linda, mas tem que ter limite”. Quem a doutora pensa é que pra dizer qual é o limite de cada mulher?

Vou deixar aqui umas palavras da Juliana de Faria, criadora da campanha Chega de Fiu Fiu:

Assédio é VIOLÊNCIA. É uma abordagem, muitas vezes grosseira e ofensiva, feita alheia à vontade da mulher. E como não tem consentimento, muitas vezes ela amedronta, humilha e até traumatiza. Segundo a ONU, UMA em cada 5 mulheres no mundo já sofreu uma violência sexual. É claro que muitas de nós teremos um gatilho mais sensível a esse comportamento, às tais ~cantadas~. Então por isso quem tem que ter a palavra final sobre se foi ou não ofensivo, se foi ou não humilhante, se é ou não chato ter um cara dizendo pra você sorrir, “querida” somos nós, mulheres.

Chega de fiu fiu é chega de fiu fiu, chega de assédio, chega de linda, de gostosa, chega de falar com desconhecidas na rua, chega, chega. Pelo menos no caso da Letícia a delegada admitiu que era assédio. Mas pra ela, pelo jeito, assédio só existe quando metem a mão.

“Mas tem mulher que gosta”, é o argumento preferido de uns e outros aí. Deixo com vocês a reflexão que a quadrinista Gabriela Masson, a Lovelove6, que é a criadora da maravilhosa Garota Siririca e pretende fazer alguns quadrinhos a respeito desse tema em breve:

O assédio na rua é tão naturalizado que muitas mulheres acreditam que a presença do assédio é a confirmação de que são “normais”, “aceitáveis” e desejáveis. Quando a mulher não é mais assediada na rua, mesmo tendo consciência política a respeito do que o assédio significa, pode rolar mesmo um sentimento de “ausência”, um estranhamento “será que tô feia, qual será o problema”, mas isso rola por essa introjeção da naturalidade do assédio. Especialmente porque nós crescemos sendo assediadas, desde o momento em que chega a puberdade.
Quando os assédios, pra mim, finalmente cessaram 99%, eu me deparei com esse conflito de me sentir mais segura mas ao mesmo tempo “menos desejada”. Eu tive que refletir bastante sobre esses sentimentos estranhos pra ficar de boa comigo mesma e conseguir realmente aproveitar a liberdade de andar na rua sem sofrer assédios.

E isso acontece porque somos criadas pra buscar aprovação masculina, que é outra tecla que nossos lindos dedinhos já estão cansados de bater. Eu, particularmente, já respondia assédio de rua quando nem eram direcionados a mim, quando era criança e falavam com a minha mãe. Ficava furiosa, xingava, externava um ódio que eu ainda nem sabia racionalizar porque sentia naquelas situações todas a imensa falta de respeito que era falarem com a minha mãe daquele jeito.

Outra que adoram falar é: “Mas não pode mais flertar? As feministas querem acabar com o romance!”

Olha, colega, se botar a cabeça pra fora do carro e gritar gostosa pra uma mulher que você nunca viu na vida é romance, tem alguma coisa muito errada nos seus conceitos. Os homens que assediam mulheres na rua não têm nenhum interesse nelas. Eles não querem sentar e ouvir sobre a vida delas, não querem chamar para uns bons drink, não querem nada. Não há um interesse real; há apenas uma relação de poder em que eles fazem isso porque podem, porque foram ensinados que “mulher gosta”, porque há a percepção de que as mulheres que estão na rua são corpos disponíveis.

E é evidente que se um cara chegar pra você com real interesse é outra história, né?

“Mas mulher também faz!”

Pode ser que algumas façam. Pode ser que o cara se sinta constrangido, sem jeito, mas dificilmente vai se sentir acuado ou temer por sua integridade física. Isso eu já expliquei pra Anitta aqui.

Quer dizer, a gente passa anos falando que a maioria esmagadora das mulheres não quer saber de ninguém chamando nem de linda, nem de gostosa e nem de nada na rua e fazem o quê? Um circo num programa da maior emissora de televisão do país relativizando assédio e tirando uma com uma questão séria dessas. Isso tem nome: desserviço. Valeu, galera!

É de cair o cu da bunda.

E lá vamos nós pro nosso trabalho de Sísifo.

 

 

Fonte: Lugar de Mulher

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