sexta-feira, novembro 26, 2021
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Após sofrer tentativa de apagamento, intelectual americano Du Bois, do século XIX, tem obra relançada como clássico da sociologia e da literatura antirracista

Com uma nova edição brasileira, livro ‘As almas do povo negro’, de 1903, antecipa discussões sobre racismo estrutural em um século

W.E.B. Du Bois, que viveu entre 1868 e 1963, foi um homem de inúmeros predicados: sociólogo, escritor, editor, historiador, intelectual e ativista. Com passagem pela Universidade de Berlim e por Harvard, onde foi o primeiro afro-americano a se formar doutor, Du Bois se tornou professor de História, Economia e Sociologia, na Universidade de Atlanta, além de ter sido um dos membros-fundadores da NAACP (National Association for the Advancement of Colored People).

Ao longo dos anos, Du Bois publicou inúmeras obras combatendo o que lhe parecia ser o principal mal de sua época: o racismo estrutural, um ácido corrosivo do experimento democrático norte-americano. Suas críticas eram dirigidas às leis segregacionistas da Jim Crow, a ação imperial dos EUA no plano externo e aos linchamentos no plano doméstico, tão corriqueiros naquele período.

Acaba de ser lançada aqui no Brasil, em caprichada edição da Editora Veneta, As almas do povo negro — obra originalmente publicada em 1903 nos EUA. Nessa edição brasileira, a tradução é de Alexandre Boide e as notas de rodapé, todas com grande precisão histórica, de Rogério de Campos. O prefácio é assinado pelo jurista e filósofo, professor Silvio Almeida.

Desigualdade impede exercício da democracia plena

As almas do povo negro é uma antologia de ensaios sobre raça, mas antes de ser isso, é uma obra de fina interpretação sociológica: atenta sobretudo ao funcionamento das instituições e dos costumes norte-americanos. Du Bois é hábil, por exemplo, em universalizar a questão do negro: ele antecipa toda a discussão sobre não haver democracia plena nos EUA sem que a questão da desigualdade deixada como herança da escravidão fosse trabalhada.

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W.E.B. Du Bois em 1946: intelectual combateu discriminação racial na educação e no emprego, linchamentos, entre outros produtos do racismo (Foto: Coleção Carl Van Vechten da Biblioteca do Congresso dos EUA)

A leitura desta obra, no entanto, é recente no Brasil, e tem relação com o avanço do campo de estudos de relações étnico-raciais, em que o papel dos intelectuais negros nos Estados Unidos tem grande relevância, de acordo com Flávio Thales Ribeiro Francisco, professor do Bacharelado de Relações Internacionais da Universidade Federal do ABC (UFABC). À medida em que as ações afirmativas, como as cotas raciais, estabelecem nas universidades brasileiras uma inteligência negra, surge o interesse pela busca de trajetórias de intelectuais negros que até então não tinham sido reconhecidos pela intelectualidade mais canônica. “A primeira edição em português de As almas do povo negro, de 1999, foi publicada em um período anterior a este processo, em que o interesse em intelectuais afro-americanos estava circunscrito à meia-dúzia de acadêmicos. Em um período curto de tempo, se formou um público leitor interessado nas reflexões intelectuais de negros contemporâneos, mas também em clássicos como a obra de Williams Du Bois”, observa Francisco.

Clássico antirracista: apagamento no meio acadêmico

Tristemente, o pensador passou por uma tentativa de apagamento durante a consolidação da Sociologia norte-americana, como afirma Verônica Toste Daflon, professora adjunta do Departamento de Sociologia e Metodologia em Ciências Sociais da Universidade Federal Fluminense (UFF) e pesquisadora visitante no Instituto de Estudos Avançados de Princeton (IAS). Por conta de disputas de poder dentro da academia da época, era um autor cujo olhar não interessava muito à Sociologia da década de 1950 nos EUA. Hoje percebe-se que é da estatura de qualquer autor canônico e que levanta questões que não estavam presentes até então. A partir dos anos 1960, houve um processo gradual de recuperação de suas contribuições intelectuais para o campo. Isso se explica muito pela presença mais expressiva de estudantes afro-americanos nas universidades. Algo similar está acontecendo por aqui, no Brasil, como consequência das ações afirmativas. “É importante que Du Bois esteja presente no debate público brasileiro, em boa tradução e edição, e que se torne hábito e rotina falar dele nas universidades, e que seja ensinado junto a outros autores clássicos”, afirma Verônica.

Tão atual e urgente quanto o movimento Black Lives Matter

É impressionante como o intelectual nascido no interior do estado de Massachusetts antecipa discussões sobre o racismo estrutural dentro das sociedades em mais de um século. As almas do povo negro torna-se, com o passar do tempo, um livro cada vez mais atual. “Em um momento em que acompanhamos os levantes em torno do caso de George Floyd nos EUA, surgem questões sobre o modo como democracias produzem subcidadanias orientadas por dinâmicas de hierarquização racial”, diz Francisco, ressaltando que essa é uma reflexão já presente na obra de Du Bois. Para o professor da UFABC, o autor explora diferentes dimensões do conflito racial que revelam as barreiras impostas a uma experiência de emancipação negra nos EUA e no Ocidente. “A modernidade na qual estão inseridos os afro-americanos e as demais populações negras é um jogo ambíguo entre racionalidade e violência racial. A promessa de progresso é executada com a marginalização e hierarquização racial”, destaca.

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W.E.B. Du Bois em 1946: intelectual combateu discriminação racial na educação e no emprego, linchamentos, entre outros produtos do racismo (Crédito: Coleção Carl Van Vechten da Biblioteca do Congresso dos EUA)

Para se ter uma ideia do caráter vanguardista dos ensaios, em As almas do povo negro, por exemplo, Du Bois aponta que a expressão states rights (“autonomia local”, em livre tradução) era apenas uma cortina de fumaça a fim de manter em vigor um sistema estruturalmente racista. Nos EUA, sabemos que determinadas expressões como law and order (“lei e ordem”) e states rights foram muitas vezes usadas como eufemismos para mobilizar racistas. E não é nada estranho que, imediatamente, expressões que muitos brasileiros adoram usar venham à mente.

O projeto autoritário de agentes de segurança e da justiça que ingressaram na política partidária popularizou termos como “bandido bom é bandido morto”, “atirar pra matar”, “atirar na cabecinha” e “gente de bem”, que foram concebidas em um imaginário racializado, como aponta Francisco. “Esse tipo de estratégia discursiva, na realidade brasileira, aparece de forma clara quando se trata da aplicação do punitivismo das forças policiais que apresenta um caráter racial. Quando essas figuras acionam esses discursos de maneira codificada, enfatizam quem são os sujeitos humanizados que precisam de proteção do Estado e os sujeitos racializados que devem ser controlados ou eliminados”, explica o professor.

Como se para se tornar uma leitura essencial já não bastassem as discussões urgentes que As almas do povo negro traz, há ainda a qualidade literária do texto. Cada capítulo/ensaio conta com duas epígrafes: um trecho de um poema, escrito por algum poeta europeu, e um fragmento de um spiritual (gênero musical que antecede o blues, com raízes cristãs, criado pelos escravos norte-americanos ainda no século XIX).

Du Bois se comunica com a clareza de um pregador de uma igreja negra: com inflexões estudadas aqui e acolá, e utilizando parábolas e anedotas. Na maior parte do tempo, trabalha com as referências mais populares e de alcance mais abrangente de sua época: a Bíblia, spirituals famosos e algumas peças de William Shakespeare. Por exemplo, no ensaio inicial, “Nossos conflitos espirituais”, mencionando a chegada da liberdade aos negros norte-americanos, ele cita o spiritual “Gritem, ó crianças! / Gritem que livres são! Pois Deus comprou a sua libertação! , e, no mesmo fôlego, falando sobre o espectro da escravidão, cita Macbeth: “Toma qualquer forma que não essa, e meus firmes nervos / Jamais haverão de estremecer! .

A imaginação de Du Bois é literária, sociológica, mas também histórica. Esta nova edição de “As almas do povo negro”, como já deu para perceber, chega ao Brasil em excelente hora.

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