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“Aquilombamento é o que eu busco fazer no audiovisual” conta cineasta Carine Fiúza

Para Carine Fiúza, o audiovisual deve superar as barreiras do racismo para contar as narrativas da negritude

Por Rodolfo Santana, do Brasil de Fato

Cineasta faz parte da Associação dxs Profissionais do Audiovisual Negro (Foto: Rodolfo Santana/ Brasil de Fato)

Segundo estudo publicado pela Agência Nacional do Cinema (Ancine) em 2018, que analisou 142 longas-metragens lançados comercialmente em 2016, foi constatado que 75,4% das produções são dirigidas por homens brancos. Nenhuma produção de 2016 tem direção de mulheres negras. Dentro deste panorama, Carine Fiúza é uma expressão de resistência que foge à regra. Em entrevista para o Brasil de Fato Ceará, a jovem cineasta paraibana fala sobre representatividade no cinema brasileiro, e a importância de profissionais negras e negros realizarem seus trabalhos no audiovisual.

Brasil de Fato: Como foi o início da sua carreira no audiovisual?

Carine Fiúza: Eu gosto de pensar o início na minha carreira pensando na infância. Eu sou da geração do fim dos anos 1980 e é uma geração que foi muito criada pela televisão, e pela condição social era a televisão. Dizem que a televisão é a babá da geração dos anos 1980 e 1990, então eu tenho muito essa referência visual trazida pela televisão e isso influenciou muito a minha formação profissional. Eu comecei estudando Biologia mas depois desisti e fui fazer Comunicação que me interessou bem mais. Dentro da Comunicação, a imagem e o som são meus principais interesses, porque eu vejo várias possibilidades de criação. Todas essas minhas referências da infância me fazem construir a minha profissão no audiovisual, tanto que hoje eu digo com toda convicção que sou cineasta negra paraibana mesmo.

Brasil de Fato: Enquanto cineasta, como você vê o mercado audiovisual no Brasil?

Carine Fiúza: Eu comecei a trabalhar com audiovisual na parte de fotografia e aí depois justamente por não encontrar condições favoráveis de trabalho, por exemplo lá na Paraíba, a gente nunca tinha verba para financiamento dos projetos que a gente queria fazer. Aí eu comecei a trabalhar com produção com o intuito de buscar essas verbas e entender como funcionava o mercado, e é importante ir atrás dessas verbas para que a gente pudesse realizar nossos trabalhos e viver daquilo porque estando fora do eixo sul-sudeste é muito complicado para gente aqui no Nordeste, seja na capital ou no interior produzir.

Brasil de Fato: Quais são as dificuldades de produzir um filme na Paraíba?

Carine Fiúza: As dificuldades são de toda ordem. A verba não chega e a gente por mais que exista na profissão não tem retorno dentro do estado. Geralmente, temos retorno se sair, se for para Rio de Janeiro, São Paulo. Agora está tendo uma movimentação muito grande em Recife e Salvador que o mercado tá fervendo nesse lugares por conta dessa descentralização do audiovisual, mas nem sempre há o interesse da gente sair do nosso lugar, porque eu tenho um apego muito grande com a Paraíba e um apego muito grande também com as coisas que nós podemos construir lá, e aí nunca foi meu interesse sair então eu sempre procurei investir na minha formação audiovisual querendo ficar no estado mas a condição de produção dentro do Estado é complicada, porém muito importante. Então assim, eu não sei se eu consigo falar de um mercado audiovisual pensando no contexto Paraíba e pensando se eu estaria inserida nesse mercado. Eu me vejo muito mais como uma comunicóloga que tá ali tentando uma disputa narrativa dentro do meio audiovisual.

Brasil de Fato: Uma das características do cinema alternativo é a produção de filmes por colaboração, com a formação de coletivos de pessoas que acreditam no projeto e conseguem dispor de um baixo orçamento para a realização de filmes. Enquanto cineasta que está nesse circuito alternativo, como é a sua metodologia de produção?

Carine Fiúza: A gente também produz através de arranjo arranjos criativos eu não sei aqui no Ceará, mas pelo menos na Paraíba a gente tem muitos arranjos criativos. A gente se organiza em coletivos em que um tem a câmera, outro tem o som e a gente se junta e vai produzindo e daqui a pouco a gente tá no aprimoramento técnico, com potencial de competitividade com outros profissionais que estão no eixo mais comercial de produção brasileira tipo no Sudeste, principalmente porque a gente se organiza enquanto coletivo e vai produzido o filme experimentando linguagens, experimentando técnicas. É uma forma de produção colaborativa que faz o nosso cinema existir e resistir.

Brasil de Fato: Trabalhar a representatividade negra no meio audiovisual além de um desafio é uma necessidade. Enquanto cineasta negra, como você procura desenvolver temas relacionados a negritude no seu trabalho?

Carine Fiúza: Para gente existir dentro de um contexto de comunicação e de hegemonia comunicacional a gente precisa estar próxima a quem pensa igual a gente, quem vive uma mesma realidade. Então a proximidade com o cinema negro e com profissionais negros do audiovisual é algo muito forte e muito necessário para produção do que eu quero fazer, Aquilombamento que é um termo que está sendo bastante usado e é exatamente isso que eu busco fazer no audiovisual, principalmente porque dentro deste meio, nós temos que fazer muitas negociações para conseguir ou pelo menos tentar fazer o que a gente quer. Eu estou a muito tempo querendo falar sobre como eu me sinto no mundo como eu vejo o mundo, e eu quero falar, eu tenho a possibilidade de falar. Eu estudei vários anos na universidade para poder conseguir ter uma capacitação técnica e teórica e não poder falar é uma violência extrema para mim. O meu caminho é de traçar momentos e oportunidades de trabalhar com pessoas negras e trabalhar com temática negra também como uma forma de libertação, e esta é uma experiência incrível.

Brasil de Fato: Joel Zito Araújo em um artigo publicado no livro “O Negro na TV Pública” fala sobre a necessidade de se trabalhar com artistas e produções negras na televisão pública do nosso pais. Enquanto produtora, fale um pouco sobre essa necessidade.

Carine Fiúza: Eu faço parte da Associação dxs Profissionais do Audiovisual Negro, que trabalha nessa perspectiva de aquilombamento e de fortalecimento dos profissionais do audiovisual dentro do contexto nacional, para que a gente pense em políticas públicas e para que a gente se conheça enquanto o grupo e enquanto profissionais. Quando tem um profissional negro que é excelente fotografia, um profissional negro que sabe construir um roteiro um profissional negro que gente pode contar com assessoria de imprensa, um técnico negro que a gente está tendo a mesma conversa, o mesmo sentido de pensamento e construção narrativa no audiovisual, isso reflete na produção. Quando a gente supera essas barreiras, principalmente as impostas pelo racismo a gente tem o resultado no produto final.

 

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