Árvores serão amarradas com tecidos em ato contra violência em terreiros

Ação acontece entre a noite de sexta-feira (17) e sábado (18)

Fafá M. Araújo/Divulgação

Do Correio

A partir de 17h desta sexta-feira (17) acontecerá em Salvador, pelo décimo ano consecutivo, uma ação promovida por adeptos dos cultos de matrizes africanas pedindo o fim da intolerância religiosa. A alvorada dos Ojás é uma atividade onde as árvores da cidade são amarradas com tecidos brancos utilizados durante as obrigações do candomblé (os ojás). O objetivo é que no sábado (18) Salvador amanheça coberta de branco, cor de Oxalá.

Os mil metros de ojás utilizados na ação serão pintados pelo artista plástico e diretor do bloco Cortejo Afro, Alberto Pitta. A ação é promovida pelo Coletivo de Entidades Negras (CEN), entidade nacional do movimento negro e terá a sacralização dos tecidos feita no Terreiro Tumba Junsara, uma das casas tradicionais de candomblé no Brasil, tombada como patrimônio histórico do Estado da Bahia.

A atividade também conta com o apoio da Comissão dos Terreiros Tombados, dos terreiros de Lauro de Freitas, de Camaçari e da Secretaria de Promoção da Igualdade Racial do Estado da Bahia (Sepromi).

Exigindo respeito, a atividade este ano terá como tema a campanha “Não toquem em nossos terreiros”, em referência  aos casos de racismo religioso que resultaram até na destruição de templos.

Conforme levantamento do Ministério dos Direitos Humanos, entre janeiro de 2015 e o primeiro semestre deste ano, o Brasil registrou uma denúncia a cada 15 horas. No período, ainda segundo o órgão, o Disque 100, canal que reúne denúncias, recebeu 1.486 relatos de discriminação religiosa, sendo que a maioria das violências atingem as religiões de matrizes africanas.

“Essa é uma ação religiosa mas também uma ação política. Todas as vezes que os povos de terreiros saem às ruas para professar a nossa fé, estamos fazendo a ação politica de existir em uma estrutura social que insiste em nos ser hostil. Ao ocupamos simbolicamente o espaço público resistimos às invisibilidades e preterimentos que cotidianamente nos atinge”, afirma o ogã André Santos, membro da comissão dos Terreiros Tombados e professor-doutor da Ufba.

Em Salvador, a Alvorada dos Ojás acontece a partir das 17h da sexta-feira (17)  com a sacralização dos panos no Terreiro Tumba Junsara, terreiro localizado na Vila Colombina nº 30, Engenho Velho de Brotas. Depois de sacralizados, os ojás serão amarrados em árvores no Dique do Tororó, Campo Grande, Corredor da Vitória e no Pelourinho.

“O ojá é o traje que cobre o ori (a cabeça). Já a árvore é um elemento sagrado da natureza. Sem elas não existiria vida. É sobre a garantia da vida dos fiéis do candomblé que desejamos tratar, é sobre o direito constitucional que as pessoas têm de cultuar a sua religião, a sua fé, ou até, de não possuir religião alguma. Sabemos que o racismo religioso nos atinge porque essas religiões são oriundas da África”, explica o historiador Marcos Rezende, coordenador nacional do CEN, explicando que o objetivo da ação da entidade é alertar a sociedade sobre tais violações.

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