As mães das propagandas de margarina são felizes?

Só há dois requisitos básicos para dominar toda a teoria de prática do desempenho perfeito da maternidade: não ter filhos e se sentir à vontade julgando as mulheres. Nesse mar de incertezas em que vivo por efetivamente cuidar de uma criança, não consigo entender de onde vem o conceito do que é ser mãe, do que é a maternidade.

Texto de Madeleine Lacsko

Mesmo nas publicações destinadas a mulheres que nasceram depois do século XVIII, a figura de mãe é confundida com a figura da governanta. Ser mãe nada mais é que uma governanta com muito amor.

Quase todas as reportagens e artigos que a gente lê falam do “dilema entre a maternidade e a profissão” como se ele realmente existisse. O fato é que, de tanto bater na mesma tecla, se empurra goela abaixo a obrigação de se sentir dessa maneira, como se a única forma de ser mãe fosse desempenhar tarefas domésticas.

Outra expressão que odeio é a tal “mãe em tempo integral”. Para mim, soa meio como “grávida em tempo integral”. Supõe-se que, ao ir trabalhar, a mulher deixa de ser mãe, coisa que jamais acontece com um homem que vai trabalhar. O fato é que nem um nem outro deixam de ser pai ou mãe porque vão trabalhar.

As mães das propagandas de margarina são felizes?

Existe ainda, vivo na nossa sociedade, um outro conceito tão arcaico e tão perverso quanto resumir a maternidade a tarefas domésticas: o de que a criação dos filhos é responsabilidade exclusiva da mãe. Levantamento feito este ano pelo Instituto Data Popular é assustador: 44,8% das mães declaram não ter ajuda de ninguém para criar o próprio filho. Entre as que contam com ajuda, a maioria diz que é da própria mãe, não do pai da criança.

Eu ouvi várias vezes pais dizendo que, por exemplo, iam pegar o próprio filho na escola para “ajudar” a mulher. Como se ele fosse um vizinho, um amigo, um cunhado, tudo menos pai do próprio filho. É, ao mesmo tempo, nessa fuga de responsabilidades e nessa crença de que uma criança não é um ser humano, mas uma tarefa doméstica — e, portanto, feminina — que esvaziamos o conceito de mãe.

Algumas pessoas acreditam que a presença da mãe dentro de casa interfere positivamente no desenvolvimento da criança. Os cientistas não. Uma pesquisa feita pela Academia de Ciências Sociais do Reino Unido mostra que já existiu, na década de 1970, um ligeiro ganho na alfabetização dos filhos de mães que ficam em casa. Hoje, isso não existe mais. Não há qualquer benefício de aprendizado, emoções ou comportamento que venha do simples fato de a mãe ficar em casa.

O que mudou desde lá? O mundo passou a incluir as crianças como uma responsabilidade de toda a sociedade e não como uma tarefa doméstica da própria mãe. Os pais passaram a exercer a paternidade, surgiu a licença-paternidade, aumentou a licença-maternidade, a tecnologia ajudou os trabalhos a serem mais flexíveis, todos passaram a exercer um papel familiar que obriga as empresas a serem mais flexíveis. Ficar em casa por um período ou não é uma escolha individual, íntima, não uma imposição da sociedade.

A maior mudança e a mais difícil de aceitar talvez seja a autonomia da mulher para decidir como lidar com a educação dos filhos pequenos. Ou ela é forçada a ficar em casa ou sai para trabalhar com uma tonelada de culpa e só porque precisa. Não pode escolher trabalhar porque adora, nem pode escolher ficar em casa porque quis fazer essa opção. À mulher não é dado o direito de buscar a felicidade pelos próprios parâmetros, só por aqueles vistos em propagandas de margarina, sabão em pó e desengordurantes.

Talvez, a maior tarefa de uma mãe seja ensinar felicidade. A mãe, biológica ou não, é num primeiro momento a única referência de um ser humano em formação. Rapidamente essa criança vira membro de uma família, hoje organizada das mais diversas maneiras. Mas a mãe ainda fica naquela posição de guia turístico do mundo, apresentando todos os dias as novidades que farão daquele tiquinho de gente uma pessoa completa. Só é completa a pessoa que crê ter o direito de lutar pela própria felicidade e só ensina isso quem pratica.

 

Fonte: Blogueiras Feministas

 

+ sobre o tema

Homens desconhecem Lei Maria da Penha

Enquete realizada com 500 homens na Rodoviária do Plano...

Da dificuldade nasce a força da mulher negra

Em 1989, com 14 anos, entrei no mercado de...

Entenda como a misoginia contra mulheres negras oprime atletas

Naomi Osaka descobriu como é estar no limite das regulamentações...

Com infância marcada pelo racismo baiana é 1ª Miss Black Power no RJ

'Nunca participei de um desfile', diz Maria Priscila dos...

para lembrar

Filhos de Gandhy pedem saída de mulheres do bloco em respeito a tradição

Tradição é tradição e tem que ser respeitada. Os...

‘Creme de virgindade’ gera polêmica na Índia

Uma companhia da Índia lançou o que afirma ser...

Dia de celebrar Sueli Carneiro

Hoje é dia de uma das mais importantes intelectuais...

Homem cria meme gordofóbico com modelo plus size e ela responde lindamente

A internet é um paraíso para as pessoas destilarem...
spot_imgspot_img

Em ano olímpico, Rebeca Andrade ganha homenagem da Barbie e quer inspirar outros sonhos

Rebeca Andrade, 25, possui uma longa lista de conquistas. A ginasta é medalhista olímpica, vencedora de ouro e prata, bicampeã mundial, medalhas nos jogos Pan-Americanos...

O mapa da LGBTfobia em São Paulo

970%: este foi o aumento da violência contra pessoas LGBTQIA+ na cidade de São Paulo entre 2015 e 2023, segundo os registros dos serviços de saúde. Trata-se de...

Grupos LGBT do Peru criticam decreto que classifica transexualidade como doença

A comunidade LGBTQIA+ no Peru criticou um decreto do Ministério da Saúde do país sul-americano que qualifica a transexualidade e outras categorias de identidade de gênero...
-+=