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Avanços e ambiguidades do pós-colonialismo no limiar do século 21

O estatuto dos Estudos Pós-coloniais

Por Thomas Bonnici, do UEFS

O campo de Estudos pós-coloniais ganhou proeminencia desde os anos 1970. Embora The Palm-Wine Drinkard, do nigeriano Amos Tutuola, publicado em 1952, seja considerado o primeiro romance pós-colonial, poderia datar a introdução dos Estudos Pós-coloniais na academia ocidental a partir do Orientalismo (1978), de Edward Said (1935-2003), que analisou a fabricação e a construção ocidental do Oriente. Essa corrente cresceu dentro da academia e o termo pós-colonial foi consolidado pela publicação em 1989 de The Empire Writes Back: Theory and Practice in Post-Colonial Literatures, dos australianos Bill Ashcroft, Gareth Griffiths e Helen Tiffin. Desde entao, a terminologia Commonwealth Literatures e Third World Literatures, usada para descrever a literatura das ex-colônias européias, praticamente caiu em desuso. Embora haja muito debate sobre os parâmetros precisos do campo do pós-colonialismo, o termo Estudos pós-coloniais, geralmente aceito, é o estudo das interaçoes entre as naçoes européias e as sociedades que elas colonizaram no período moderno. De fato, a Europa mantinha mais de 85 da terra sob seu controle até a Primeira Guerra Mundial, tendo consolidado seu controle durante vários séculos. A grande extensao e a duração do império europeu e sua desintegração depois da Segunda Guerra Mundial levaram ao grande interesse atual pela literatura e crítica pós-colonial. Nessa pesquisa refletiremos sobre alguns conceitos básicos do pós-colonialismo e depois discutir as ambivalencias, ambigüidades e problemas inerentes ao conceito.

O colonialismo

O colonialismo consiste na opressão militar, econômica e cultural de um país sobre um outro, qual a invasao européia da África, Ásia e América a partir do século 16. Evidentemente, a idéia de império e colônias nao é algo novo na história humana. nao apenas houve a colonização pré-capitalista na antiguidade engendrada pelos fenícios, gregos, persas e romanos, mas também na Idade Média os árabes colonizaram o norte da África e a península ibérica, as potencias européias invadiram o Oriente Médio sob a forma de Cruzadas e o mongol Genghis Khan dominou a China. A diferença entre a colonização antiga e a capitalista na Modernidade consiste no fato que essa nao exigia apenas tributos, bens e riquezas dos países conquistados, mas reestruturava as economias dos países colonizados de tal modo que o relacionamento entre o colonizador e o colonizado interferiu no intercâmbio de recursos materiais e humanos trocados entre ambos. Conseqüentemente essa colonização devastou a cultura, as vezes milenar, de muitos povos, a qual foi substituída por uma cultura eurocentrica e crista. O estudo da literatura em língua inglesa na África e na Índia e a forte americanização da cultura chinesa e japonesa sao exemplos da ruptura provocada pela colonização moderna.

O pós-colonialismo

Muitos críticos consideram o termo pós-colonialismo inadequado (1) por misturar o arquivo temporal com o arquivo ideológico; (2) pela “impossibilidade” da descolonização; (3) por denominar tantas áreas e tantos conceitos diferentes que o termo, caracterizando-se pela univocidade e pelo essencialismo, tornou-se inútil.

O pós-colonialismo é uma práxis social, política, econômica e cultural objetivando a resposta e a resistencia ao colonialismo, tomado no sentido mais abrangente possível. Em geral, o pós-colonialismo envolve:

(1) o debate sobre as ex-colônias e sua denominação versa sobre o arquivo temporal, ou seja, o tempo entre a independencia do país e a atualidade, e sobre o arquivo ideológico, ou seja, a influencia exercida por uma potencia européia desde o momento da invasao até a atualidade.

(2) um novo modo de viver, típico da nossa época, chamado “dwelling-in-travel”. Bhabha (1992) alerta sobre “os estranhos efeitos literários e sociais da acomodação social forçada” [“the uncanny literary and social effects of enforced social accomodation”]
e “a angústia do deslocamento cultural e movimentação diaspórica” [“the anguish of cultural displacement and diasporic movement”], o qual contemporaneamente se tornou um “lugar pós-colonial”. Apresentando o lar, o romance retrata também a experiencia transnacional ou pós-colonial dos “sem-lar” [“unhomely”] ou das pessoas diaspóricas. A literatura pós-colonial, como a de Morrison, Naipaul, Phillips e Gordimer, portanto, seria “o estudo da maneira pela qual as culturas se reconhecem através de sua projeção da alteridade”.

(3) a preocupação em caracterizar as diferentes experiencias de diáspora (“mobile abiding”) de diferentes comunidades, como a caribenha e africana.

(4) o ceticismo referente a demandas locais ou particulares (Robbins, 1999).

(5) um modo de pensar que focaliza o desenraizamento como uma posição de capacitação política e epistemológica (Brennan, 1989).

As ex-colônias européias podem ser divididas em colônias de povoadores (Austrália, Brasil, Canadá) e colônias de invasores (Índia, Nigéria, Senegal, Sri Lanka). As ilhas do Caribe integram essa última terminologia mas, devido a certas especificidades, sua colonização as caracteriza como colônias duplamente colonizadas. A África do Sul e o Zimbábue que foram colonizados por populaçoes coloniais (ingleses, holandeses) complicam esta simples divisao entre o nativo e o colono europeu e seus descendentes. Portanto, as experiencias divergentes destes países sugerem que o termo pós-colonial seja um termo muito abrangente. A rigor, os Estados Unidos poderiam ser descritos também como um país pós-colonial. Todavia, nao é considerado como tal devido a sua posição de poder na política internacional, a deslocamento de populaçoes americanas nativas e a anexação de outras partes do mundo, configurando uma forma de colonização. Ademais, as vezes sao omitidas também outras ex-colônias de povoadores, como o Canadá e a Austrália, da categoria pós-colonial por causa da relativa ausencia de luta pela independencia e dos liames existentes com a metrópole. Todavia, como a relação destes países e a metrópole é, freqüentemente e apesar de tudo, uma de margem para centro, a sua experiencia faz com que o colonialismo e suas estratégias de poder sejam mais bem entendidos.

A formação da colônia por vários mecanismos de controle e as várias fases no desenvolvimento do nacionalismo anticolonial interessam os estudiosos do pós-colonialismo. Freqüentemente consideraçoes temporais dao lugar a consideraçoes espaciais (um interesse no país pós-independencia como espaço geográfico que tem uma história anterior ou até mesmo uma história paralela a experiencia de colonização) em que as produçoes culturais e formaçoes sociais da colônia anterior a colonização sao usadas para entender melhor a experiencia de colonização. Além disso, o termo as vezes inclui países que ainda tem que alcançar independencia (a Guiana francesa), ou envolve minorias (negros, Curdos) em países de Primeiro Mundo, ou até mesmo, países independentes que lutam contra o neocolonialismo como forma de subjugação engendrada pelo capitalismo e pela globalização. Em todos estes sentidos, em lugar de o pós-colonialismo indicar só um evento especificamente histórico, parece descrever a segunda metade do século 20 como um período após o auge do colonialismo. O pós-colonialismo pode significar uma posição contra o imperialismo e o eurocentrismo. O termo, entao, abrange uma gama de experiencias, culturas e problemas.

Essa abrangencia do pós-colonialismo deu origem a vários debates. Muitos discutem que a maioria das ex-colônias nao está livre da influencia ou dominação colonial e assim nao pode ser genuinamente pós-colonial. Em outras palavras, a celebração triunfante de independencia disfarça o atual neocolonialismo sob o pretexto de modernização e desenvolvimento numa era de globalização crescente e de transnacionalismo. Há ainda países que ainda estao sob dominância estrangeira. Além disso, a enfase sobre o colonizador / colonizado obscurece a operação de opressao interna dentro das colônias. Ainda outros repreendem a tendencia de a academia ocidental ser mais receptiva a literatura e a teoria pós-coloniais que sejam compatíveis com formulaçoes pós-modernas de hibridismo, sincretismo e pastiche, enquanto ignoram o realismo crítico de escritores mais interessados nos detalhes da opressao social e racial. A apropriação de certos escritores da diáspora, como Salman Rushdie, poderia ser vista como privilegiar o transnacional e a sensibilidade migratória as custas de lutas mais locais na ex-colônia. Além disso, o desenvolvimento dos Estudos Pós-coloniais concomitantemente a crescentes movimentos de capitais, trabalho e cultura transnacional é visto por alguns com suspeita já que pode desviar a atenção das realidades materiais de exploração no Primeiro e no Terceiro Mundo.

Assuntos principais

Apesar das reservas e dos debates, as pesquisas em Estudos Pós-coloniais estao crescendo continuamente porque a crítica pós-colonial permite uma investigação abrangente nas relaçoes de poder em múltiplos contextos. A formação de império, o impacto da colonização na história da ex-colônia, a economia, a ciencia, a cultura, as produçoes culturais de sociedades colonizadas, o feminismo, a autonomia para pessoas marginalizadas, e o estado pós-colonial nos contextos econômicos e culturais contemporâneos sao alguns tópicos nesse campo.

As perguntas seguintes pretendem atingir os assuntos principais nesse campo:
Como a experiencia de colonização afetou nao apenas os povos colonizados mas também os colonizadores?
Como as metrópoles puderam controlar territórios tao vastos do mundo nao ocidental?
Que rastros da educação, ciencia e tecnologia colonial ainda existem em sociedades pós-coloniais?
Como estes rastros afetam decisoes sobre o desenvolvimento e a modernização nas sociedades pós-coloniais?
Quais foram as estratégias de resistencia contra o controle colonial?
Como a educação colonial influenciou o idioma, a cultura e a identidade dos colonizados?
Que estratégias a ciencia, a tecnologia e a medicina usaram para mudar os sistemas de conhecimento existentes?
Que formas emergentes de identidade pós-colonial foram adotadas após a partida dos colonizadores?
Até que ponto a descolonização foi e é possível?
As fórmulas ocidentais de pós-colonialismo estao dando muita enfase ao hibridismo as custas de realidades materiais?
A descolonização deveria incluir um retorno radical ao passado pré-colonial?
Como o genero, a raça e a classe social funcionam no discurso colonial e pós-colonial?
Há formas novas de imperialismo que estao substituindo a antiga colonização?
O escritor pós-colonial deveria usar o idioma do colonizador para ter uma maior audiencia ou voltar a um idioma nativo mais pertinente para grupos pós-coloniais?
Quais escritores deveriam ser incluídos no “cânon” pós-colonial?
Como os textos pós-coloniais poderao enriquecer nossa compreensao de assuntos pós-coloniais?
Será que a preponderância do romance pós-colonial fez com que negligenciamos outros generos literários?
A literatura pós-colonial

A literatura pós-colonial deve ser analisada no contexto da cultura vivida na regiao afetada pela colonização européia, já que ela é um dos componentes integrais dessa mesma cultura. Embora a literatura pós-colonial possa se limitar a cultura nacional exclusivamente após a independencia política, a aceitação mais comum é mais abrangente. O pós-colonialismo compreende toda a cultura influenciada pelo processo imperial desde o início da colonização até a contemporaneidade. Independente de suas características especificamente regionais, a literatura pós-colonial é o resultado da experiencia de colonização baseada na tensao com o poder colonizador (Ashcroft et al., 1989).

Em primeiro lugar, o papel do idioma europeu imposto e amplamente usado deve ser analisado. No sistema educacional imperial o controle da língua preconizou a versao standard da língua metropolitana, marginalizando as outras “variantes” e caracterizando-as como impuras (o ingles falado na Índia, em Taiwan, na África, no Caribe; o ingles pidgin). “Pode-se dizer que o estudo da lingual inglesa e a formação e a consolidação do império britânico procederam do mesmo e único ambiente ideológico e que o desenvolvimento de um está intrinsecamente ligado ao desenvolvimento do outro, em nível de mera utilidade (como propaganda) e em nível do subconsciente, onde se pode levar a naturalização de valores construídos (a civilização, a humanidade, etc.), os quais estabelecem as noçoes de ‘selvageria’, ‘nativo’ e ‘primitivo’ como um fator antitético e o objeto de um zelo reformador” (Ashcroft et al., 1989: 3).

Em segundo lugar, deve-se problematizar a literatura, especialmente a literatura inglesa, durante a fase colonial. Em primeiro lugar, a literatura inglesa foi utilizada para formar uma ideologia da superioridade do europeu (Próspero, em A tempestade), da submissao congenita do nativo (Caliba, em A tempestade), da inutilidade de rebeliao e subversao contra o colonizador (em Macbeth), da repressao a qualquer transgressao (em Medida por medida), da formação do cânone literário (imposição do cânone ingles em detrimento de qualquer literatura local). Em segundo lugar, a literatura inglesa polarizou qualquer literatura escrita por nativos, colocando esta num estatuto inferior, denominando-a “periférica”, “marginal” e “nao-canônica”, e incorporando-a na Commonwealth Literature. Terceiro, algumas obras escritas por autores nativos foram incorporadas a literatura britânica porque eram tao imbuídas pela ideologia da metrópole que praticamente negavam a sua origem. Usando a terminologia de Said (1983), caracteriza-se esse fato por um procedimento de afiliação consciente sob a máscara de filiação, ou seja, “uma mímica do centro [imperial] oriundo do desejo nao apenas de ser aceito mas também de ser adotado e absorvido” (Ashcroft et al., 1989: 4). Finalmente, os textos criados pela literatura da metrópole e aquela produzida por nativos educados na metrópole tinham tanta autoridade que fabricaram nao apenas o conhecimento mas também a própria realidade que tentavam descrever (Said, 1990).

Os protótipos do discurso pós-colonial na Literatura sao A tempestade (1611), de Shakespeare, Robinson Crusoé (1719), de Daniel Defoe e O coração das trevas (1902), de Joseph Conrad. Acrescentam-se a isso pinturas, caricaturas, propaganda e fotografias que mostram a inferioridade do nativo, a alteridade da mulher nao-européia e a dependencia metonímica vis-a-vis a metrópole. Isso consolidou os conceitos da complexidade de inferioridade e do sujeito rompido (“split subject”), conseqüencia da “morte” da cultura original local (Fanon, 1967).

Como foi dito antes e seguindo o modo da colonização, pode-se dizer que há dois grandes vertentes de literatura pós-colonial: a literatura de colônias de povoadores / colonos; e as literaturas da colônia invadida e das colônias duplamente invadidas.

(1) A literatura de colônias de povoadores: é a literatura de missionários, governadores, administradores, mulheres de administradores ou gerentes de alta patente no império, soldados, secretários. As línguas nativas foram praticamente ignoradas e a língua do colonizador imposta (portugues no Brasil; espanhol no resto da América do Sul, ingles na Austrália e na Nova Zelândia). Consiste essa literatura numa literatura de viagens e de etnografia, escrita conforme parâmetros lingüísticos da metrópole e imbuída de conteúdo que enaltece eventos e feitos dos colonizadores. A escrita de William Bradford, John Winthrop, Roger Williams, Edward Taylor e Cotton Mather nos Estados Unidos, de Pero Vaz de Caminha, Jean de Léry, Pero de Magalhaes Gândavo, André Thevet e Hans Staden sobre o Brasil, e de Alvar Nunes Cabeza de Vaca sobre a América hispânica é típica desta vertente. Outrossim, poderia ser também uma literatura ficcional, em prosa ou verso, como o foi de José de Anchieta e de Anne Bradstreet ou Mary Rowlandson respectivamente no Brasil e nos Estados Unidos. Após o primeiro século de colonização e povoamento, esta literatura escrita pelos colonizadores deu lugar a uma literatura laudatória escrita por nativos educados pela metrópole e, portanto, ainda ligada as formas e ao conteúdo metropolitanos. José de Santa Rita Durao e Basílio da Gama sao um exemplo típico dessa fase. A literatura pós-independencia política constitui uma terceira fase e admite uma gradação que vai de um certo saudosismo colonial a uma ruptura completa com a literatura eurocentrica. Diferenciam-se, porém, duas modalidades: a literatura das ex-colônias britânicas que ainda mantem fortes laços com a Inglaterra (Austrália, Nova Zelândia, Canadá) e a literatura das ex-colônias que se distanciaram razoavelmente da metrópole-mae para se tornarem culturalmente independentes (Brasil e América hispânica). Enquanto a literatura dos países da primeira modalidade é concomitantemente derivativa e inculturada nos problemas contemporâneos, raramente inovadora na língua, com forte afinidade em conteúdo, a literatura dos países da segunda modalidade é, até certo ponto, mais autônoma, auto-suficiente e inovadora em sua forma e conteúdo. Basta contrastar os australianos Patrick White e David Malouf e os brasileiros Joao Guimaraes Rosa e Dalton Trevisan para perceber a distância e a aproximação da literatura metropolitana de duas comunidades pós-coloniais.

(2) A literatura das colônias invadidas e duplamente invadidas: é a literatura oriunda de ex-colônias com uma cultura centenária (as vezes milenar) como o foram a Índia e a África, ou onde a cultura original foi totalmente destruída, como no caso do Caribe, e uma outra, totalmente alheia, implantada através da imigração de europeus, importação de africanos (escravo) e de empregados contratados (indentured laborers do sudoeste asiático e da Índia). Nas colônias invadidas, as línguas nativas continuaram sendo usadas pelos nativos e a língua inglesa (ou outra) começou a ser internamente uma espécie de língua franca e externamente um elo com o centro europeu. Nas colônias duplamente invadidas, as línguas nativas americanas e aquelas trazidas da África ou da Ásia desapareceram, permanecendo apenas a língua européia (ingles, frances, holandes, espanhol). Embora inicialmente a literatura, quando houve, fosse um meio para enaltecer a metrópole ou informando a Europa sobre as riquezas desses países, seguindo parâmetros eurocentricos, uma literatura mais autônoma, crítica, denunciadora e de ruptura começa a ser escrita conforme a conscientização política dos escritores. O romance Cry, the Beloved Country (1948), de Alan Paton, fala sobre soluçoes romanceadas do regime de apartheid na África do Sul, enquanto os contos da sul-africana Nadine Gordimer contém uma percepção mais acurada do problema, revelando soluçoes mais complexas e difíceis referentes ao racismo, a objetificação e a alteridade do nativo. Nesses últimos quarenta anos essa literatura constitui a vanguarda da literatura escrita em língua inglesa, inclusive muitos autores foram agraciados pelo Premio Nobel de Literatura (Naipaul, Walcott, Gordimer, Coetzee).

Estratégias da literatura pós-colonial

O projeto de descolonização da literatura eurocentrica implica a crioulização da língua européia, o uso da paródia e da mímica, a apropriação do poder para afirmar a identidade através da re-leitura, a denúncia do estrago colonial revelado pela diáspora, a ampliação do cânone literário, a ruptura da primazia dos textos metropolitanos pela re-escrita. O contexto dessa descolonização é a diáspora e o hibridismo, características dos povos atingidos pela colonização européia.
Diaspora

O termo diáspora refere-se ao trauma coletivo de um povo que voluntária ou involuntariamente foi banido da sua terra e, vivendo num lugar estranho, sente-se desenraizado de sua cultura e de seu lar. Spivak (1996) distingue entre a diáspora pré-transnacional e a diáspora transnacional. A primeira aconteceu quando milhoes de escravos entre os séculos 15 e 19 foram deslocados de suas terras e colocados nas Américas para trabalhar nas fazendas dirigidas por europeus. A diáspora transnacional inclui trabalhadores de indentured labour no século 19, e deslocamentos contemporâneos por causa da fome, guerra civil, desemprego, prostituição, desejo de fazer parte do mundo industrializado. Essa diáspora pode ser a diáspora sul-norte envolvendo principalmente Caribenhos, Africanos e Asiáticos que emigram as antigas metrópoles para trabalhar; e a diáspora intra-continental especialmente produzida pela fome e pelas guerra civis (retirantes nordestinos brasileiros para o sul em busca de emprego; Africanos da Libéria, Etiópia, Ruanda e de outros países fugindo da morte certa em guerras inter-tribais). Os romances dos caribenhos Jamaica Kincaid e Caryl Phillips retratam a ligação entre o deslocamento antigo e os efeitos da diáspora africana moderna.
Hibridismo

Hibridismo (em ingles hybridity, in-betweenness, liminality, creolization, mestizaje) pode ser, entre outros, lingüístico, cultural, político, racial. Bakhtin usou o termo para mostrar o poder subversivo de situaçoes multivocais (polifonia) da linguagem e da narrativa contra a sobriedade e o aspecto apolíneo da cultura dominante. Em teoria pós-colonial o hibridismo foi inicialmente equivalente a uma mera troca cultural, a qual negava a desigualdade inerente as relaçoes de poder e enfatizava as políticas de assimilação através do mascaramento das diferenças culturais. Portanto, as teorias que insistem na reciprocidade necessariamente dao pouca importância ao fator oposicionista e aumentam a dependencia cultural. O significado de hibridismo sugerido por Bhabha (hoje é o mais aceito) faz com que o sujeito pós-colonial coloque seu ponto de vista contra o outro, mantendo grande abertura, com o potencial de reverter as estruturas de dominação colonial. Portanto, “o hibridismo intencional de Bakhtin foi transformado por Bhabha em um momento ativo de desafio e resistencia contra o poder colonial dominante […] negando a cultura imperialista imposta a autoridade conseguida pela violencia e a alegação de autenticidade (Young, 1995: 23). A partir da interdependencia entre colonizador e colonizado e da impossibilidade da pureza hierárquica das culturas, Bhabha afirma que os sistemas culturais sao construídos num espaço chamado “terceiro espaço da enunciação” (1998: 37), um espaço ambivalente e contraditório, de onde emerge a identidade cultural. Conseqüentemente, o hibridismo é o lugar onde se realiza a diferença cultural. A natureza híbrida da cultura pós-colonial localiza a resistencia nas práticas contra-discursivas implícitas na ambivalencia colonial e assim subverte o próprio suporte sobre o qual assentava-se o discurso imperialista e colonial (Ashcroft et al. 1998).

Crioulização da língua européia

O termo “ab-rogação” significa a rejeição por escritores pós-coloniais de conceitos normativos da língua européia (Standard English; King’s English; o frances da Academia) ou da marginalização da língua (dialetos, crioulo, variantes) usada por certos grupos de colonizados (crioulos franceses de Haiti, Martinica e Guadalupe; pidgin English da Jamaica e Hong Kong; crioulo portugues de Angola, Moçambique e Timor Leste). Ao mesmo tempo, o escritor pós-colonial assume a “apropriação”, através da qual a língua européia se adapta a descrever o ambiente nao-europeu etc. Portanto, o uso da linguagem é, em todos os casos, uma variante de um referente nao-existente. A teoria da ab-rogação mostra que há um antídoto contra o aprisionamento do colonizado nos paradigmas conceituais do colonizador. Através da apropriação o colonizado assume a linguagem (e outros itens como o teatro, o filme, a filosofia) do colonizador e a poe a seu próprio serviço. Portanto, é a maneira pela qual a cultura colonizada usa os instrumentos da cultura dominante para contrapor-se ao controle político do dominador. O nigeriano Achebe (contra o queniano Ngugi) sempre foi a favor do uso do ingles para expressar as experiencias culturais nigerianas e para atingir o maior número de leitores. Como os textos de vários autores oriundos de ex-colônias mostram, a linguagem é extremamente poderosa para construir textos anticoloniais.

Mímica e paródia

A mímica é a tentativa pelo colonizado para copiar o colonizador. Isso acontece quando o colonizado assume os hábitos culturais e valores do colonizador. Como o resultado dessa mímica nao é uma reprodução exata das características do colonizador, ela pode ser altamente subversiva. A mímica, portanto, produz uma racha na certeza imperial de que a dominação colonial mantém completo domínio sobre o colonizado. O escárnio (a ridicularização) e a ameaça existem na mímica da cultura, do comportamento e dos valores dominantes feita pelo colonizado. A escrita pós-colonial é a principal estratégia da mímica contra o colonizador porque “devido a sua visao dupla, a revelação da ambivalencia do discurso colonial subverte a autoridade desse mesmo discurso” (Bhabha, 1998: 88). A quase-identidade do sujeito colonial com o sujeito dominante (descrito por Bhabha como “quase o mesmo mas nao é branco”) faz com que a cultura colonial seja potencialmente subversiva.
Re-leitura

A re-leitura é uma maneira de ler os textos literários para revelar suas implicaçoes no processo colonial. Descobrem-se no texto nao apenas os paradigmas estéticos mas também e especialmente sua origem na realidade social e cultural. “Quando voltamos ao arquivo cultural, começamos a rele-lo de forma nao unívoca, mas em contraponto, com a consciencia simultânea da história metropolitana que está sendo narrada e daquelas outras histórias contra (e junto com) as quais atua o discurso dominante (Said, 1995: 87). Uma releitura pós-colonial de A tempestade, de Shakespeare, faz descobrir várias estratégias de colonização e de resistencia, enquanto Mansfield Park, de Jane Austen, mostra o embasamento escravagista da riqueza britânica. A leitura pós-colonial dos romances de José de Alencar deverá revelar facetas interessantes sobre a fabricação do poder colonial, a objetificação do nativo, a dupla redução da mulher quer portuguesa quer indígena, a resistencia sutil do índio para recuperar a sua subjetividade. É uma re-visao da literatura a luz de práticas discursivas pós-coloniais.

Re-escrita

Um fenômeno literário nao limitado a literatura em língua inglesa, a re-escrita tornou-se uma prática discursiva pós-colonial através da qual, e aproveitando-se de lacunas, silencios, alegorias, ironias e metáforas do texto “canônico”, surge um novo texto que subverte as bases literárias, os valores e os pressupostos históricos do primeiro. Foe, do sul-africano J.M. Coetzee, retoma a lacuna deixada pelo silencio da mulher e o tema do “feliz encontro” de Friday com o europeu. Portanto, constrói um novo texto problematizando a possibilidade da fala dos colonizados: esse novo texto interroga o texto “canônico” e, ao mesmo tempo, se constrói como discurso legítimo. Wide Sargasso Sea e Indigo mantem uma tensao dialógica respectivamente com Jane Eyre e The Tempest através de questionamentos, subversoes, rebates a preconceitos, revides femininos e outros.

Ampliação do cânone literário

A re-leitura e a re-escrita subvertem o cânone literário. Essa subversao nao se limita apenas a uma substituição de textos por outros ou a mera ampliação do número de textos numa lista. Como o cânone literário é um conjunto de práticas de leitura apropriadas pela cultura dominante para justificar sua ideologia e para se manter no status quo, a subversao acontece também “pela reconstrução dos assim chamados textos canônicos através de práticas alternativas de leitura” (Ashcroft, 1989: 189). A busca, leitura e análise de textos “esquecidos” da época colonial ou pós-independencia estabelecem um conjunto de estudos sobre a sua produção no contexto social, político e histórico. Essa atividade por si só já quebra o monopólio de certos textos “intocáveis” e cria uma fricção sobre os porques da canonicidade e nao-canonicidade dos textos. Ademais, mostra que nao foi apenas o fator estético o responsável exclusivo da inclusao no cânone de certos textos, mas sim um conjunto de razoes políticas apropriadas para sustentar uma determinada ideologia historicamente datada. Além disso, o deslocamento da literatura do “centro” para a “margem” favorece a conscientização da subjetividade tolhida pela ação colonizadora. A leitura de textos ficcionais pós-coloniais e de teoria pós-colonial oriundos de autores nascidos em ex-colônias já é um indício e um fator importante de um discurso alternativo.

Questoes e problemas

Referindo-se as literaturas pós-coloniais de língua inglesa dos últimos quase cinqüenta anos, pode-se perguntar “Quem é o sujeito pós-colonial hoje?” O crítico ou o autor pós-colonial é provavelmente um academico, oriundo de uma ex-colônia britânica, preocupado do peso histórico do colonialismo e da persistencia do projeto colonizador na mentalidade e na ideologia das pessoas pós-coloniais vivendo em países que outrora foram colônias européias. O escritor ou crítico pós-colonial, especialmente aquele que nao pertence a uma ex-colônia britânica, se angustia ou diante da re-visao nao-começada ou diante da re-visao inadequada da literatura produzida por qualquer país que estava submetido ao colonialismo ou está sendo atualmente arrebatado pelo projeto acrítico da globalização. Além disso, o grande problema para esses é a aceitação sic et simpliciter da teoria pós-colonial fabricada pela academia do Ocidente e aplicada aos textos nao-europeus tal qual foi formulada. A reflexao de Schwarz (1997: 30 e 48) em seu ensaio Nacional por subtração é extremamente pertinente. “O gosto pela novidade terminológica e doutrinária prevalece sobre o trabalho de conhecimento, e constitui outro exemplo, agora no plano academico, do caráter imitativo de nossa vida cultural […] Tem sido observado que a cada geração a vida intelectual no Brasil parece recomeçar do zero. O apetite pela produção recente dos países avançados muitas vezes tem como avesso o desinteresse pelo trabalho da geração anterior, e a conseqüente descontinuidade da reflexao […] A vida cultural tem dinamismos próprios, de que a eventual originalidade, bem como a falta dela, sao elementos entre outros.

A questao da cópia nao é falsa, desde que tratada pragmaticamente, de um ponto de vista estético e político, e liberta da mitológica exigencia da criação a partir do nada”.

Pode-se perguntar também “Onde está o sujeito pós-colonial?” O escritor ou o academico pós-colonial se encontra provável e paradoxalmente na diáspora (na ex-metrópole ou em algum país industrializado). Raramente está em seu próprio país. Rushdie, Kincaid, Phillips, Achebe e Melville nao moram na Índia, Antígua, Sao Cristóvao, Nigéria e Guiana respectivamente. Portanto, o sujeito pós-colonial freqüentemente pode ser definido como habitante daquele “terceiro espaço” intersticial imaginado por Bhabha (1998). Ou aquele que, devido a “transladação transnacional ou transcolonial” – da colônia a um outro lugar ou da colônia a uma outra – percebe mais de perto a ação devastadora da diáspora pré-transnacional e transnacional. No caso do escritor ficcional, isso provoca a representação de uma ampla gama de fatores referente as estratégias da alteridade e a localização da subversao; no caso do crítico, isso o faz rechaçar a tentação da re-colonização teórica e o faz descobrir o discurso mais apropriado nao-imitativo para o aprofundamento teórico da literatura produzida desde o momento da colonização até a atualidade.

Embora se admita a distinção entre o arquivo temporal e o arquivo ideológico de “pós-colonialismo”, discute-se ainda a ambigüidade do mesmo. Parece que somente agora começou a ser discutida a legitimidade ou nao da vasta abrangencia dada por Ashcroft et al. (1989) a definição. De acordo com esses autores, o termo “pós-colonialismo” se refere a toda a cultura influenciada pelo processo imperial a partir do momento da colonização até a contemporaneidade. Muitos críticos afirmam que a abrangencia dessa definição mistura o período colonial com o período pós-proclamação da independencia. Embora a passagem de países como o Canadá, a Austrália e a Nova Zelândia do período colonial ao pós-colonial (arquivo temporal) fosse quase imperceptível, ao contrário do que aconteceu nos países da América Latina no século 19, e na Índia e na África no século 20, colonizados pelos ingleses, franceses e portugueses, nessa questao o conceito de arquivo temporal, embora fosse importante, teve menor repercussao do que o conceito do arquivo ideológico. Ou seja, a carga de alteridade e objetificação produzida no sujeito colonizado e em toda a sua cultura foi tao devastadora e abrangente que contaminou, em diferente grau e profundidade, a cultura de todos os sujeitos no período pós-independencia.

Uma outra problemática referente ao termo “pós-colonialismo” é o grau absoluto dado ao termo. O período pós-colonial (temporal) é uma pequena, as vezes, infinitésima parte da história do sujeito. O período pós-colonial nao é a única história que o sujeito pós-colonial teve. A história pré-colonial do Brasil, da Índia, da Austrália e da África deve ser, pelo menos, tao importante e tao digna de estudos quanto o período da intervenção portuguesa, inglesa, ou francesa. Sem esses aspectos, o termo “pós-colonialismo” fica apenas um rótulo fabricado no exterior para o consumo indiscriminado e acrítico do ex-colonizado. No caso da literatura, a subjetificação será realçada, primeiro, quer pela oratura (no caso de comunidades ágrafas, por exemplo, as lendas indígenas dos índios do Xingu) quer pela literatura pré-colonial (por exemplo, as Vedas e Upanishadas na Índia) e auto-etnográfica (a Nueva coronica y buen gobierno, de Felipe Guaman Poma de Ayala, de 1613), e, segundo, pela inculturação da escrita dos autores ficcionais (o Modernismo brasileiro).

As representaçoes de raça, etnia e genero fazem parte da literatura pós-colonial. Todavia, os conceitos foram formulados por críticos (principalmente por Henry Louis Gates e Stanley Hall) de países metropolitanos e a abordagem desses conceitos diz respeito ao multiculturalismo estadunidense e ao multiracismo britânico, “aplicados”, por exemplo, ao hibridismo indiano, brasileiro, caribenho e africano. Será que essa teoria metropolitana, de cunho essencialista, nao está ainda produzindo uma intervenção na e constituindo uma ameaça a literatura pós-colonial? O fato de que a maioria das publicaçoes teóricas pós-coloniais sai das universidades e das editoras metropolitanas nao indica um monitoramento colonizador?

O pós-estruturalismo tornou visíveis as aspiraçoes e os direitos de várias minorias (homossexuais, feministas etc) nos paises metropolitanos mas deixou de lado várias questoes envolvendo o entrelaçamento de classe, raça e genero nesses países industrializados. Pode ser que a literatura pós-colonial, de autoria dos autores nascidos nas ex-colônias, esteja representando certas minorias privilegiadas dos países atingidos pelo colonialismo e deixando de lado representaçoes mais profundas de classe, genero e raça pertencentes a maioria dos sujeitos colonizados. No romance The God of Small Things, de Arundhati Roy, destaca-se mais a família aristocrata de Ammu do que a do pária Vellutha. O negro Solomon em A Distant Shore, de Caryl Phillips, é o personagem (inicialmente) afortunado que consegue fugir da tragédia da guerra civil num país africano, e nao representa os milhoes que deixou atrás, vítimas das atrocidades tribais e do desemprego.

Diante da hegemonia cultural globalizada dos Estados Unidos, será que ainda é útil denominar quase-coloniais, coloniais, pós-coloniais e nao-coloniais os países e suas culturas? Todos, mesmo países de tradição altamente independente como a França e a Alemanha, correm o risco de serem clones da cultura dominante americana. Talvez a língua seja a única resistencia. Todavia, também nesse ponto, esbarra-se com um grande empecilho. Praticamente a língua da teoria pós-colonial é o ingles, a língua do colonizador do passado e do presente. Salvo importantes exceçoes, é também a língua da ficção pós-colonial já que atualmente a maioria da literatura contemporânea está sendo escrita por autores oriundos de ex-colônias britânicas. Portanto, como pode se livrar dessa dupla amarra? Será que o subalterno nao fala porque o pós-colonialismo fala e ouve somente a língua inglesa? Apesar a fama de Rushdie, Achebe e Ngugi como autores pós-coloniais da Índia, Nigéria e Quenia respectivamente, menos de 5 de toda a literatura criativa nesses países está escrita em ingles. Em contraste, qual é a chance de um índio caingangue ou um maori escrever em sua própria língua diante da hegemonia do portugues no Brasil e do ingles na Nova Zelândia?

O pós-colonialismo conseguiu nos últimos cinqüenta anos construir um arcabouço teórico e um conjunto de obras literárias consideráveis. Como nao pode deixar de ser, a importação da teoria pós-colonial afetou também a América Latina e, conseqüentemente, o Brasil, a partir dos anos 1970 em diante. Essa importação, todavia, realçou certos conceitos já debatidos como “a antropofagia”, “a transculturação”, “o hibridismo”, “a marginalização”, “a hierarquização”, “as minorias excluídas”, “o transnacionalismo”, “a homogeneização”, “a alteridade”, termos discutidos por Oswald de Andrade, Mário de Andrade, Silviano Santiago, Eduardo Galeano, Octávio Paz, Darcy Ribeiro, Antonio Candido, Paulo Freire, Celso Furtado, Roberto Schwarz e outros, em diferentes épocas, por diferentes vieses e através de matizes contrastantes.

Referindo-se aos Estudos Culturais (portanto, incluindo o pós-colonialismo) e a influencia estadunidense sobre a academia brasileira, Perrone-Moisés (1998) rechaça “o interesse de imitar, em nossas universidades, essas tendencias norte-americanas”. Realmente a preferencia ao contexto sobre o texto, a bibliografia anglo-americana, a diluição dos estudos literários, ao abandono das reflexoes latino-americanas sobre a identidade, poderia viciar e distorcer a teoria pós-colonial, impor um outro tipo de colonialismo e descartar o que é realmente latino-americano nesse campo.

Por outro lado, é importante frisar que críticos pós-coloniais como Achebe, Ngugi, Bhabha, Fanon, Memmi, Said, Ahmad, Loomba, Spivak construíram suas teses sobre suas experiencias em terras colonizadas e que autores ficcionais pós-coloniais como Coetzee, Kincaid, Rhys, Melville, Harris, Phillips e outros representaram e ainda representam o sujeito pós-colonial e suas ambivalencias a partir de suas reflexoes.

Diferente de muitos críticos caribenhos, africanos e asiáticos, os teóricos latino-americanos continuam trabalhando na América Latina publicando aqui as suas obras sobre o subalterno, a subjetificação do oprimido, a conscientização política e a descolonização da mente. Exemplo disso é Haroldo de Campos que constrói o “mau selvagem”, o devorador do branco que desconstrói, se apropria, desapropria e des-hierarquiza – uma teoria original, profundamente brasileira. Outros tentam aplicar a teoria pós-colonial importada devido a semelhança da experiencia colonial, freqüentemente sem levar em consideração a epistemologia sobre o pós-colonialismo já existente no Brasil e na América Latina. O que está em questao nao sao as teorias pós-coloniais “estrangeiras”, mas a sua apropriação acrítica e o desprezo pela teoria autóctone. O pós-colonialismo no Brasil, como tendencia, crítica e leitura, poderá ter uma sensibilidade autóctone, nao xenófoba nos moldes que Salles Gomes (1986: 88) preconiza: “nao somos europeus ou americanos do norte, mas, destituídos de cultura original, nada nos é estrangeiro, pois tudo o é. A penosa construção de nós mesmos se desenvolve na dialética rarefeita entre o nao ser e o ser outro”.

Referencias

ASHCROFT, Bill; GRIFFITHS, Gareth; TIFFIN, Helen (1998). Key Concepts in Post-Colonial Studies. London: Routledge.
ASHCROFT, Bill; GRIFFITHS, Gareth; TIFFIN, Helen (1989). The Empire Writes Back: Theory and Practice in Post-colonial Literatures. London: Routledge, 1989.
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BRENNAN, Timothy (1989). Salman Rushdie and the Third World: Myths of the Nation. London: Macmillan.
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ROBBINS, Bruce (1999). Feeling Global: Internationalism in Distress. New York: NYUP.
SAID, Edward (1995). Cultura e imperialismo. Sao Paulo: Companhia das Letras.
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SALLES GOMES, P. E (1986). Cinema: trajetória no subdesenvolvimento. Sao Paulo: Paz e Terra.
SCHWARZ, Roberto (1997). Que horas sao?: Ensaios. Sao Paulo: Companhia das Letras.

SPIVAK, Gayatri (1996). Diasporas old and new: women in the transnational world. Textual Practice, v. 10, n. 2, p. 245-269.
YOUNG, Robert (1995). Colonial Desire: Hybridity in Theory, Culture and Race. London: Routledge.

Resumo
Após quase cinqüenta anos de Estudos Pós-coloniais na Literatura e sua consolidação no mundo academico em várias universidades, inclusive brasileiras, é necessário refletir e problematizar essa nova estética. Em primeiro lugar, analisam-se os conceitos fundamentais do pós-colonialismo, tais como a tipologia colonial, a colonização européia, a objetificação do nativo, a diáspora, a hibridização, a resistencia, o revide, a releitura de material textual e a reescrita de obras canônicas. A partir dessa teoria, analisam-se questoes sobre o sujeito pós-colonial na literatura; os instrumentos de poder pela mímica e pela paródia; o problema do entrelaçamento de raça, etnia e genero; o relacionamento entre a teoria pós-colonial autóctone e a eurocentrica; a desconstrução do cânone literário. Parece que os Estudos Pós-coloniais abrem novas perspectivas nao apenas para nos revelar os sistemas de poder e suas influencias, mas, de modo especial, nos fornecem parâmetros para investigaçoes mais profundas e eticamente mais corretas do material textual oriundo de ex-colônias.
Abstract
State-of-the-art and ambiguities in Postcolonialism at the beginning of the 21st century. After almost fifty years of Postcolonial Studies in Literature and its consolidation in the academic world, Brazilian universities included, certain discussions and debates are necessary for the problematization of the new aesthetic issues. The basic concepts of Postcolonialism will be analyzed which include the colonial typology, European colonization, the objectification of the native, the diaspora, hybridization, resistance, reaction, the rereading of texts and the rewriting of canonical works. Problems on the postcolonial subject in literature, power strategies of mimicry and parody, racial, ethnic and gender intermingling, the relationship between native and eurocentric post-colonial theories and the deconstruction of the literary canon will be discussed. It seems that Postcolonial Studies open new horizons not only to reveal the power systems and their influence but they also provide in a peculiar way deeper and ethically more correct investigations on texts hailing from the ex-colonies.

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