sábado, agosto 13, 2022

Ayabás

Fonte: Ìrohin
Por Hamilton Borges Walê


 
Hoje eu não ia escrever. Ficar calado é o que quero nesses dias tristes. Os dias são pálidos pra mim agora, dias sem música, sem barro molhado às 17 horas, sem afetos desinteressados desses que protegem .No fundo tô triste por que o candomblé de dona Hilda tá calado.
Quem me provocou essas letras foi olamento de Cláudia Santos em Imagem/memória de quem vê o passado como eu: desde a Ladeira do Curuzu, protegidos pelas saias de nossas avós. Um chamego sagrado nesses tecidos, algo que fortalece e você só descobre 40 anos depois e aí se pergunta: como cheguei aqui?

Minha Avó é Hedit dos Santos, filha de Guiomar dos Santos, neta de uma africana sem pais que às criou e deixou terras pelos lados de lá onde nasci. Foram as primeiras moradoras do Curuzu de Baixo, pros lados da Progresso, Progressista e Rua da Alegria, onde mora Cláudia Santos que em silêncio e calma registra nossas almas verdadeiras.

Dona Hedit, Dona Hilda e outras matriarcas daquelas bandas organizaram uma comunidade aos moldes de um quilombo matriarcal religiosamente aguçado e livre, como o canto de Valdina Pinto nos preparando para a batalha decisiva a todo dia.

Cresci sem problemas com meu cabelo, nariz ou passado. Cresci livre, perambulando pelo mato e fazendo arte enquanto minha avó gritava:

“Haaaaaaaaaaaamillllllllllllton, vem pra casa minino.
Ô meu Deus, me dá paciência, esse minino dá trabalho que meus filhos não deram”

Eu corria sujo pela rua enquanto Antônio Carlos (Vovô ) me pegava pelo braço e me entregava a D. Hedit cumprindo seu papel de familiar extensivo de uma família imensa naquele Curuzu dos anos 70. “Deus lhe dê força nos braços Vovô”, gritava ela enquanto eu mostrava o “bêço” ao meu algoz, criador da grande expressão de libertação colonial de minha geração que é o Ilê Aiyê, “ se o orgulho que parte da gente é o amor permanente a essa cor que me cabe” Bom!!! Eu cresci sabendo de uma história. Eu ia “fazer Santo’ em Dona Hilda, mas meu pai, o Antônio Borges, Antonio do banjo, Antonio Cabelo Bom, não deixou. Me tirou praticamente do Rumdemi pedindo desculpa a minha Tia Hilda:

“Homem não vai dançar de saia em minha família”.

Pensava ele que eu era Yabá ? O fato é que toda Sexta-feira Santa minha Vó mandava eu dar a Benção a Dona Hilda, coisa que fazíamos a alguém muito importante para nossa espiritualidade.

Ajoelhava, beijava a mão de Dona Hilda e dizia:

“Louvado seja nosso senhor Jesus Cristo”.
Ela respondia:
“Para sempre seja louvado”.

E eu descia correndo o Curuzu, não sem antes comer à vontade e me carregar devidamente de todo queimado que eu podia.

De algum modo eu era filho daquela mulher linda que nos abençoava quando íamos pra escola e que nos repreendia quando fazíamos bagunça pelas casas de taipa lá embaixo, ou roubávamos sapoti em seu Zé Roxo.

Eu tenho uma foto aqui de minha avó, faz parte de minha busca pessoal no Curuzu, esses conselhos que Edson Cardoso distribui de graça quando fala, e eu sigo.

Por exemplo, ele fala que o Movimento Negro tem que ser responsável com os meninos e meninas que vão nascendo e não tem quem cuide, os que estão na fila de adoção rejeitados e rejeitadas.

Em minha casa decidimos seguir a orientação de Cardoso e vamos adotar um menino ou menina, ou mais, em breve. Responsabilidade com nosso futuro. Mas quero ser responsável com meu passado minha avó e minha tia que me criaram e que, mesmo diante de tanta guerra, me fizeram ao menos um ser humano com dignidade e orgulhoso.

Como Minha Tia Hilda.

 
Simples desse jeito.
 
Minha mãe Hilda.
 
Iniciada em outros ares festejando com minha bisavó Guiomar
 
sua chegada ao Orum.

Matéria original
 
Saiba mais sobre mãe Hilda
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