Brasil, um país suicida?

Obscurantismo das elites se espalha entre alienados

Por Iara Pietricovsky, da Folha de S.Paulo

A antropóloga e cientista política Iara Pietricovsky (Foto:  Evaristo Sá – 22.jun.12/AFP)

A mentalidade colonial, que se perpetua no Brasil por meio de um Estado patrimonialista, promíscuo e autoritário, escancara uma sociedade com extrema desigualdade de classe, raça, gênero e etnia. Ainda que tenha sido possível experimentar momentos de melhora no período recente, esse passado nos mancha de forma indelével —e, se não for enfrentado, vai continuar ampliando o ciclo vicioso da injustiça social.

Por que digo isso? Vamos aos fatos do Brasil de hoje. Segundo o Relatório Luz, elaborado por ONGs articuladas em torno da Agenda 2030, o Objetivo de Desenvolvimento Sustentável (ODS) número 10, que trata da redução da desigualdade dentro dos países e entre eles, caminha para trás. Foi esse mesmo relatório que nos trouxe a triste notícia de que o Brasil retornou ao Mapa da Fome da ONU, do qual saíra em 2014.

Pela primeira vez desde 2010, o Brasil manteve a mesma nota e a mesma posição entre as 188 nações pesquisadas no ranking de desenvolvimento humano das Nações Unidas. Estamos estagnados no 79º lugar.

Em decorrência da emenda constitucional 95, políticas públicas que melhoraram indicadores da saúde e da educação estão sendo desmanteladas. O fim do Mais Médicos, os cortes orçamentários em áreas estratégicas do conhecimento científico, e uma política deliberada de privatização dos sistemas públicos, em especial na educação, são alguns dos exemplos mais recentes.

A desigualdade de renda entre homens e mulheres aumentou nos últimos dois anos. De acordo com dados da Pnad Contínua (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua Trimestral), as mulheres ganhavam 72% do que recebiam os homens em 2016. Um ano depois, ganhavam 70%. Esse índice segue piorando. Recuou também a equiparação de renda entre negros e brancos —isso é especialmente problemático quando temos a maioria da população de mulheres e negros.

Não por coincidência, as mulheres negras são as que mais pagam impostos proporcionalmente à sua renda no Brasil. Nosso sistema tributário regressivo é um instrumento de manutenção das distâncias sociais e, somado ao corte dos gastos públicos e outras medidas de austeridade fiscal, vem castigando a população mais vulnerável.

Essa desigualdade também se expressa no campo da representação política. Homens brancos são maioria em todos os espaços públicos, em especial no Congresso e no Executivo. Cresce também a violência e a discriminação contra a mulher, principalmente se for negra.

Estamos diante de um sistema político obsoleto, que promove a perpetuação de oligarquias no poder e facilita os mecanismos de corrupção em todos os níveis. A criminalização das ONGs e movimentos sociais, a perseguição à imprensa e aos setores que expressam discordâncias e visões críticas nos levam ao retrocesso democrático rumo a um autoritarismo que namora o fascismo.

As novas gerações já começam a pagar a conta: a mortalidade infantil aumentou, o desemprego assusta e a proposta de reforma da Previdência, em discussão no Congresso, já acaba com o sonho de uma aposentadoria digna. É verdade que existe uma necessidade de reforma, mas passa muito mais por acabar com privilégios e por uma tributação progressiva do 1% mais rico.

O desmantelamento das politicas de proteção ambiental e o retrocesso no combate ao aquecimento do clima também coloca em xeque o futuro das próximas gerações.

A conclusão é que existe uma dificuldade inequívoca de nos pensarmos como uma nação justa, democrática e diversa. O obscurantismo doentio das elites, que se espalha também nos setores alienados, é suicida. Senão, como justificar nosso rumo atual? Aos que acreditam que outro país é possível, o que fazer?

Continuar nossa luta e nossas mobilizações pelo direito a existir em nossa diversidade. Educarmo-nos. Acreditar na ciência e no conhecimento como forma de mudar a realidade em benefício de um mundo melhor e plural, mais bonito, mais ético. E acreditar que existe, sim, uma democracia participativa possível num mundo onde a solidariedade, a igualdade e a liberdade sejam compatíveis e complementares, simplesmente porque não há outra saída —nem outro planeta.

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