terça-feira, setembro 21, 2021
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Brasileiros de ascendência asiática relatam ataques racistas durante a pandemia

Preconceito ganhou destaque em março, quando mulheres amarelas foram mortas em atentado nos EUA

Descendente de japoneses, Fernanda Yumi Tagashira, 20, conseguiu seu primeiro emprego em uma empresa de segurança e monitoramento virtual de São Paulo em março de 2020, início da pandemia de Covid-19 no Brasil. O entusiasmo durou apenas alguns dias, até que uma colega de trabalho responsável por sua integração disse que japoneses, chineses e coreanos eram “tudo um bando de gente porca”.

A supervisora insistia diariamente nos comentários de cunho racista e, durante um almoço, enquanto higienizava a mesa com álcool, tornou a agressão, até então verbal, em física.

“Ela espirrou álcool na minha cara e falou, dando risada: ‘olha o coronavírus, olha o coronavírus’. O álcool pegou no meu rosto e no meu olho e ardeu muito. Voltei a trabalhar com o olho ardendo”, conta a estudante de rádio e TV.

A discriminação racial contra amarelos —como são classificados os grupos étnico-raciais do Leste e Sudeste Asiático e seus descendentes no Brasil— ganhou destaque no noticiário em março, quando uma chacina cometida por um atirador nos EUA culminou na morte de seis mulheres de origem leste-asiática.

No Brasil, a pandemia também gerou ataques racistas contra pessoas com essas ascendências. Segundo o último censo realizado pelo IBGE, em 2010, os amarelos correspondem a 1,1% da população brasileira e estão concentrados, em sua maioria, na região Sudeste, totalizando mais de 890 mil pessoas. Deste total, 558 mil estão no estado de São Paulo, seguido de Minas Gerais, com 187 mil.

Em apenas uma semana, a estudante de marketing Caroline Mika Sassaki, 21, de ascendência japonesa, chegou a passar por duas situações constrangedoras no metrô de São Paulo. A primeira foi quando um grupo de jovens fez comentários relacionados à Covid, arrancando risadas de outras pessoas do vagão e incentivando uma mulher a gritar: “volta para o seu país, coronavírus, porque você não é bem-vinda aqui”.

Na segunda, Sassaki estava entrando no vagão e uma mulher segurou o filho, dizendo que não entraria no mesmo lugar com alguém “infectado”. “Ela falou alto para todo mundo escutar. Fingi que não escutei, mas percebi que as pessoas estavam se afastando também”, conta.

“Eu vivo de óculos escuros e, de certa maneira, é para esconder o traço do olho ‘puxado’, porque eu sei que tem lugares em que eu vou chegar e vou escutar comentários desconfortáveis”, relata a estudante. Depois dos episódios no metrô, ela diz ter ficado apreensiva em sair de casa. “Tive medo de ser humilhada e começarem a gritar comigo.”

O presidente do Ibrachina (Instituto Sociocultural Brasil-China), Thomas Law, acredita que as declarações xenofóbicas feitas por autoridades políticas no início da pandemia tenham incentivado brasileiros a também colocarem para fora seu preconceito.

“Nos EUA, o Trump já culpava a China. No Brasil, tínhamos os então ministros Abraham Weintraub [Educação] e Ernesto Araújo [Relações Exteriores] falando mal do país. Acho que isso influenciou muito a população”, diz Law.

Segundo Rogério Dezem, autor do livro “Matizes do ‘Amarelo’: a Gênese dos Discursos sobre os Orientais no Brasil (1878-1908)”, a xenofobia contra asiáticos já vem de longa data, desde o século 19, com o surgimento das teorias raciais e, consequentemente, a criação de um imaginário nacional que desumaniza e objetifica essas etnias.

“O discurso é muito alimentado pela imagem e acho que até hoje ela continua sendo o fato preponderante, como é o caso da imagem do vírus com uma cara chinesa”, afirma. “Como eram as revistas ilustradas, hoje você tem as mídias digitais.”

O historiador explica que a base do argumento utilizado pelos políticos brasileiros e intelectuais da época do Império vinha de outros países, principalmente dos EUA e da França. “O discurso que é construído no Brasil é muito mais um eco filtrado do que vem de fora do que da realidade brasileira. Não tinha um chinês no Brasil e já falaram que era perigoso, que iria ‘mongolizar’ a raça brasileira.”

Em declaração recente, o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) insinuou que a China estaria fazendo uma guerra química com a Covid, reforçando a ideia do ministro da Economia, Paulo Guedes, de que o povo chinês teria “inventado” o vírus.

O Ministério da Saúde chegou, inclusive, a omitir a origem dos insumos para fabricação da vacina contra a Covid, dizendo serem “do exterior”.

Desde que foi criada, em fevereiro de 2020, a central de denúncias do Ibrachina registrou 97 queixas de ataques racistas contra pessoas amarelas. “Ao recebê-las, já orientávamos as pessoas a irem a uma delegacia, porque é a autoridade policial que tem competência para dizer se era um caso de injúria racial (prevista no artigo 104 do Código Penal) ou racismo (previsto na lei nº 7.716)”, diz Law.

Ele acredita que o canal serviu como uma ponte entre a comunidade asiática e as autoridades. “Na cultura oriental se tem um pouco de medo, eles preferem ter um filtro antes, do que falar diretamente com a delegacia.”

Tal receio explicaria uma provável subnotificação dos casos. “A necessidade de dar honra à família e de não envergonhá-la infelizmente ainda está muito presente, e vai impossibilitando que a gente fale sobre o sofrimento”, diz a psicóloga Karina Kikuti, que afirma que amarelos têm dificuldade em explicar o que significa a violência que sofrem no Brasil, já que os abusos são diferentes daqueles vividos pela população preta e indígena.

Para a psicóloga, o mito da “minoria modelo”, que imprime nos amarelos —em especial os japoneses— um “estereótipo positivo”, é utilizado para esconder a similaridade das pautas de diferentes grupos racializados e impedir que se percebam determinados comentários como violentos.

“No fim das contas, nossa história não é falada nem pelo sistema de hegemonia branca nem pela gente. É uma violência muito grande, porque acabamos não conseguindo dar nem significado individual nem coletivo ao que sentimos.”

A atriz Ana Hikari, 26, primeira amarela a interpretar uma protagonista em novela da Globo —Tina, em “Malhação: Viva a Diferença” (2017)—, conta ter passado por situação semelhante às das estudantes do início da reportagem em uma festa de pré-Carnaval antes da pandemia, quando foi abordada na fila do banheiro por um estranho que a chamou de “Miss Filipinas” e, ao notar sua reação negativa, respondeu com “Ai, miga, sai com esse coronavírus daqui!”.

Diferentemente dos EUA, aqui ainda não há registro de agressão física grave, que tenha resultado em morte. Ainda assim, as ofensas verbais afetam diretamente a saúde mental dos descendentes de leste-asiáticos, que têm a sensação de não pertencer nem ao país em que nasceram nem à terra de seus antepassados.

“É o que a gente chama de entrelugar, que é o lugar de nascer no Brasil, se denominar brasileiro, mas vivenciar no cotidiano essas leituras que diferenciam”, explica a psicóloga. “É a pessoa que ‘come cachorro’, que come ‘de pauzinho’, que ‘tem que voltar pro país’, que vai receber perguntas como ‘de onde você é?’, que se tornam micro-agressões, porque evidenciam essa diferença.”

Filha de mãe amarela e pai negro, Hikari reforça que as violências verbal e psicológica também deixam marcas que, embora não sejam necessariamente visíveis, também são violentas. “Eu gostaria que no Brasil não precisassem acontecer casos como esse dos EUA para a gente começar a discutir essas questões. Não precisa ter alguém sangrando para ser considerado violência”, defende a atriz.

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