Carolina de Jesus, na década de 1960, viu os EUA como país racista e arbitrário

22/01/26
  • Tanto ela quanto García Márquez dão pistas literárias sobre o ódio a nações terceiro-mundistas
  • Arrogância bélica dos norte-ameircanos abre sério precedente de medo e incerteza

“Que mania arbitrária dos norte-americanos de se imiscuírem nos litígios dos outros povos.” A frase é da escritora mineira Carolina Maria de Jesus, morta há mais de quatro décadas. Trazida ao contexto atual, serve, perfeitamente, para definir o clima beligerante dos Estados Unidos contra a Venezuela. Sob Donald Trump, o país invadiu, bombardeou e capturou à força no sábado (3) o ditador Nicolás Maduro e esposa, Cilia Flores.

A frase lapidar, escrita pela autora no calor da hora no contexto de uma ofensa racial contida numa entrevista de divulgação da tradução do seu livro “Quarto de Despejo” para o inglês, consta no prólogo da obra póstuma “Meu Sonho É Escrever”, publicada pela Ciclo Contínuo Editorial.

Carolina, pouco afeita a diplomacias de qualquer ordem, especialmente nos idos de 1960, auge de sua maior fama literária, soltou o verbo contra os estadunidenses e o país, já naquela época grande potência mundial.

Complementando o que escreveu, disse: Serão os Estados Unidos o advogado do mundo? O tutor do universo? Eu preciso bajular os Estados Unidos porque sou preta e eles não gostam dos negros. O único negro que eles gostam é o petróleo.”

Tem total coerência a fala de Carolina diante dos últimos acontecimentos com a Venezuela. Isto não quer dizer, em hipótese alguma, que Carolina, se viva fosse, apoiasse o governo venezuelano, como apoiou e se declarou a favor do regime de Fidel Castro e a revolução cubana.

Na ocasião, 1962, Carolina encontrou em São Paulo o jornalista Alexei Adjubei, genro do todo-poderoso Nikita Kruschev, e pediu que ele entregasse uma carta ao líder soviético, na qual solicitava “proteção para o povo cubano”.

A arrogância bélica dos Estados Unidos abre sério precedente de medo e incerteza para o resto do mundo, sobretudo a países como o Brasil, que demonstrou fragilidades em sua democracia e uma forte tendência para a extrema direita, enraizada no Parlamento.

Donald Trump, desde sua posse em janeiro de 2025, demostra sua garra expansionista, embutida na ganância pelo poder político e econômico e no ódio às nações, mesmo as ditas aliadas. Impõe tarifaços sobre diversos produtos e deporta em massa milhares de imigrantes, muitos deles em situação legal no país.

Literariamente falando, a ação do presidente americano na Venezuela pode ser vista como uma versão menoscabada de “Crônica de Uma Morte Anunciada”, de Gabriel García Márquez. No livro do Nobel colombiano, um crime de morte é perpetrado sob o pretexto de vingança pela honra familiar. O enredo se desenvolve a partir do assassinato em público de Santiago Nasar, estuprador de Ângela, irmã dos gêmeos Pablo e Pedro Vicário, autores do trágico homicídio.

Na verdade, García Márquez trata, como pano de fundo, de responsabilidade coletiva e inação de uma sociedade que a tudo assiste e nada faz. Por outro lado, a história se forma, de maneira habilidosa, pela incapacidade de construção de uma verdade única, dada a natureza do crime e a crença popular atravessada por memórias parciais.

Tanto Carolina de Jesus quanto García Márquez, cada um a seu modo e tempo, desenvolvem argumentos —ela por meio das anotações de seus diários, ele pela lógica da fabulação de uma narrativa sem fim— que poderiam servir de base subjetiva de interpretação sobre os Estados Unidos a partir do conceito do que seja ficção e realidade.


Tom Farias – Jornalista e escritor, é autor de “Carolina, uma Biografia” e do romance “Toda Fúria”

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