Carta à menina que perdeu o pai na chacina de Osasco

Antes de qualquer coisa: a culpa não é sua! Nem da sua mãe, nem do seu pai, nem de algo que ele possa ter feito de errado. É difícil entender agora, ainda mais com o buraco imenso que se abriu dentro de você. Mas a gente vive uma coisa muito doída no Brasil, que expõe homens da periferia, especialmente os homens negros, à violência mais brutal. Por isso a sua história, tão triste e tão dolorosa, não é só sua. Infelizmente, muitas meninas já passaram por isso. Eu que escrevo essa carta também passei.

por  no Brasil Post

Meu pai morreu um mês antes de eu completar 12 anos. Senti muita raiva! Muita mesmo! Demorei uns 10 anos para chorar a saudade dele. Antes, só chorava a raiva. Raiva da vergonha e do julgamento que as pessoas faziam dos erros cometidos por ele. Raiva por ele não estar no meu aniversário, nas festas da escola, quando eu precisava de uma bronca. Raiva por tudo o que eu viveria no futuro sem a presença dele.

Em alguma medida, a raiva me ajudou. Tomei por objetivo, em qualquer coisa que fizesse, contribuir para que essa história não se repetisse mais. Contar para as pessoas o que aconteceu e assim contribuir para a educação delas, para que se tornem mais conscientes, críticas e reflexivas, se tornou uma meta pessoal e profissional. Mas notícias como a da chacina que assassinou seu pai, seguidas de silêncio, apatia e naturalização, gritam e me fazem lembrar de como tenho falhado e o quanto temos falhado como sociedade.

No Brasil, parece natural que morram 146,5% mais negros que brancos, como aconteceu em 2012. Você pode perguntar: mas se os negros se metem mais em confusão, cometem mais crimes, são mais violentos, não é natural que isso aconteça? Precisamos continuar e perguntar: por que isso acontece? Há menos acesso à educação, saúde, moradia e renda para os negros. E não ter acesso a direitos, torna negros pessoas mais vulneráveis: ao crime, à violência, à morte.

Eu mesma hoje, de alguma maneira, contribuo para reforçar o racismo. Não eu, na verdade. Mas a forma como minha trajetória pode ser interpretada. “É possível que pessoas negras saiam de situações vulneráveis e tenham um bom emprego, morem em casas grandes, viajem de férias para a Europa. Olha só a Bianca!”. Aconteceu muita coisa entre a morte do meu pai, no Hospital do Mandaqui, e a escrita deste texto, que me permitiu outro lugar de fala. Garanto a você que a maior parte das pessoas com quem cresci não teve destino parecido. E que o mérito não é apenas meu.

Desejo, com todo o meu ser, que essa dor pare na sua geração. Que consigamos transformar essa sociedade a ponto de ela não assassinar mais homens negros — nem ninguém — com tanta naturalidade. Esse buraco vai ficar com você para sempre. Que dele venha força, amor e fé.

veja também:  O número de mortos por policiais paulistas em serviço deste ano é recorde dos últimos dez anos 

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