Celebrar nossas conquistas também é ser antirracista

Nos meus artigos mais recentes aqui para a coluna Negras Que Movem no Portal Geledés, eu tenho abordado com frequência formas de exercer o antirracismo. E hoje vou falar sobre mais uma delas mas, dessa vez, sobre uma que às vezes esquecemos de realizar ou que achamos que não devemos. Coloquemos na nossa mente: celebrar nossas conquistas também é ser antirracista.

No imaginário social, que ainda hoje é muito perpetuado, pessoas negras têm ocupações predeterminadas… e que dificilmente são as de mais prestígio ou valor. É essa construção social, arraigada em um racismo estrutural, que almejamos combater. E, enquanto isso, não esqueçamos: nossas conquistas, nossos avanços, são importantes e merecem ser exaltados.

Por isso que hoje vou falar sobre dois momentos recentes que foram muito especiais para mim. Duas homenagens que recebi e que me deixaram muito grata, feliz, emocionada e honrada.

O primeiro, que é o mais recente, está ilustrado na fotografia que abre este artigo. Foi quando recebi o Diploma de Honra ao Mérito do Prêmio Ser Mulher, realizado pelo grupo Ser Educacional. A cerimônia foi no dia 7 de março deste ano, em celebração ao Dia Internacional da Mulher, marcado pelo #8m.  

Tive a honra de ser uma das homenageadas, ao lado de mulheres que tanto fazem e nos ensinam, ainda mais por ser uma premiação que valoriza e exalta as nossas trajetórias. Como escrevi nas redes sociais, cada reconhecimento que recebo é carregado de orgulho e emoção. Até porque, como sempre comento, ele não é só meu.

No texto de convite para o evento havia as seguintes informações sobre mim: 

Jornalista, escritora premiada, foi consultora da UNESCO e também trabalhou em ações voltadas para lideranças negras, buscando a visibilidade e equidade racial. É ativista nas causas da mulher negra e sua devida e merecida ocupação no mercado de trabalho. Transforma a marginalização do gênero e da cor em oportunidades e realização profissional.

Ver um pouco da minha história sendo contada sempre me emociona, especialmente porque se sou quem eu sou, se faço o que eu faço, é para honrar aquelas que vieram antes de mim. Obrigada, mãinha, por tanto e por tudo. 

O segundo momento, que vou destacar agora, é a homenagem que recebi em dezembro do ano passado pela Ordem dos Advogados do Brasil (OAB-PE). Foi um orgulho imenso receber a Medalha do Mérito Heroínas do Tejucupapo, na categoria Jornalismo. Uma honra e um orgulho ser reconhecida e homenageada pelo meu trabalho enquanto jornalista com um prêmio que carrega tanto significado, simbologia e tradição.

Jaqueline Fraga (centro) recebe medalha e diploma de honra ao mérito Heroínas do Tejucupapo das mãos da vice-presidente da OAB-PE, Ingrid Zanella (à esquerda), e da então presidente da Comissão da Mulher, Isabelita Fradique (à direita) –  Foto: Alysson Maria/OAB-PE

Ser premiada pela relevância dos serviços prestados à sociedade na área de jornalismo é uma das maiores emoções. Porque demonstra que o conjunto do seu trabalho está sendo importante para a população. E essa é uma das maiores honrarias que uma jornalista pode ter.

Muito me honrou estar ao lado de tantas mulheres que são referências e inspirações. E muito me alegrou ver equidade nesse incrível hall de homenageadas. Equidade essa também presente no Prêmio Ser Mulher.

Nós sabemos que por ser mulher, mulher negra, os desafios e questionamentos surgem de forma duplicada. Por isso é tão importante também esse reconhecimento institucional, ainda mais de instituições tão importantes para a sociedade e a democracia, a exemplo da Ordem dos Advogados do Brasil.

Meus parabéns a cada mulher que integra as listas de homenageadas e, ao mesmo tempo, representa tantas outras. Também agradeço e espero honrar todas aquelas que vieram antes de mim e abriram e seguem abrindo caminhos.

Esses dois dias ficarão carinhosamente gravados na memória. Para ver mais detalhes e registros sobre as homenagens, deixo aqui o convite para que acompanhem as minhas redes sociais: @jaquefraga_ (Instagram e Twitter) e @livronegrasou (Instagram). Será um prazer contar com vocês também por lá. Valorizemos profissionais negras também na internet. Muitas vezes publicamos conteúdos de excelência mas não somos vistas. O racismo também opera assim.

No mais, eu sempre costumo comentar que cada pequena conquista nossa deve ser comemorada. Sonhemos grande, mas não esqueçamos de valorizar os avanços mais simples. Não esqueçamos de valorizar a nossa caminhada. Como bem cantou Cidade Negra: “você não sabe o quanto eu caminhei, pra chegar até aqui…”

Vamos em frente, em busca e conquistando as oportunidades que merecemos e que muitas vezes nos foram negadas.

Encerro esse texto repetindo a frase que tenho dito rotineiramente com o desejo de que se torne um lema e se concretize de fato: Sigamos criando e ocupando espaços!

Sobre a autora

Jaqueline Fraga é escritora, jornalista formada pela Universidade Federal de

Pernambuco e administradora pela Universidade de Pernambuco, com MBA em Comunicação e Jornalismo Digital pela Universidade Cândido Mendes. Apaixonada pela escrita e pelo poder de transformação que o jornalismo carrega consigo, é autora do livro-reportagem “Negra Sou: a ascensão da mulher negra no mercado de trabalho”, finalista do Prêmio Jabuti, e do “Big Gatilho: um livro de poemas inspirado no BBB 21”. Também é coautora do livro “Cartas para Esperança”. Escreve por profissão, prazer e terapia. Escreve porque respira, respira porque escreve. Pode ser encontrada nas redes sociais nos perfis @jaquefraga_ (Instagram e Twitter) e @livronegrasou (Instagram). 


** ESTE ARTIGO É DE AUTORIA DE COLABORADORES OU ARTICULISTAS DO PORTAL GELEDÉS E NÃO REPRESENTA IDEIAS OU OPINIÕES DO VEÍCULO. PORTAL GELEDÉS OFERECE ESPAÇO PARA VOZES DIVERSAS DA ESFERA PÚBLICA, GARANTINDO ASSIM A PLURALIDADE DO DEBATE NA SOCIEDADE.

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