Cientista de computação, Nina da Hora relata caso de racismo sofrido em livraria do Leblon

No Twitter, pesquisadora afirmou ter sido seguida por segurança da loja; rede respondeu que está 'tentando entender o que aconteceu' e que não compactua 'com nenhuma prática discriminatória'

Referência na área da Ciência da Computação aos 26 anos, Ana Carolina da Hora, conhecida como Nina da Hora, ocupa boa parte do seu tempo livre em livrarias. Nesta quinta (3), na companhia da irmã, ela foi à Travessa do Shopping Leblon, uma das poucas lojas da rede que ela não conhecia na cidade. Segundo relatou à noite em seu perfil no Twitter, no qual é seguida por mais de 50 mil pessoas, o passeio e a compra terminaram em um caso de racismo.

Nina escreveu que um segurança começou a segui-las ostensivamente na livraria, e que, em determinado momento, “se debruçou em cima dos livros a ponto de eu pedir pra ele me dar licença pra eu continuar olhando”. Freguesa de outras unidades da rede, como a de Botafogo, Nina percebeu a intimidação e comentou com a irmã em voz alta o valor da última compra feita na livraria, de R$ 1,6 mil. Segundo ela, só assim o segurança deixou o local em que as duas estavam.

Ao finalizar as compras, no valor de R$ 1.328, Nina pediu para falar com a gerente. De acordo com seu relato no Twitter, a funcionária não teria tomado nenhuma atitute quanto ao ocorrido, sem dar ao caso a devida gravidade. Ao invés disso, a primeira abordagem teria sido perguntar onde a cliente morava.

— Eu estava em Botafogo, mas e se dissesse que sou de (Duque de) Caxias? Mudaria alguma coisa em relação ao que ocorreu na loja? — questiona Nina. — Eu sei como é o Leblon, estudei na PUC (da Gávea) muito tempo. Sei que muita gente da Cruzada (São Sebastião) recebe esse tipo de abordagem ali.

A cientista, que faz parte do conselho de transparência do TSE para as eleições de 2022 e foi uma das selecionadas da Lista Forbes Under 30 no ano passado, disse que somente no fim da tarde desta sexta (4) alguém da comunicação da rede teria entrado em contato, pedindo para que ela voltasse à loja para conversar sobre o ocorrido:

— Respondi que não me sinto mais à vontade para entrar naquela loja depois do que aconteceu comigo e com a minha irmã. Não sou eu quem teria que ir até lá — ressalta a cientista, que desenvolve uma pesquisa sobre racismo nos algoritmos de reconhecimento facial.

Nina disse que no momento em que foram seguidas pelo segurança estava pegando um livro do sociólogo Muniz Sodré para dar para a irmã (que ela pediu que não fosse identificada).

— Não adianta ter um marketing antirracista, ter espaços dedicados a livros da Djamila (Ribeiro), da bell hooks, da Lélia Gonzales, se não há uma mudança real na estrutura — comenta a cientista. — Fico pensando como foi difícil para pesquisadores como o Muniz, a Sueli Carneiro, que enfrentaram isso em tempos em que nem existam as redes sociais como uma forma de relatar esses episódios de racismo.

Nina aguarda um posicionamento oficial da rede, e está sendo acompanhada pelos advogados Djeff Amadeus e Letícia Domingos, para o caso de uma ação judicial.

Procurada, a Travessa respondeu, através de sua equipe de comunicação, que estão “tentando entender o que aconteceu, mas a Travessa pauta sua atuação pela valorização da diversidade em todos os seus aspectos. Não compactuamos com nenhuma prática discriminatória de qualquer natureza”.

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