Clube alemão ganha fama com caveira, rock e luta contra racismo

Por: FÁBIO DE MELLO CASTANHO

Sentados em uma calçada de Hamburgo, três jovens com bermudas largas, camisas pretas e cabelo punk tomam uma cerveja. Em frente, um painel preto com uma caveira branca desenhada anuncia uma loja. Nas prateleiras, skates, quase todas as roupas na cor preta, botinas e adesivos espalhados por todo o galpão. Na música ambiente, Sex Pistols e Bad Religion. Não, não estamos em uma galeria de rock. O cenário é da sede do St. Pauli, clube da segunda divisão alemã que ganhou fama mundial por ter uma torcida que carrega bandeiras políticas e sociais.

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A popularização do clube, fundado em 1910, ocorreu a partir da década de 1980, quando emergiu no bairro homônimo, conhecido por sua vida noturna, uma cultura independente ligada a movimentos como o punk rock e o anarquismo. O clube então passou a ser reduto de pessoas que compartilhavam o mesmo ideal, formavam a mesma cultura e condenavam práticas como o racismo, o machismo e a homofobia, e criticavam o capitalismo. Não à toa, o clube foi o primeiro a banir oficialmente grupos de extrema-direita entre seus torcedores.

Na época, o clube tinha poucos seguidores e dificilmente conseguia ultrapassar a marca de 5 mil pessoas em suas partidas no Estádio Millerntor. Flutuava entre a segunda e terceira divisões do país e precisava de uma virada para se fortalecer. O movimento de torcedores configurou-se na oportunidade perfeita, e o clube assumiu a identidade de um time com postura política, engajamento social e cultura alternativa. Na década de 90, ganhou mais fãs, passou a encher estádios e fortaleceu-se no futebol alemão. O clube disputou a Bundesliga, primeira divisão alemã, na temporada 2010/2011.

“A política também faz parte do futebol. Essa é a diferença do St. Pauli para os outros clubes. Nós estamos interessados também em discutir questões sociais e defendemos todos aqui no nosso estádio. Utilizamos o humor para questionar o capitalismo, o racismo e a homofobia”, explica o pedagogo social Claus Teister, que trabalha como chefe das categorias de base do clube.

Nesta semana, o clube organiza o Antira 2012, mistura de campeonato e fórum para discutir o papel do futebol em questões políticas. Antira é uma abreviação de “antirracista”. “São 40 times formados por pessoas que têm visões parecidas sobre o futebol e o enxergam como parte de um processo político e social”, disse Teister. Um festival de rock encerrará o encontro.

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Caveira ganha o mundo

Junto ao movimento de torcedores que transformou o clube na década de 1980, um símbolo extraoficial virou uma marca conhecida mundialmente: a caveira com ossos entrelaçados. A figura aparece em quase todos os produtos licenciados pelo clube e ajuda a explicar o sucesso na expansão da imagem do St. Pauli.

Em uma tarde de terça-feira, a loja oficial do clube recebia grande movimento. Além de consumidores usuais, como punks da região, muitos turistas passavam pelo local em busca de objetos do “time da caveira”. Novos torcedores, surgidos por aproximação de cultura e ideais, também marcavam presença.

“Eu passei a acompanhar o St. Pauli porque é um time cult, tem um espírito diferente”, disse Guido Lienhard, morador de Zurique e admirador do clube. “Qual outro clube é simbolizado com uma caveira?”, questiona, enquanto procura na loja uma nova camiseta.

O desenho da caveira surgiu pelas mãos dos torcedores na década de 1980 e fazia referência à pirataria (Hamburgo é uma cidade portuária). A mensagem fortalecia a identidade criada pelo clube, de “pobres contra ricos” e “trabalhadores contra patrões”. Houve resistência de torcedores mais tradicionais no começo, mas o desenho passou a ser a marca das arquibancadas do Estádio Millerntor.

Fãs então passaram a fabricar e comercializar produtos com o símbolo, apenas adotado extraoficialmente pelo clube na década de 1990 em um acordo com o grupo que os comercializava. Hoje, o St. Pauli tem os direitos de utilização da marca e recebe o dinheiro proveniente das vendas.

Em campo, no entanto, a regularidade ainda não veio. Depois de uma temporada na Bundesliga em 2010/2011, o clube terminou a segunda divisão alemã na quarta posição e permanecerá mais uma temporada longe da elite. A fama, porém, só tende a aumentar.

Curiosidades

– O clube entra em campo com a música Hells Bells da banda AC/DC, e toca Song 2, do Blur, a cada gol
– A sede do clube fica a poucos metros do distrito “red light” (luz vermelha) de Reeperbahn, conhecido por suas casas de prostituição e strip clubs
– Desde 2009 o clube tem um código de princípios, no qual reafirma a identidade criada por seus torcedores
– O clube tem dois rivais: o Hamburgo, por ser da mesma cidade, e o Hansa Rostock, conhecido por ter grupo de torcedores neonazistas
– Integrantes de bandas como Bad Religion, Sisters of Mercy e Asian Dub Fundation já se declararam fãs do St. Pauli

 

 

Fonte: Terra

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