Como enxergar ‘as mandingas que a gente não vê’ no jeito de pensar História

Francia Márquez (Foto: Natália Carneiro/Geledés)

A gente foi acostumado a estudar História de uma maneira curiosa. De repente, dizem que apareceu um moço de sangue azul gritando à beira de um riachinho com uma espada na mão e que isso era algo muito relevante. Outra história bem conhecida é aquela da princesa que, em um certo dia de maio, assinou uma lei excepcional com uma pena de ouro. Pronto. Estava feita a mágica de mais um fato que não poderia ser esquecido. Sei que vocês vão lembrar de muitas histórias parecidas com essas nas quais o enredo é o mesmo: do nada, aparece uma criatura que faz algo extraordinário e entra para os livros. Pois é. Mas História não é nada disso.

Trata-se de um modelo antigo de construir narrativas históricas que dão ênfase ao papel de certos indivíduos que parecem ser figuras “fora da curva” ou “além de seu tempo”, donas da capacidade de provocar mudanças radicais na vida das sociedades. Esse tipo de construção está superado na historiografia e já ficou para trás na prática profissional de historiadoras e historiadores.

Contudo, a ideia de que só essas pessoas “especiais” podem fazer História ainda está presente no senso comum e tem muita força. Quem insiste em achar que só “gente excepcional” entra para os livros de História ignora o fato de que, na verdade, estamos diante do resultado de inúmeros processos. Ações, alianças, tensionamentos e movimentos, aparentemente de pouca eficácia, realizados por um sem número de pessoas “pouco importantes” que, juntas, fizeram com que determinados eventos parecessem, literalmente, “explodir” no fluxo do tempo. Há muitas forças operando nesse mundo sem que a gente as enxergue.

“A vida não é só isso que se vê”

Como é que chegamos a determinadas situações que culminaram no aparecimento de pessoas – que parecem ser distintas de tudo que se viu até ali – e suas ações foram capazes de provocar transformações na vida de todos e todas? Você, leitor/a, já parou para pensar que as coisas podem ter conexões ou compartilhar temporalidades que somos treinados para não ver? Por isso somos tomados de surpresa quando ocorrem eventos, e aparecem personagens, supostamente impossíveis. São as mandingas que a gente não vê , como canta Zeca Pagodinho em “Minha fé”.

Enquanto historiadores, nosso maior esforço de letramento histórico deveria ser ajudar os outros a enxergar, de modo geral, os eventos e suas possíveis correlações e, de modo particular, suas trajetórias no tempo e no espaço. E isso a partir dos múltiplos atores que dele participam. Complicou? Não é essa a ideia. Vejam só.

Francia Elena Márquez, recém eleita vice-presidenta da Colômbia, trabalhou na mineração durante a adolescência. Depois, presidiu a Associação de Mulheres Afrodescendentes de Yolombó e fez graduação em Direito com a intenção de atuar em defesa dos direitos das comunidades contra as mineradoras, custeando seus estudos com seu trabalho em serviços domésticos. Trata-se de uma figura incrível, sem dúvida, mas está longe de ser única.

Márquez é, em certa medida, a expressão de outras trajetórias construídas a partir de um campo vasto de experiências em comum, forjadas na luta pela produção de uma cultura política em disputa permanente com a injustiça, a desigualdade e o silenciamento de muitas e muitos “ninguéns”.

Quando afirma que é “parte daqueles que alçam a voz para parar a destruição dos rios, florestas e planaltos”, Francia Márquez está reivindicando suas conexões com a luta em defesa do meio ambiente em escala internacional. Quando diz que é “parte de uma história de luta e resistência” ancestral, suas ligações ficam ainda mais evidentes com inúmeras existências em defesa da liberdade e do direito de existir com dignidade para descendentes de africanos/as em toda a região.

Só para dar a medida do que se está enfrentando, dados do Banco Mundial de 2021 revelam que uma mulher colombiana tem quase 2 vezes mais chances de estar desempregada que um homem; um indígena recebe 2 anos a menos de escolaridade que outros cidadãos não-índios e que, comparados com brancos, negros tem o dobro de possibilidades de viver em um bairro pobre.

“Um novo modo de viver, sonhar, cantar e sofrer”

Figuras como Francia aparecem ao nosso alcance com mais frequência do que imaginamos. Já ouviram falar de Almerinda Farias Gama, mulher negra sindicalista e militante do movimento pelo voto feminino?

Em 1937, ela chegou a disputar uma vaga de deputada pelo Rio como “advogada consciente dos direitos das classes trabalhadoras”. Antes disso, em 1933, foi uma das primeiras mulheres a participar da indicação de integrantes da Assembleia Nacional Constituinte, na condição de representante classista. Nascida em Alagoas em 1899, Almerinda trabalhou como datilógrafa e escreveu crônicas na imprensa no Pará, onde viveu até 1929. Após se mudar para o Rio de Janeiro, formou-se em Direito e chegou a presidir o Sindicato dos Datilógrafos e Taquígrafos. Também foi uma das lideranças da FBPE (Federação Brasileira do Progresso Feminino), entidade dedicada à defesa dos direitos políticos das mulheres.

A trajetória de Almerinda guardar afinidades com a de Francia e expressa dimensões de muitas histórias de enfrentamento que atravessam fronteiras e gerações. Não foi eleita, mas Antonieta de Barros foi. Ainda em 1934, ela se tornou deputada estadual por Santa Catarina. Por isso, ela é a primeira parlamentar negra do país. Nascida em 1901, a filha de mãe liberta se tornou professora. Na defesa da educação, encontoru uma estratégia de inclusão. Criou curso de alfabetização, escreveu crônicas na imprensa em que falava da educação à condição feminina.

Cito Almerinda e Antonieta, mas poderia fazer uma lista de outras mulheres parlamentares — negras e indígenas — cujas trajetórias iluminam dimensões similares e guardam sua maior força no esforço coletivo dos processos que lhes sustentam politicamente. Seja nas aldeias, nos quilombos, nas comunidades, nas universidades, nas ruas e em todos os lugares onde se faça necessário ocupar territórios essenciais à existência.

No Brasil, a representação da população negra e indígena ainda é restrita, mas estamos diante de um processo que se revela longevo no enfrentamento da superação dessa condição. Por um lado, é o que mostra o “Quilombo no Parlamento”, uma iniciativa da Coalizão Negra por Direitos, para lançar mais de 100 pré-candidaturas negras para as próximas eleições. Em outra ponta e no mesmo fluxo de uma correnteza que parece convergir, os movimentos indígenas realizam ações similares. Em abril/2022, durante o Acampamento Terra Livre foram lançadas, coletivamente, cerca de 30 pré-candidaturas indígenas com ampla maioria de mulheres.

Lembra, leitor(a), do que falei sobre não existirem personagens mágicos que surgem repentinamente para inscrever seus feitos nos livros de História? É disso que estou falando: eles nascem justamente destes processos em movimento. Há muita força, sobretudo, em projetos que atendem pautas coletivas e que atendem a interesses mais amplos, como os de bem viver e de mundos novos. É sobre empoderar coletividades, não indivíduos. Isso ocorre justamente por serem iniciativas que carregam ancestralidades de fundas raízes. Trata-se de uma construção complexa e difícil, que avança em uma velocidade peculiar, mas sempre adiante. É como canta Paulinho da Viola em Timoneiro: “A onda que me carrega, ela mesma é que me traz”.

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