Como prevenir a violência contra mulheres

13/03/26
  • Empoderamento econômico é efetivo contra violência por parceiros íntimos
  • Abordagem longa e estruturada em escolas tem grande potencial transformador

Neste mês que deveria ser de celebração, pelo Dia Internacional da Mulher, o tema da violência segue em alta. A indignação coletiva se intensificou com casos recentes, como o estupro coletivo no Rio de Janeiro, a trend “caso ela diga não” no TikTok e o abusador de uma menina que foi absolvido por tribunal em Minas Gerais.

As notícias se multiplicam e não é de hoje. Em 2025, foram registradas 1.568 vítimas de feminicídio no Brasil. No ritmo que vai, 2026 não deve ter estatísticas mais animadoras.

Continuar noticiando é importante, pois a mobilização social é um primeiro passo para a mudança. Garantir punição adequada para infratores faz parte da estratégia de combate à violência de gênero, mas infelizmente não é suficiente para evitar que continue ocorrendo.

A prevenção depende de uma série de ações que precisam ser executadas de forma articulada e sistemática. O problema, que é mundial, já foi analisado e enfrentado pelas mais diversas frentes.

Uma revisão de literatura publicada em 2020 pela UK Aid, agência do Reino Unido de ajuda externa, sintetizou as principais evidências científicas a respeito do que funciona para prevenir violência contra mulheres e crianças (“What works to prevent violence against women and girls?“). A revisão incluiu quase uma centena de avaliações de impacto de intervenções realizadas em países de baixa, média e alta renda.

De acordo com os achados, alguns tipos de intervenções são comprovadamente mais efetivos para reduzir os diferentes tipos de violência de gênero, quando bem desenhadas e implementadas.

Programas de transferência de renda mostraram-se bem-sucedidos para prevenir casos de violência praticada por parceiro íntimo, principalmente quando combinados com condicionalidades, tais quais as do nosso Bolsa Família. O mesmo ocorre para a combinação de intervenções de empoderamento econômico e social para mulheres, como políticas de microcrédito, com programas de formação sobre igualdade de gênero.

Portanto, programas que contribuem com a independência financeira das mulheres estão entre os mais efetivos para evitar que elas sofram violência por parceiros íntimos.

Outros tipos de intervenções também apresentam evidências robustas de sua efetividade, como programas de comunicação e resolução de conflitos com casais, treinamento de habilidades parentais, tratamento de abuso de substâncias e fortes campanhas comunitárias para mudança de normas sociais.

Por outro lado, há também programas que não se mostram capazes de reduzir comportamentos violentos, como campanhas de marketing social, que só fazem sentido se utilizadas como parte de uma estratégia mais abrangente.

Pensando na formação das próximas gerações, programas educativos sobre gênero e relacionamentos que ocorrem dentro das escolas apresentam grande potencial transformador, principalmente quando a abordagem é longa e estruturada. Não é uma palestra pontual sobre porque não se deve bater em meninas ou forçar interações sexuais que vai ser suficiente para protegê-las.

A prevenção à violência de gênero deve ser encarada como prioridade de forma multissetorial, adaptando e escalando ações que funcionam em diferentes contextos. Enquanto isso não for feito, vamos continuar lidando rotineiramente com notícias difíceis de ler.


Priscilla Bacalhau – Doutora em economia, consultora de impacto social e pesquisadora do FGV EESP CLEAR, que auxilia os governos do Brasil e da África lusófona na agenda de monitoramento e avaliação de políticas

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