Consciência Negra: Uma pratica ou estado de espirito?

Por Reginaldo Bispo

Consciência é um estado puramente reflexivo, resulta da apropriação da informação, sendo um reflexo dela, ou consiste em fazer-se uso dela, defender e modificar essa realidade? Seria a consciência, permanente e cumulativa, sofreria retrocessos ou manifesta em espectro oscilantes, em razão das crises de nossos dias? De identidade, compromisso e responsabilidade.

Bastaria o conhecimento para se estabelecer a consciência, ou seria necessário o pertencimento, a vontade, a responsabilidade e o compromisso de agir para preservar ou transforma-la?

Quais são os atributos da Consciência?

Hoje, 20 de novembro, Dia Nacional da Consciência Negra, data que lembra a morte de Zumbi dos Palmares em 1695, líder libertador do povo palmarino, na Serra Barriga em AL.

O I Congresso Nacional do MNU – Movimento Negro Unificado, em 1979, propôs, e foi adotado por todo o Movimento Negro brasileiro, entretanto, a inspiração de comemorar o “20 de novembro” ao invés de “13 de maio”, data da abolição, é devida ao militante do MN e poeta gaúcho Oliveira Silveira, nos anos 70.

No inicio daquela década, o Grupo de Teatro Palmares teve contato com o também gaúcho Décio Freitas, autor do livro O Quilombo de Palmares, dai a inspiração e proposta da troca da data por Oliveira. Que também participou do Grupo que editou a Revista Tição e do MNU-RS, a partir de 1981.

Em 1975, os grupos negros existentes, passam a realizar suas atividades no “20”, ganhando unanimidade com a proposição do MNU em 1979.

Muita água rolou embaixo da ponte, se naquele momento, o MN se empenhava em desmascarar o mito da Democracia Racial, e demonstrar com fatos, que a violência policial, o desemprego e o sub emprego históricos, bem como a pobreza e as diferenças salariais eram indicadores da existência no Brasil de um racismo encoberto, porém tão ou mais nefasto do que os explícitos regimes racistas dos EUA, de desenvolvimento em separado, que impedia qualquer desenvolvimento, ou o Apartheid na África do Sul, que pela segregação, estagnavam aquelas sociedades negras.

O paternalismo hipócrita, judaico cristão português, contaminou as elites intelectuais, politicas e econômicas brasileiras, sob a afirmação de que aqui vigia uma harmonia de raças. Alguns, até hoje, no máximo admitiam a existência de um racismo cordial.

Essa hipocrisia respondia a uma necessidade das elites, desenvolvida pela academia, uma vez que nos intestinos do sistema, trabalhava-se com os métodos, tática e expectativas, de consolidação da estratégia de hegemonia de uma sociedade semelhante nos valores, na cor e na cultura europeia.

Célia Maria Marinho, historiadora da Unicamp, mostra em seu Onda Negra, Medo Branco, a violência planejada pelas instituições estatais e suas elites, entre 1840 e 1900, para consolidar de vez o projeto de nação surgido em 1808, com a chegada da família real, para os herdeiros da monarquia e para as oligarquias escravistas.

José Julio Chiavenatto, jornalista de Ribeirão Preto, prova-o em seus livros O Negro da Senzala à Guerra do Paraguai e em Genocídio Americano, A guerra do Paraguai – a eficiência desse projeto, com a destruição de uma nação indígena livre, e o genocídio do povo negro no Brasil, ambos crimes hediondos de lesa humanidade, que não cessou até hoje.

Os movimentos negros brasileiros tem conhecimento e consciência disso? Até que ponto o incorporam, identificam e se apropriam dela como elemento comum de pertencimento, na construção da identidade de povo negro?

Era para essa consciência transformadora que Franz Fanon, em seu Peles Negras e Mascaras brancas, nos alerta.

Se queremos combater o genocídio e a dominação racista, nossa consciência terá que superar o imediatismo e a soberba do conhecimento pelo conhecimento. Deverá reconhecer-se e ter a responsabilidade e o compromisso da apropriação e do pertencimento dessa jornada comum que nos trouxe aos dias atuais, e que nos conduz a outros e novos tempos históricos.

Deverão abrir-se, acuidar-se e vivenciar as novas realidades e praticas, que seguem dissimulando e nos dividindo, em posições ideológicas que não se atinam as nossas dificuldades, mas que seguem beneficiando o inimigo. O paternalismo e a hipocrisia permanecem nas táticas manipuladoras das intenções e das praticas das elites brancas e racistas.

O Brasil é o unico pais onde 100% das pessoas admitem a existencia do racismo, mas ninguém admite-se Racista. Pelo discurso e propaganda dos governos e partidos (todos muito preocupados com a situação dos negros!???), quem não tivesse nenhum conhecimento do Brasil, mas tivesse vivido sob o racismo nos EUA e na África do Sul, pensaria que todos os problemas de ordem racial teriam sidos resolvidos, tamanho o proselitismo, porém apenas meia hora de circulação pelas cidades, empresas, repartições publicas, notaria a fantasiosidade do discurso, identificando 1001 maneiras de manifestação da dominação racista.

Os projetos políticos eleitorais individuais de inúmeros candidatos negros, surgidos do nada e sem relação com o movimento coletivo concreto, seriam expressão de consciência? E os alinhamentos políticos partidários, objetando conquista, manutenção e alternância de poder, movidos a marqueteiros, sem compromisso e responsabilidade com mudanças na realidade racista, seria consciência negra?

As dezenas de cargos ocupados por “militantes negros” são a expressão de nossa consciencia e protagonismo, uma demonstração dos nossos avanços e conquistas?

Não, CONSCIÊNCIA NEGRA é apropriar-nos coletivamente dessa experiencia de vida comum, comprometer-e com ela construindo um Projeto de nação pluri-racial e multicultural, verdadeiramente democrático, que reconstrua a confiança e a solidariedade do nosso povo (aqui incluo negros, indígenas, mestiços sem identidade, e brancos marginalizados pelas elites capitalistas e racistas) onde ninguém se sinta excluído, onde sejamos todos iguais em direitos e humanidade, tendo nossas diferenças respeitadas e liberdade como garantia.

Nos 317º aniversario da morte do heroi negro ZUMBI, constata-se que, se avanços houveram, foi graças o empenho do MN, de muitos negros anonimos que com sacrificios pessoais, com sofrimento ou prazer, empenharam suas vidas na luta por um lugar historico para o negro na sociedade brasileira. Entretanto, a maioria dessas conquistas estão seriamente ameaçadas, pelas atuais medidas governamentais e partidarias, manipuladas, paliativas, demagogicas e não funcionais, a maioria tolhe e retarda as conquistas reais do nosso povo.

Nesse Dia de Zumbi de Palmares, façamos como ele, busquemos menos vantagens oportunistas e individuais, persigamos os projetos coletivos que cessarão com os assassinatos genocidas dos jovens negros, pela policia e o estado elitista e racista. Construamos uma base de confiança e solidariedade, um programa de compromisso, e defesa dos nosso povo. O contrario disso é a servidão voluntária e escravista perpetuada. Isto não é consciência, não homenageia negras e negros, muito menos a memoria de Zumbi dos Palmares. É TRAIÇÃO AO NOSSO POVO! Campinas, 20/11/2012.

Reginaldo Bispo – Coordenador nacional de Organização do Movimento Negro Unificado, e membro da Fração Publica MNU de Lutas, Autônomo e Independente

Fonte: Africas.com

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