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Conversas mostram como uma advogada e um PM obstruíram as investigações sobre a morte de Marielle

ÉPOCA teve acesso ao relatório final da investigação, composto por depoimentos, grampos telefônicos, celulares e documentos apreendidos, que mostra como a obstrução da investigação foi arquitetada

Por Aguirre Talento, da Revista Época

O PM Rodrigo Jorge Ferreira, o Ferreirinha negocia sua rendição e é preso (Foto: Fabiano Rocha / Agência O Globo)

Policial militar e ao mesmo tempo miliciano, Rodrigo Jorge Ferreira, comunicava-se pelo aplicativo WhatsApp com sua advogada, Camila Moreira Lima Nogueira, enquanto ela conduzia uma reunião informal com um delegado da Polícia Federal na Superintendência da PF do Rio de Janeiro. Ferreirinha, como era conhecido, orientava a advogada a apresentar informações para comprometer seu ex-chefe de milícia e agora desafeto, o também miliciano Orlando Oliveira de Araújo, o Orlando Curicica, que na época estava preso na penitenciária Bangu 9, no Rio. O encontro, ocorrido na manhã do dia 18 de abril do ano passado, representaria um momento decisivo nas investigações sobre o assassinato a tiros da vereadora do PSOL Marielle Franco, ocorrido exatamente um mês antes.

A advogada Camila relatou alguns crimes relacionados a Orlando. O interesse deles era forçar a transferência do miliciano para um presídio federal de segurança máxima, porque Ferreirinha tinha medo de que seu ex-chefe ordenasse seu assassinato de dentro da prisão de Bangu 9. Mas nenhum desses crimes interessou ao delegado da PF, porque eram de competência da Justiça Estadual. O miliciano, então, tirou uma fantasiosa carta da manga e enviou uma mensagem para a advogada: avisou que tinha informações sobre o caso Marielle. “Existiria uma lista de pessoas a serem mortas por Orlando, que ele estaria mandando matar de dentro do presídio”, foi o recado de Ferreirinha, segundo as palavras de sua advogada. “Marielle estaria também nessa lista”, relatou Camila. A informação imediatamente despertou interesse do delegado da PF Hélio Khristian Cunha de Almeida, que ouvia atentamente a advogada. E mudou o rumo das investigações do caso Marielle, mas para o lado errado.

Interessado em ouvir o relato de Ferreirinha, o delegado da PF pediu à advogada que levasse seu cliente à Superintendência. Mas o miliciano tinha medo de ser uma armadilha e sair de lá preso. Hélio Khristian, porém, garantiu que nada aconteceria e que o miliciano estaria protegido dentro da PF. A advogada enviou um áudio do delegado a Ferreirinha. “Você vem com ele, que não tem problema algum”, garantiu Hélio ao miliciano. No dia 24 de abril, Ferreirinha foi à PF prestar um inusitado depoimento informal ao delegado da PF Hélio Khristian e deu novos detalhes sobre o envolvimento de Orlando Curicica no homicídio de Marielle, acrescentando a participação do vereador Marcelo Siciliano (PHS) na história. Ferreirinha foi encaminhado como testemunha-chave do caso à Delegacia de Homicídios (DH), da Polícia Civil do Rio, e se tornou a principal linha de apuração do caso.

Um ano depois do ocorrido, um inquérito aberto pela Polícia Federal por ordem da procuradora-geral da República Raquel Dodge, para apurar a obstrução nas investigações do homicídio de Marielle, concluiu que Ferreirinha e sua advogada Camila criaram uma trama fantasiosa com o objetivo de atrapalhar as investigações sobre os verdadeiros autores da morte da vereadora. Seus depoimentos desviaram o foco dos investigadores por meses e contribuíram para a impunidade dos autores do homicídio. ÉPOCA teve acesso ao relatório final da investigação, composto por dezenas de depoimentos, grampos telefônicos, celulares e documentos apreendidos, que mostra como a obstrução da investigação foi arquitetada. Para além disso, em suas 592 páginas de relatório, assinado pelo delegado Leandro Almada da Costa, a PF apresenta indícios que apontam o conselheiro afastado do Tribunal de Contas do Estado do Rio (TCE-RJ) Domingos Inácio Brazão como o principal suspeito de ser o mandante do assassinato, relata atitudes possivelmente ilícitas de policiais militares, civis e federais do Rio, incluindo envolvimento em atos de corrupção, e mostra como a criminalidade organizada está infiltrada nos órgãos de segurança do Rio.

As provas colhidas pela PF serão decisivas na possível federalização das investigações do caso Marielle. No último dia 30, o Superior Tribunal de Justiça (STJ) autorizou o envio dessas provas à procuradora-geral Raquel Dodge, que vai analisar se há envolvimento de Brazão e se o caso precisa ser investigado fora dos órgãos estaduais de Justiça.

Marielle Franco, vereadora eleita pelo Psol, foi a quinta mais votada do Rio (Foto: Márcia Foletto / Agência O Globo)

Conflito

Orlando Curicica dominava a milícia da região de Jacarepaguá, zona oeste do Rio, e conheceu Ferreirinha quando este mantinha uma empresa que vendia sinal clandestino de TV a cabo na região –prática conhecida como Gatonet. No final de 2015, Curicica entrou em conflito com Ferreirinha porque queria uma participação nas suas atividades de TV clandestina. Curicica afirma que Ferreirinha era dono de uma milícia no bairro de Taquará, na região do Jacarepaguá, e lhe pediu ajuda para recuperar a área, que havia sido invadido por traficantes de drogas. Resolvidas essas questões, o policial militar foi convidado por Curicica para integrar sua milícia e passou a ser responsável pelo recolhimento dos pagamentos de moradores, referentes a outros serviços como entrega de gás, transporte alternativo, venda de cigarros paraguaios, distribuição de água e taxa de segurança. Ferreirinha teria cedido até mesmo uma viatura da PM, descaracterizada, para os deslocamentos pessoais de Curicica, que já tinha um mandado de prisão contra si na época.

Em 2017, os dois romperam relações. Curicica afirma que se afastou de Ferreirinha porque soube que ele estava pagando suborno a traficantes para operar o Gatonet em um morro da Zona Oeste e usando seu nome para cobranças de agiotagem. Quinze dias após o rompimento, a Polícia Civil deflagrou uma operação para prender Orlando na casa onde estava escondido. O miliciano imediatamente considerou que seu antigo parceiro delatou seu esconderijo, porque somente três pessoas, incluindo Ferreirinha, sabiam onde ele estava –as outras duas foram presas com ele na mesma ocasião. Desde então, Ferreirinha passou a temer que Curicica encomendasse a sua morte de dentro do presídio de Bangu 9. Foi na ocasião do homicídio da vereadora do Psol, então, que o PM miliciano pensou ter chegado a oportunidade para complicar a situação do antigo parceiro e conseguir transferi-lo para um presídio federal.

Foi assim que se deflagrou a trama para obstruir as investigações do caso Marielle. A advogada Camila Moreira confirmou a armação em seu depoimento à PF, mas ressalvou que criar o vínculo de Curicica com o caso Marielle não estava nos planos iniciais. Ferreirinha tinha listado quatro fatos criminosos que poderiam ser imputados ao miliciano e foi com base neles que a advogada buscou um amigo, Marcus Vinicius Furtado, para marcar uma reunião com delegado da PF Hélio Khristian, com quem tinha relações.

“Rodrigo até então jamais tinha falado ou comentado qualquer tipo de envolvimento de Orlando da Curicica com o crime de Marielle, bem como nunca foi citado o nome do vereador Marcelo Siciliano”, explicou Camila. Tratava-se, inicialmente, de abrir um canal com a PF para que fosse instaurada uma investigação federal contra o desafeto. A primeira reunião com o delegado, realizada em 18 de abril do ano passado e confirmada pelo registro de entrada de Camila na Superintendência da PF, ocorreu sob a orientação de Ferreirinha por meio de mensagens no aplicativo WhatsApp. Até então, ele tinha medo de ir pessoalmente à PF e sair de lá preso.

Prossegue o depoimento da advogada: “Quando Rodrigo percebeu que Hélio já estava desinteressado no caso, mandou uma mensagem dizendo que a declarante poderia falar com Hélio que ele teria informações sobre o ‘Caso Marielle’, dizendo que existiria uma lista de pessoas a serem mortas por Orlando, que ele estaria mandando matar de dentro do presídio, sendo que ele seria uma dessas pessoas e que Marielle estaria também nesta lista”. O delegado da PF perguntou qual seria o vínculo entre a vereadora e o miliciano e Ferreirinha incluiu um novo personagem na trama: o vereador Marcelo Siciliano.

Depois, no dia 24 de abril, Ferreirinha foi à PF prestar um depoimento informal e acrescentou novos detalhes à trama fantasiosa sobre o duplo homicídio, que foram constatados como falsos pela PF. A própria advogada admitiu ter sido enganada e disse acreditar que haveria algum personagem mais importante por trás de Ferreirinha. “Depois de tudo que passou e presenciou, tem a certeza de que Rodrigo fez uma ‘manobra’ pedindo o seu surgimento como testemunha do ‘Caso Marielle’ pela Polícia Federal, e que provavelmente isto tenha ocorrido por ordem de outra pessoa, pois acredita que ele não detenha capacidade intelectiva para tanto”, afirmou Camila em depoimento à PF.

Investigações

Uma das linhas de investigação da PF era de que pessoas mais poderosas tinham tentado desviar o foco da investigação por meio de Ferreirinha. Um dos suspeitos disso era o conselheiro do TCE Domingos Brazão, por causa da sua ligação com os personagens envolvidos na história. O delegado da PF Hélio Khristian, responsável por tomar o primeiro depoimento informal de Ferreirinha, mantinha amizade com o agente da PF aposentado Gilberto Ribeiro da Costa, que foi assessor de Brazão no TCE. Os investigadores suspeitavam que, de alguma forma, Gilberto tivesse plantado Ferreirinha na investigação a pedido de Brazão.

O inquérito da PF, porém, não encontrou provas de que Brazão atuou na obstrução do caso Marielle. As conversas mantidas entre Ferreirinha e sua advogada Camila interceptadas pela PF sugeriam o contrário, de acordo com o relatório. Ambos passaram a achar que foram usados por Brazão para desviar o foco do crime, mas demonstram não saber quem foi o verdadeiro mandante.

No dia 7 de fevereiro deste ano, Camila envia uma mensagem a Ferreirinha sobre a Operação Os Intocáveis, que prendeu acusados de participarem de uma milícia de Rio das Pedras conhecida como Escritório do Crime. É neste momento que eles desconfiam que podem ter sido usados por pessoas próximas ao conselheiro do TCE. Ferreirinha afirma a Camila: “Pessoal do Brazão é chegado deles também”. E em seguida reafirma: “Brazão é chegado do pessoal de Rio das Pedras”. O miliciano e a advogada passam a criticar o delegado da PF Hélio Khristian e achar que ele havia armado uma situação para tirar o foco de Brazão. “Usaram nós dois”, comenta Ferreirinha. Camila complementa: “Para desviar atenção de quem era”.

A análise da PF é que a conversa isenta Brazão, porque Ferreirinha e Camila não tinham conexão com o conselheiro do TCE. “Ora, desse confuso raciocínio de ambos, as únicas deduções lógicas seriam, em primeiro lugar, ambos não sabem efetivamente quem seria o mandante do crime, o que demonstra a falsidade da narrativa de Rodrigo Ferreira e, em segundo lugar, que o surgimento da ‘testemunha’ não se deu por iniciativa de Domingos Brazão ou por articulação originada de Hélio Khristian, do contrário obviamente saberiam e não estariam tecendo tais exercícios de raciocínio”, diz a PF.

No inquérito, a PF obteve interceptações telefônicas que citariam conexões de Brazão com os milicianos do Escritório do Crime. Essas provas foram enviadas aos promotores do Gaeco (Grupo de Atuação Especial no Combate ao Crime Organizado), do Ministério Público do Estado do Rio, responsáveis por investigarem os autores e mandantes do crime. Com base nos diversos elementos de prova colhidos pela PF, o relatório aponta que o conselheiro do TCE é o principal suspeito de ser o mandante do crime, como revelou O GLOBO na última segunda-feira. A PF, porém, não entra no mérito do caso porque a elucidação dos motivos do crime cabe atualmente à Polícia Civil e ao MPRJ.

“Domingos Inácio Brazão é, efetivamente, por outros dados e informações que dispomos, o principal suspeito de ser o autor intelectual dos crimes contra Marielle e Anderson, o que deve ser objeto de criteriosa investigação por quem de direito, porém a postura e mensagens trocadas pelo citado casal e identificadas nas análises de seus aparelhos estão a indicar que não teve qualquer participação no surgimento desta testemunha naquela investigação”, escreveu a PF na conclusão.

No relatório, a PF também cita as conexões do conselheiro do TCE com a milícia de Rio das Pedras. “No diálogo citado, cuja análise consta em tópico específico deste relatório, Rodrigo Ferreira, miliciano conhecedor do submundo do crime carioca, comenta inclusive o curriculum de Brazão, que teria iniciado suas atividades empresariais em ‘ferro-velhos’, atuando na receptação de carros roubados, citou que ‘muito PM roubou carro para ele’, e que seria ligado ao ‘pessoal de Rio das Pedras’, ou seja, à base operacional do ‘Escritório do Crime'”, diz outro trecho da conclusão do relatório.

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