Descendentes de escravo mostram como era feito o Caminho dos Negros

Daniela Jacinto 
Escritura datada de 1874 e guardada na Cúria Diocesana comprova a posse das terras.

Percorrido a pé, de carroça, a cavalo ou carro de boi pelos escravos, pelos alforriados e, mais tarde, os libertos pela Lei Áurea, o percurso feito pelos negros em Sorocaba e região, principalmente pelos parentes de José Joaquim de Camargo, está sendo traçado pela família como forma de resgatar a história de seu povo e também delimitar seu território. A ideia é que o Caminho dos Negros, futuramente, transforme-se em um roteiro turístico-cultural, para perpetuar esse registro.

O Caminho dos Negros parte de Sorocaba, passa por Araçoiaba da Serra, segue até Sarapuí, passa por Salto de Pirapora, Piedade e termina em Votorantim, na divisa com Sorocaba. E poderá contar com o apoio da Fundação Cultural Palmares. “Soube que a comunidade está desenvolvendo esse projeto. É algo que está em formulação, mas assim que eu receber a proposta pretendo encaminhar para Brasília, onde é a sede da Fundação, para que lá tenham conhecimento e analisem a possibilidade de parceria. Pode ser oferecido apoio inclusive de recursos”, disse o chefe da representação regional da Fundação Cultural Palmares de São Paulo, Michel Yakini.

Yakini informou que já está marcada uma reunião com o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) para abril, para tratar das questões do quilombo Os Camargo, como são conhecidos os descendentes de José Joaquim de Camargo. “Iremos ajudar nesse diálogo. A única pendência é a titulação junto ao Incra, se for possível em breve a gente terá boas notícias”.

Conforme registrou a reportagem publicada no domingo passado, dia 16 de março, pelo Cruzeiro do Sul, a comunidade remanescente de quilombo Os Camargo aguarda há 14 anos por uma documentação que permitirá aos descendentes do ex-escravo serem incluídos nas políticas públicas nacionais. Trata-se do Relatório Técnico de Identificação e Delimitação (RTID), emitido pelo Incra, e que garante à família os seus direitos. Para ter em mãos esse documento, Os Camargo já passaram por uma série de etapas e agora estão na dependência de que o órgão realize a delimitação de seu território.

Histórias sobre terras, esconderijo e padres 

Desde menino ele ouvia seu avô falar sobre terras e esconderijo de escritura, quase como se fosse uma lenda. Pelo menos para ele era assim pois duvidava de seu avô e desconfiava inclusive que ele estivesse caducando. Afinal, como é que um negro que tinha sido escravo poderia ser dono de terras? E se eles eram donos de terras, como é que estavam pobres? Esse assunto ficou na cabeça de Edson Correa durante anos, até que um dia resolveu comentar com uma estudante de Direito sobre esses relatos de seu avô. O fato que não se encaixava na cabeça de Edson era essa tal escritura estar no “cartório dos padres”, como falava seu avô. A estudante logo concluiu que tratava-se da Cúria Diocesana. E lá estava o documento: uma escritura datada de 2 de novembro de 1874 comprovando que José Joaquim de Camargo (tataravô de Edson) havia comprado terras do capitão Jesuíno de Cerqueira Cezar ao preço de 400 mil réis. A escritura descreve a área adquirida, porém o faz por córregos e cachoeiras.

Como ele teria comprado? Edson explica que seu tataravô era um escravo alforriado, por isso recebia um pagamento por seus serviços. Esse dinheiro ele guardou e comprou as terras, que naquela época não eram muito caras. “Acontece que a família foi orientada a guardar o documento porque correria o risco de perder a posse das terras. Imagina se não iriam tirar das mãos dos negros, como realmente aconteceu. Então esse documento foi mantido em local seguro, pois um dia iria ficar para os descendentes”, explica Edson, que começou a entender melhor sua própria história quando encontrou o documento e teve contato com outros parentes, histórias que foram juntadas e por fim completaram o quebra-cabeças.

Mesmo de posse da escritura, a luta continua. “Chegaram a me oferecer R$ 200 milhões pra vender a escritura”, conta Edson, que não aceitou e se uniu aos primos João Fernandes e Luiz Carlos Batista de Camargo, entre outros parentes, para reivindicar a posse das terras, um total de 84 mil alqueires de extensão.

Fonte: Cruzeiro do Sul

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