Diferença da expectativa de vida da pessoa negra no RJ chega a 22 anos, dependendo do município

Dentro da Região Metropolitana do Rio, a expectativa de vida pode ter uma diferença de 22 anos, dependendo da cidade e da cor da pele. É o que aponta o Mapa da Desigualdade da Região Metropolitana, elaborado pela Casa Fluminense.

Nesta segunda-feira (13), o RJ2 mostrou que o Rio está entre as 10 metrópoles mais desiguais do mundo — outra constatação do estudo.

Segundo o levantamento, desconsiderando a cor da pele, um morador de Niterói vive, em média, 70 anos. Em Queimados, a expectativa de vida cai para 58 anos.

Uma pessoa pode ter uma diferença de até 22 anos na expectativa de vida ao nascer, dependendo da cidade onde more, ou da cor de sua pele — Foto: Divulgação

Ao analisar a expectativa de vida de pessoas que se declaram pretas ou pardas, a diferença chega a 22 anos.

Isso porque, segundo o Mapa da Desigualdade, um morador negro de Queimados vive, em média, dez anos a menos do que a população geral daquele mesmo município.

Um morador negro de Queimados, vive, em média, dez anos a menos do que a população geral daquele mesmo município — Foto: Divulgação

“Se a gente tem uma cidade desigual é porque a gente tem uma sociedade desigual. A cidade é reflexo de uma sociedade. Se a gente tem uma sociedade que na sua história se preocupou pouco com a inclusão, ela produziu uma cidade onde o pobre subiu as favelas ou foi para a periferia mais profunda. Estamos o tempo todo excluindo pobres e negros. Isso acaba fazendo com que muitas pessoas vivam o exílio da periferia”, explica Vitor Mihessen, pesquisador da Casa Fluminense.

Violência

Um dos fatores que influenciam na longevidade das pessoas é a violência. Segundo o levantamento da Casa Fluminense, a criminalidade atinge negros e brancos de formas distintas.

Em 2019, 32% das mortes violentas ocorridas na Região Metropolitana do Rio foram causadas por agentes do estado. Dentre estas vítimas, 79% eram negros.

79% das mortes violentas por agentes do estado, ocorridas na Região Metropolitana do Rio, foram de pessoas negras — Foto: Divulgação

Dados do Instituto de Segurança Pública do RJ (ISP) mostram que, de janeiro a maio de 2020, as cinco delegacias de Niterói registraram 21 crimes violentos. Já as duas delegacias de Petrópolis somaram cinco crimes violentos, nesse intervalo.

No mesmo período, foram 79, segundo a única delegacia de Belford Roxo; 89, nas três de Nova Iguaçu, e 100, nas quatro de Duque de Caxias.

“A desigualdade tem diversas consequências, e elas impactam em todos os direitos que você tenta acessar como pessoa periférica”, comentou o pesquisador Vitor Mihessen.

Emprego

Outro ponto determinante para definir a expectativa de vida da população são as condições de trabalho e o número de ofertas de emprego.

A cidade de Magé é onde se vive com a menor média salarial da Região Metropolitana, como mostra o estudo. No mesmo município, o negro recebe 8% a menos.

Diferença salarial entre brancos e negros no RJ — Foto: Divulgação

Os salários dos trabalhadores brancos chegam a ser 40% maiores que o dos negros, como foi observado na capital do estado.

Enquanto um trabalhador formal em Niterói recebe cerca de R$ 3.300, em Queimados a média é de R$ 2.400, e em Magé, R$ 1.700.

A expectativa de vida em Magé, para toda a população, é de 63 anos. Já os negros da cidade vivem até 54 anos, em média.

Saúde

O estudo mostra que a proporção de leitos hospitalares (clínicos, cirúrgicos, pediátricos e obstétricos) públicos disponíveis para cada mil habitantes varia bastante nos municípios da Região Metropolitana.

Proporção de leitos hospitalares no RJ — Foto: Divulgação

Japeri, por exemplo, não tem nenhum leito hospitalar público disponível para a população. Os moradores da cidade vivem até 60 anos, em média. Os negros, até 50 anos.

Cachoeiras de Macacu, a melhor cidade do ponto de vista de leitos disponíveis, tem 8,4 vezes mais leitos do que a lanterna do ranking, São João de Meriti.

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