Discurso de Lula em Dourados, Ponta Porã

Após cumprimentar as autoridades de Dourados, Ponta Porã e o público, o presidente da República Luiz Inácio Lula da Silva disse:

 

“Tem uma história que resulta na inauguração dessa universidade. Uma história que eu achei que tinha esquecido, mas que o Damião lembrou. Eu era presidente em 2003, a história não foi aqui em Dourados, foi quando teve uma manifestação, um ato em Campo Grande, e uma menina, quando desci do palanque , eu vou procurar fotografia dela, a assessoria da presidência com certeza tem no arquivo, uma menina, quando desci do palanque, chorando ela me disse que tinha um problema muito sério aqui em Dourados, ela cursava acho que Medicina, ou estava terminando ou no primeiro ano, e que era preciso que cuidasse de trazer pra cá, melhorias para a universidade federal, para o curso de medicina.

Eu lembro que entreguei ao Tarso Genro, que era ministro da Educação, já na época foi no finalzinho de 2003 ou 2004, entreguei um plano, o companheiro Fernando Haddad era secretário executivo, e eles então levaram a sério o pedido da menina e hoje estamos aqui para inaugurar uma série de obras na Universidade Federal da Grande Dourados. Eu não sei se essa menina está por aí, se já se formou, já deve ter se formado, não sei se ela se lembra dessa história, mas tudo aconteceu por causa de uma menina chorona, que queria estudar e parece que estava em greve, alguma coisa assim, uma dessas confusões que de vez em quando acontece nas universidades brasileiras.

Bem, mas a minha alegria de estar aqui Damião, é por outra razão. Nós estamos chegando ao final de um mandato, depois de oito anos, aonde nós conseguimos vencer, eu diria, para o bem da sociedade brasileira, uma doença chamada “preconceito” que existia nesse país.

Eu perdi muitas eleições, porque as pessoas mais pobres que eu pensava que iam votar em mim, não votavam em mim porque tinham medo de votar em alguém parecido com eles. Então imaginavam: “Se eu me considero um zé ninguém, como é que eu vou votar num zé ninguém? O que é que ele vai fazer por esse país?”.

Durante muito tempo eu fiquei com raiva, eu cada vez que perdia as eleições. Tinha uma coisa engraçada na minha vida, eu andava no interior de São Paulo, eu era candidatado a governador, encontrava gente de classe média, de carro, que fazia assim para mim (sinal com polegar pra cima), aí olhava o coitado do cortador de cana e ele fazia assim para mim (polegar para baixo), eu passava aqui nas ruas de Dourados ou de Campo Grande e olhava nas lojas, os trabalhadores faziam assim pra mim (polegar para baixo), aí cada vez que perdia a eleição eu ficava frustrado, porque era preciso encontrar um jeito de convencer as pessoas, para que aprendessem  a diferenciar o que é o conhecimento que você aprende ou o aperfeiçoamento que aprende numa universidade ou escola, do que é a inteligência que está dentro da cabeça das pessoas, sobretudo para a arte de fazer política.

Fazer política, se criou no Brasil, eu espero que com meu mandato tenha desmistificado isso, se criou a idéia de que para ser presidente, governador, prefeito e até deputado você tinha que ter diploma. Tinha que ser doutor em alguma coisa, ou fazendeiro, ou empresário, ou alguma coisa, ou seja, os de baixo não podiam nem chegar perto, a não ser para bater palma na época das eleições para os granfinos que faziam política.

Então eu penso que foram muitos anos em que a gente lutou e a gente conseguiu superar. Pra mim é muito gratificante saber que a política elegeu um índio para ser presidente da Bolívia, saber que dentro dos EUA, aonde tantos negros foram espancados e Luther king assassinado, acaba de eleger um jovem negro para ser presidente dos EUA, então companheiros é uma lição que a gente vem acumulando desde que África elegeu Mandela pela primeira vez.

Acho que o povo começou a aprender, começou a perceber a diferença entre a arte de fazer política e arte de ser bom jogador de futebol, um bom músico, um bom professor de matemática, um bom professor de química, um bom físico … O povo começou a perceber que governar é uma ciência que antes de tudo exige duas competências: Que é você saber montar equipe, e montar equipe significa que você tem que colocar pessoas que você não tenha dificuldade de tirar depois, porque se colocar gente que se acha mais importante que você vai ter mais dificuldade de tirar. E saber tomar as decisões na hora certa. Você não pode permitir, é como técnico de futebol, se o ponta direita não tá jogando bem, ou ponta esquerda, ou centro avante, você não pode deixar para os 39 minutos do segundo tempo para tirar, porque não vai resolver nada, ou você já conta com o cidadão na hora certa para ver se ele marca o gol ou então é melhor você deixar de se técnico, na política é a mesma coisa.

Pra mim é motivo de orgulho saber que estou terminando o oitavo ano de governo e que o meu ministro da Ciência e Tecnologia vai na SBPC e é aplaudido de pé pela política de ciência e tecnologia que nós colocamos em prática nesse país, porque não era do Sérgio Resende, era uma política feita pelos cientistas e que vai esse ano consumir  R$ 41 bilhões em investimento em ciência e tecnologia.

Aliás, outro dado importante é que pela primeira vez na história do Brasil, este ano, as mulheres serão maioria que se formarão doutores nas universidades brasileiras. Sempre eram os homens e agora as mulheres passaram a ser 51% e homens 49%, pela primeira vez na história do Brasil que isso acontece. E nós estamos formando mais doutores, mais mestres, estamos investindo mais, já  passamos a Rússia e a Holanda em artigos científicos publicados em revistas especializadas e o Brasil vai entrando para construir a sua revolução educacional.

Então eu fico muito orgulhoso, quando vejo meu ministro da Educação constatar uma coisa, mas primeiro, quero lembrar que tínhamos um orçamento de 20 bilhões para saúde, que agora é de 60 bilhões, ou seja, três vezes mais, o segundo é que nós proibimos utilizar a palavra gasto quando se fala em Educação, Educação é investimento não gasto. Por isso que as coisas começaram a mudar nesse país.

E terceira coisa importante que eu acho que esses companheiros fizeram na Educação foi a gente conseguir estreitar nossa relação com Educação. Nunca consegui entender, cansei de perguntar ao Fernando Haddad, cansei de perguntar ao Tarso Genro, porque que reitores, porque que os ministros da Educação anteriores, embora fossem reitores e os presidentes da República, embora fossem doutores, por que não se reuniam com os reitores. Qual era a doença pegajosa que tinham os magníficos reitores e reitoras desse país? Que os presidentes tinham medo de reitor, que os ministros da Educação, embora o último tivesse sido reitor na Unicamp, também não gostava de reitor, não gostava de reitor, de prefeito, de estudante, de trabalhador, eles não gostavam, na verdade, eles não gostavam era de governar.

Por que Deus, na sua sabedoria infinita, quando criou a nossa espécie, ele nos fez com duas orelhas e uma boca? Para a gente ouvir mais do que falar. Então as pessoas não gostam de ouvir.

Vocês se lembram que nunca um presidente da república teve coragem de ir numa marcha de prefeito, que chegava em Brasília e quem recebia os prefeitos eram soldados com cachorros policiais? Em 8 anos eu vou na marcha dos prefeitos com mais de 20 ou 30 ministros para falar com os prefeitos. Todos os anos me reúno com todos os reitores das universidades federais, mas também dos institutos, os IFETS, e os reitores do ensino médio brasileiro, ou seja, nós queremos mostrar para o Brasil que não é possível governar esse país se não entender a mega diversidade da sociedade brasileira, não compreender que temos que conhecer os mais diferentes brasis, para a gente governar iguais, mesmo que esses brasis sejam diferentes.

Por exemplo, tem uma coisa, nós fizemos a conferência de comunicação, foi uma conferência poderosa, mas agora estamos discutindo um marco regulatório para cuidar da comunicação e telecomunicação no Brasil, porque o marco regulatório que temos é de 1972 e não tem nada a ver com o que existe hoje no mundo.

Nós queremos permitir que o povo de Campo Grande continue assistindo os programas do Rio de Janeiro e São Paulo, mas nós temos que criar condições, a partir da nova regulamentação e da Tv digital, que as televisões de Campo Grande tenham programas daqui sobre a cultura de Dourados e sobre a cultura do Estado, para que o povo conheça a cultura do seu Estado. Por que é que somente o povo do interior é obrigado a ver o que acontece no Rio de Janeiro e o Rio de Janeiro não é obrigado a ver o que acontece no Mato Grosso, no Mato Grosso do Sul , no Amazonas, em Roraima? Tem que ser possível que a gente tenha essa possibilidade de diversificar e democratizar, porque senão as coisas não funcionam. E foi isso que nós fizemos na Educação.

Esse moço (Fernando Haddad), a história será responsável por fazer o julgamento de nós, de nossas ações, mas esse moço é o responsável direto por parte das evoluções, como o Prouni. E não teve vergonha de dizer que foi idéia da mulher dele, porque o homem tem essa história, da sociedade, de que tudo é do homem e da mulher não, o homem se acha mais inteligente, mais esperto… então não, ele publicamente falou pra mim que foi a sua mulher que pensou o Prouni. E o Prouni  é uma coisa genial! Tinha um imposto que as instituições não pagavam, nós apenas transformamos o imposto que eles não pagavam em bolsa de estudos para os mais pobres, para as pessoas da periferia. Hoje já são 704 mil jovens que fizeram Prouni, dos quais nós participamos em Brasília da formatura da primeira turma, 414 meninos e meninas que se formaram em médicos pelo Prouni. Aonde que eles conseguiriam se formar em Medicina se não fosse pelo Prouni?

Outra novidade criada foi o Reuni que mais que duplicou as vagas oferecidas historicamente pelas universidades federais, então essa revolução que ainda não é definitiva, nós estamos num processo, porque embora o Brasil tenha crescido, a economia melhorou, o ministro dos Transportes me disse que aqui no Mato Grosso do Sul nós investimos 2 bilhões de reais para recuperar estradas, enquanto governos anteriores se gastava 50 milhões ano, nós gastamos por ano o equivalente a 250 milhões aqui nesse Estado. No Brasil, nós estamos pagando por mês, tudo que foi investido por ano no governo passado. Então melhorou a Economia, melhorou o emprego.

Enquanto nos EUA e Europa tiveram 16 milhões de desempregados em 2008/2009, no Brasil, eu vou fechar o meu mandato com mais de 14,5 milhões de empregos criados com carteira assinada. Hoje 89% dos acordos salarias são acima da inflação, até aposentado vai ganhar aumento real de salário nesse país.

Ou seja, nós começamos um processo, que ainda falta muito para fazer, nós aprendemos o caminho, construímos a primeira trilha, que deverá ser seguida, aberta, pavimentada, consolidada, porque o Brasil nunca mais vai aceitar ser tratado como se fosse um país de segunda classe. Nunca mais vai descer aqui um homem e mulher do FMI pra dizer o que a gente tem que fazer aqui, nós não só não devemos nada a eles, como agora eles nos devem 14 bilhões de dólares, e qualquer dia, sou eu que vou mandar uma equipe minha fiscalizar FMI pra saber se está cuidando bem do nosso dinheiro.

O Brasil aprendeu a ter autoestima, aprendeu a gostar de si, antes tinha aquele negócio de “não valho nada, que não sou nada, quem é bom é não sei quem, quem vem de fora é melhor”, uma bobagem de um povo que foi historicamente colonizado, culturalmente colonizado. Eu vejo que nós aprendemos a levantar a cabeça, e isso a gente aprende no berço, não na universidade, andar de cabeça erguida a gente aprende pelo caráter, aprende dentro de casa, com o pai e mãe da gente.

Então eu gosto muito de todo mundo, gosto muito dos europeus, dos presidentes europeus, gosto muito do Obama, mas é o seguinte, nós somos iguais. Ninguém é melhor que ninguém. Eu quero que respeitem o Brasil como o Brasil respeita  todo mundo.

Então companheiros e companheiras, é com muita alegria que a gente deu mais um passo e é com muita alegria que quando chegar o dia 31 de dezembro, quando chegar a meia noite, que terminar meu mandato e vou eu poder dizer: “puxa vida, logo eu, o primeiro presidente do Brasil que não tem diploma universitário, que fui o que mais construiu universidades, extensão, escolas técnicas… Tenho muitos motivos de orgulho”.

O dado concreto é que o paradigma mudou, as pessoas sabem que vão ter que fazer mais, porque daí ninguém pode fazer menos que um peão. Porque daí eu vou estar cobrando, porque nós fizemos um novo paradigma, para reforma agrária, para as políticas indigenistas, para os quilombolas, para as minorias que muitas vezes eram tratadas como se fossem de segunda categoria nesses país, um paradigma para todos os portadores de deficiência, todos aqueles que vivem na rua, mudou o paradigma. Mudou.

O Brasil aprendeu a ser melhor do que era, e nós gostamos dele, porque acabou aquela história de achar que pobre gosta de miséria. Já em 78, Joãozinho Trinta que era um carnavalesco da Beija Flor, fazia aquelas coisas muito bonitas, ele disse que quem gosta de miséria é intelectual, o pobre gosta é de luxo.

Descobri que isso é verdade, sabe por quê? Três anos atrás a gente foi fazer uma política para diminuir o preço do material da construção civil, a gente queria reduzir impostos. Aí tinha uma lista, com tijolo, telha, cimento, os principais materiais da construção civil, mas faltava azulejo e lajota. Eu perguntei, “Companheiro, cadê o azulejo e lajota?”, aí ele falou, “Ah não, isso é coisa de rico”. Eu falei que se pobre pudesse colocava azulejo até no travesseiro, quanto mais colorido melhor. Tem que acabar com essa mania de que pobre gosta de comer mal, gosta de morar mal, de se vestir mal… Oh, gente! Pobre gosta de tudo que é bom no mundo, só dá oportunidade pra ele ter!

Eu quero dar os parabéns para vocês e agradecer aquela estudante de Medicina, anônima, eu não tenho o nome dela, que num belo dia, quando desci do palanque ela disse que tinha que fazer isso que estamos fazendo hoje. Qualquer dúvida ouça o que vem do povo que a gente acerta mais do que erra.”

Fonte: UFGD

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