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Do Quilombo à Universidade: As raízes da ativista Givânia Silva
Créditos da foto: TATIANA REIS

Do Quilombo à Universidade: As raízes da ativista Givânia Silva

A ativista denunciou poderosos do agronegócio e até hoje luta pelo reconhecimento de seus territórios. “A educação é o que pode realmente transformar a nossa vida.”

Por Tatiana Sabadini Do Huffpostbrasil

TATIANA REIS/ESPECIAL PARA O HUFFPOST BRASIL

Givânia Silva é a 196ª entrevistada do projeto “Todo Dia Delas”, um projeto editorial do HuffPost Brasil.


Ela nasceu num quilombo no sertão de Pernambuco, a 560 quilômetros de Recife. A história conta que seis mulheres escravas chegaram ali e formaram uma comunidade em busca de liberdade. Elas fizeram a promessa de que se um dia conseguissem se tornar donas do território, iriam construir uma capela em homenagem à santa de devoção. Assim nasceu Conceição das Crioulas em 1802. Assim também começa a história de Givânia da Silva, 52 anos, que se formou naquele povo, se tornou professora — a primeira da comunidade — e ativista que nunca se calou para as forças que a tentavam diminuir e que hoje é referência na luta de condições melhores para os povos quilombolas.

A terra daquelas mulheres que lutaram para conseguir seus papeis com a venda de algodão que plantavam e colhiam passou por mudanças ao longo dos anos. A comunidade cresceu, o agronegócio apareceu e os fazendeiros invadiram parte das terras. Ao lado do quilombo estava o povo indígena Atikum, onde o pai de Givânia também era descendente. “Sempre me vi, no entanto, como mulher negra, essa é minha história”, aponta. Ela cresceu para tentar ir além. “Não tive tempo de viver a adolescência, por exemplo, como menina da roça eu precisava trabalhar e ajudar em casa”.Grande parte da comunidade quilombola só estudava as séries iniciais, Givânia foi atrás, ainda que o acesso à escola fosse difícil. Fez supletivos e depois começou a ensinar dentro do quilombo. Foi a primeira a se formar como professora na comunidade.

Pra mim, tudo começa em torno da história dessas mulheres em busca de um território.

TATIANA REIS/ESPECIAL PARA O HUFFPOST BRASIL

Givânia da Silva hoje é referência na luta de condições melhores para os povos quilombolas.


Quando começou a dar aulas que ela passou a tomar consciência da própria história. “Sentia a necessidade de conhecer melhor a história de Conceição. Na época, também tinha entrado na pastoral da juventude e campanha era ‘nosso povo, nossa história’ então, fui atrás. Comecei a me perguntar o que tinha acontecido ali, ir atrás dos mais velhos e entrevistar mesmo”, conta. Nessa trajetória começou a tomar consciência de muita coisa. “Fui descobrindo que os fazendeiros que eram gente boa, que eram compadres de todo mundo, mas na verdade, tinham usurpado a terra do nosso povo”, aponta.

Para reconstruir a história do seu quilombo, alguns espinhos apareceram. Por começar a educar seu povo sobre o que estava acontecendo e por fazer algumas denúncias, ela chegou a ser ameaçada de morte. “Eu ajudei a tirar algumas máscaras, o povo não tinha ideia do quanto tinham sido enganados. Sou uma sobrevivente. No dia que Marielle (Franco) morreu eu chorei muito, ela não conseguiu sobreviver e eu ainda estou aqui. E as forças com que eu lutava eram muito poderosas”, relembra.

Tudo isso tem a ver com esse processo doido de luta, vivi minha juventude toda ameaçada de morte e sou uma sobrevivente. Só quem experimenta sabe.

TATIANA REIS/ESPECIAL PARA O HUFFPOST BRASIL

Foi quando começou a dar aulas que ela passou a tomar consciência da própria história.


O território sempre foi uma parte forte da trajetória de Conceição. “Há histórias extraordinárias como a da cabocla Agostinha que saiu a pé do quilombo pra uma audiência em Recife para conseguir os documentos”. Mas como forma de dominação, a terra foi tomada dos quilombolas. “É uma luta que tem muitas frentes e você não pode perder a esperança. Não é fácil lutar contra o racismo, um capitalismo selvagem, para plantar soja e eucalipto que sequer é consumido no Brasil. E ao mesmo tempo lidar com um latifúndio, que além de territorial é político. Tem horas que se não tiver muita perseverança, a gente acorda e não levanta”.

Givânia começou a se perceber neste meio social e se movimentar. A primeira escola, onde ela foi diretora, foi criada em Conceição em 1995. “Acredito que consegui testemunhar um dos grandes momentos de revolução daquela comunidade. Começamos a obter o nome dos nossos a contar essa história de outro jeito dentro de sala de aula. Era preciso revolucionar, educar o povo”, conta. Conceição das Crioulas é o único movimento no Brasil onde no quilombo, o professor tem que ser quilombola. “Porque nós acreditamos que queremos conduzir nossa educação. Falo com Deus sempre: ‘deixa eu ficar mais um tempo aqui pra ver outros quilombos experimentarem isso e ver o que acontece’.”

Quando eu conto a minha história tenho certeza do meu lugar no mundo enquanto mulher.

TATIANA REIS/ESPECIAL PARA O HUFFPOST BRASIL

“Tenho usado esse poder da escrita que não é ainda de todos nós.”


Para tentar ir além, ela entrou na política e foi vereadora por dois mandatos em Salgueiro para tentar fortalecer a luta quilombola, a primeira pessoa do quilombo a ocupar um cargo legislativo. Além disso, foi uma dos fundadoras da Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (Conaq), que tem sede em Brasília, para colocar o tema em pauta. Estima-se que existam mais de 6 mil comunidades quilombolas no Brasil, mas apenas metade é reconhecida pelo Estado. Hoje ela faz doutorado na Universidade de Brasília.

Em 2014, ela conseguiu celebrar uma grande conquista. “Tive a oportunidade de estar no governo e devolver as terras que eu tanto lutamos para termos de volta. Isso não tem preço. Qualquer dor, qualquer renúncia nessa hora fica pequena porque eu estou vive e superei muitas barreiras. Ajudei outras pessoas da minha comunidade a se tornarem conscientes”.

A educação é o que pode realmente transformar a nossa vida.

TATIANA REIS/ESPECIAL PARA O HUFFPOST BRASIL

Estima-se que existam mais de 6 mil comunidades quilombolas no Brasil, mas apenas metade é reconhecida pelo Estado.


Apesar de ser uma comunidade criada por mulheres, Givânia aponta que para “lá também tem machismo, mas nem sei se no céu não tem também”, brinca. “O que tem é uma história de protagonismo de mulheres que até hoje persiste e um grande pilar onde encontramos um caminho de resistência é a educação”, aponta.

Givânia que é professora no município de Salgueiro e está afastada por conta de um doutorado na Universidade de Brasília, não para. Não deixa sua militância de lado e está sempre envolvida nos movimentos quilombolas e está coordenando um livro sobre o assunto. “Tenho usado esse poder da escrita que não é ainda de todos nós. Um lugar de poder militar também dentro da academia e mexer nessa estrutura. Eu brinco que eu acordei linda assim e vim pra cá, mas isso não é nem extraordinário, não basta só estar aqui. Este lugar precisa ser mexido e é por dentro dessa estrutura hierarquizada branca e racista que é a universidade pra ajudar a ser mais humanizado e com diálogo”, reflete.

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