sexta-feira, outubro 7, 2022
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Documentário mostra a exploração do trabalho que não é vista como tal – Por: Leonardo Sakamoto

A pior relação de exploração é aquela que não percebemos como tal. É o machismo que lemos como certos cavalheirismos, a homofobia que vemos como piadinha de salão, o preconceito que sentimos em forma de dó ou pena. Porque estes não flutuam na superfície mas estão lá no fundo, cravados em nossos ossos, sob camadas e camadas sobrepostas ao longo de gerações. Tá lá, quentinho, aninhado em nossa ignorância.

Algumas relações trabalhistas seguem o mesmo padrão. Quando critico a desigualdade de direitos (direitos, não condições econômicas) que se estabeleceu na maioria das relações patrão-empregada doméstica, muitos amigos discordam. Afirmam não ser o caso deles, pois a empregada sempre foi tratada como muito respeito, sempre fez o que quis, é considerada uma pessoa da família.

Pode ser, toda generalização esconde seus demônios. Mas é exatamente aí que reside a perversidade dessas relações. O processo de exploração existe, está lá, mas não é percebido como tal. E não precisa ser reafirmado a todo momento, pois as pessoas sabem muito bem qual papel desempenhar, principalmente nas casas onde tudo parece reinar em ordem. Sabendo cada um o seu lugar, as outras relações podem ser mais fluidas e livres.

Pela Casa Grande, circulavam muitos escravos, a senhora cuidava dos bebês de cativas, mucamas eram confidentes e brincavam com as sinhazinhas, alguns escravos tinham a confiança do senhor para pegar o seu cavalo e ir resolver assuntos na cidade quando necessário. A felicidade poderia até reinar, mas – no fim – era uma liberdade assistida.

Não há como assistir ao excelente documentário “Doméstica”, de Gabriel Mascaro, que estreia nos cinemas neste Primeiro de Maio, sem pensar nisso. Tive a oportunidade de participar de um debate com o diretor, no último dia 29, durante uma pré-estréia em São Paulo. O seu objetivo não foi demonizar patrões ou santificar empregados, mas mostrar as relações muitas vezes perversas que se escondem nesse binômio – perversidade que não se manifesta na forma de maus tratos, mas na relação em si. Para isso, reuniu cenas do cotidiano dessa relação gravadas por moças e rapazes filhos dos patrões.

O que houve em 13 de maio de 1888 foi uma abolição formal do direito de propriedade de uma pessoa por outra. Mas falhamos por mais de um século para garantir certos direitos e mudar concepções de mundo, fazendo com que as nossas relações trabalhistas e sociais ainda tenham muito de herança daquela época. Alguns bradam que estamos mexendo com tradições. Tradição, vale lembrar, não é algo necessariamente construído de baixo para cima, mas pode ser imposto por alguém e justificado ao longo de gerações por mil razões a ponto de você esquecer de onde ela realmente veio.

Trabalho doméstico não é visto como trabalho, mas sim obrigação, muitas vezes relacionado a um gênero, que tem o dever de cuidar da casa. É sintomático, portanto, que apenas recentemente a Organização Internacional do Trabalho tenha conseguido que os países aprovassem direitos iguais para trabalhadores domésticos em relação ao restante da sociedade. E que, apenas agora, o Brasil tenha aprovado uma proposta de emenda constitucional para equiparar direitos das empregadas domésticas com o restante da sociedade.

Não visto como trabalho, é mais fácil não ver sentido em determinadas reivindicações. Afinal de contas, ela é como se fosse da família. Mas, com raras exceções, nunca terá os mesmos direitos da família, receberá parte da herança e participará das discussões sobre os rumos da casa.

(É como nós, jornalistas, que, devido às peculiaridades da profissão, desenvolvemos laços com o poder e convivemos em seus espaços, seduzidos por ele ou enganados por nós mesmos. E só percebemos que essa situação não é real e que também somos operários, transformando fato em notícia, quando nossos serviços não são mais necessários em determinado lugar.)

A justificativa de que, com a nova PEC das Domésticas, não haverá dinheiro disponível para pagar uma empregada que durma no emprego, pois os direitos que elas têm vai aumentar é real. Mas a mudança é necessária. Nossa sociedade foi construída para funcionar assim, tendo como base de sustentação trabalhadores de segunda categoria. Mudar isso significa um aumento no custo do trabalho doméstico que vai impactar diretamente no custo de vida de uma parcela da população, pressionando por aumento de salários de quem utiliza esses serviços e gerando demandas de mais dinheiro, mais tempo livre e mais equipamentos públicos (como creches e transporte público de qualidade para chegar antes em casa) junto a empresas e governos. Enfim, não estou dizendo que há vilões e mocinhos, as coisas são mais complexas que isso. Mas, no contexto atual, perdemos todos como sociedade.

Sugiro, portanto, que vocês assistam ao documentário de peito aberto. Julián Fuks, um dos expoentes da nova geração de escritores brasileiros, escreveu: “sabe-se há tempos que não existe estética sem política, que não existe política sem estética. Tanto a política quanto a estética podem tomar as formas mais diversas”. Quem procura extrair de um filme a estética esquecendo que ela esconde por si uma verdade política acaba voltando para casa com metade da experiência.

“Doméstica” traz esse debate e expõe essa perversidade, ora de uma forma sutil, ora como um tapa na cara. Há pessoas que ficarão irritadas com o documentário não por questões estéticas, mas, talvez, por se verem nele. E, com certeza, não será no papel de empregada.

Serviço: Doméstica está em cartaz no Espaço Itaú de Cinema Frei Caneca, em São Paulo (às 22h). E no Cine Odeon, no Rio de Janeiro (às 21h)

 

Fonte: Blog do Sakamoto 

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