sábado, novembro 27, 2021
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Dona Ruth: Festival de Teatro Negro de São Paulo

Parceiro da 3ª edição do festival que celebra a atriz, o Itaú Cultural abre a atividade com cinco dias de música, poesia, giras de conversas e criações cênicas audiovisuais de artistas indígenas e negros que transitam entre teatro, performance, dança e artes visuais

De 20 a 24 de outubro (quarta-feira a domingo), o Itaú Cultural realiza a programação de abertura de Dona Ruth: Festival Negro de Teatro de São Paulo. O evento chega à 3ª edição neste ano em que se comemora o centenário de nascimento de Ruth de Souza (1921-2019), pioneira no teatro, cinema e televisão como a primeira artista negra a conquistar projeção na dramaturgia brasileira.

Começa às 20h da quarta-feira, dia 20, com a transmissão pelo YouTube da instituição www.youtube.com/itaucultural, do show Itamares, realizado ao vivo pela cantora e compositora Anelis Assumpção no palco da Sala Itaú Cultural. A apresentação é antecedida pela performance audiovisual, pré-gravada, Centelhas de Ruth de Souza, na qual a poeta Luz Ribeiro reverencia o legado da atriz.

Nos quatro dias seguintes, a programação segue on-line, também às 20h – com exceção do domingo às 19h – na edição do Palco Virtual do Itaú Cultural integralmente voltada ao festival e realizada via Zoom. Com artistas de diferentes regiões do país, é apresentada a ação Ato Artístico, com seis criações cênicas audiovisuais de artistas indígenas e negros do Amapá, Amazonas, Mato Grosso, Minas Gerais, Pernambuco e Rio Grande do Sul, revelando formas não-hegemônicas de olhar para o mundo.

Todas as noites são encerradas com Giras de Conversa, em conversas com convidados sobre as apresentações. Os ingressos são gratuitos e devem ser reservados via Sympla. 

“Os festivais são espaços pulsantes de encontro e comunhão, extremamente atravessados pela necessidade do distanciamento social, da convivência em modo remoto. Nesse sentido, celebramos ainda mais esta edição do festival Dona Ruth e seus cruzos de linguagens, territórios e ancestralidades”, diz Galiana Brasil, gerente de Artes Cênicas do Itaú Cultural. “A curadoria fez emergir as potencialidades da vivência digital, especialmente na diluição de fronteira. Estamos muito felizes pela parceria sinérgica e inspiradora”, complementa.

Segundo o dramaturgo, ator, diretor e produtor Gabriel Cândido, idealizador do festival ao lado da atriz e produtora cultural Ellen de Paula, nesta edição foram evidenciadas complexidades estéticas e poéticas de autoria negra e indígena em dimensão nacional. “Vai ser possível observar diversas formas de linguagem das artes cênicas com o audiovisual, em um momento decisivo de transição das criações online e presenciais”, conta ele.

“A encruzilhada política, poética e afetiva que evocamos nesta edição é um ato de guerra e festa pela reinvenção da vida, sobretudo, neste momento em que são atualizadas e intensificadas as políticas de morte contra os corpos das maiorias minorizadas”, complementa Ellen.

Centelhas e Itamares
A poesia marca presença na abertura do festival, com a exibição em vídeo da performance Centelhas de Ruth de Souza, com Luz Ribeiro. Buscando manter aceso o legado da atriz homenageada, como ela mesma conta, a poeta procura refletir sobre histórias que apenas podem ser recontadas com poesia. Para ela, só uma mulher preta consegue saber e explicar o que Ruth de Souza representa para toda uma geração de mulheres pretas artistas.

Em Itamares, Anelis apresenta-se ao lado do cantor e compositor Saulo Duarte e do músico Edy Trombone para interpretar canções que a acompanharam em momentos de reflexão, saudade e medo. Como o título adianta, o repertório traz composições de seu pai, Itamar Assumpção, que a conectam tanto com suas raízes e destino, como homenageiam a música negra brasileira. É o caso de Isso Não Vai Ficar Assim, Nega Musica, Milágrimas e Mergulho Interior.

Cenas e reflexões
De 21 a 24 de outubro (quinta-feira a domingo), sempre às 20h – com exceção do domingo, às 19h –, a programação segue com a série Atos Artísticos, composta por seis apresentações virtuais, sempre seguidas da Gira de Conversas.

No primeiro dia é exibida P E Ç A, da artista e provocadora de cena Rita Rosa Lende, do Rio Grande do Sul. Híbrido de performance e teatro, a obra aborda o corpo com cor, e o corpo humano na arte contemporânea. Ela reflete, ainda, sobre a expectativa cultural lançada sobre o corpo da mulher negra e evocando as suas subjetividades e liberdades de serem o que quiserem, questionando se essa possibilidade existe. Após a apresentação, o público participa de conversa aberta sobre a performance com a atriz em bate-papo sobre o tema com Emerson Uyra, artista visual indígena.

A obra inédita Oca no Buraco Fundo, de Ziel Karapotó, de Pernambuco, conduz a atividade do dia seguinte. Criada especialmente para o festival, a apresentação mescla vídeo performance, vídeo arte e vídeo dança, construindo paisagens que são contra as narrativas de discursos hegemônicos sobre as identidades e territorialidades indígenas. Ziel, da etnia Karapotó, reflete sobre territorialização e reafirmação de sua identidade originária. A conversa, na sequência, é com a atriz, crítica e pesquisadora mineira Soraya Martins.

Duplas
Nos dias 23 e 24 são realizadas duas apresentações por noite. A primeira é da Cia Casa Circo, do Amapá, com A Mulher do Fim do Mundo. Este solo em dança teatro, de 2017, questiona, ao mesmo tempo que traz afirmações de uma mulher negra em um diálogo visceral e direto estabelecido com o seu corpo e de outros que seguem atravessando gerações flagelados socialmente. O debate posterior tem participação do jornalista, crítico teatral, dramaturgo e produtor cultural Bruno Cavalcanti.

O segundo espetáculo da noite é a performance inédita Póhutine – únicos. Criada coletivamente por 10 artistas do Mato Grosso e pensada especialmente para o festival, ela aborda questões cotidianas vivenciadas pelos membros de um núcleo familiar afro-indígena e de outros “aliados afetivos” – termo utilizado pelo líder indígena Ailton Krenak para nomear pessoas que atuam em conjunto –, sobre situações de preconceito racial vivenciadas no decorrer da vida. O termo “únicos”, do título, remete ao sentimento de que não há nada a compartilhar ou equiparar em condições socioculturais-raciais precarizadas.

A última noite do festival no Itaú Cultural, domingo, traz duas obras inéditas seguidas da “gira” com Julie Dorrico, indígena Macuxi e doutora em Teoria da Literatura. Começa com Asfixia, de Kay Sara, do Amazonas. Ela parte da reflexão de que no início dos tempos se vivia em harmonia com a natureza e hoje tudo vem da destruição e invasão de territórios antes ocupados por outros povos. A obra é uma metáfora para a realidade que se vê, em que a invenção de coisas destinadas a facilitar a vida, na verdade, são pensadas apenas para gerar lucro.

Em um mergulho ainda mais profundo na ancestralidade e em diálogo com o cotidiano, entra em cena, na sequência, Ano Que Vem Eu Vou, vídeo com dramaturgia de Dione Carlos e direção de Grace Passô. Este experimento sonoro performático dá luz à atriz, cozinheira e pesquisadora de comida afro mineira Zora Santos, guardiã de uma alquimia ancestral que aparentemente envolve cozinhar, mas vai muito além do que se sabe sobre esse universo. Ela compartilha seus conhecimentos, invocando forças e evocando memórias soterradas para que as chamas internas não se apaguem.

Parceria
A parceria do Itaú Cultural com o Dona Ruth: Festival de Teatro Negro de São Paulo foi iniciada em maio de 2021, quando, em comemoração ao centenário de Ruth de Souza, a instituição postou em seu site a carta que a atriz e produtora cultural Ellen de Paula e o dramaturgo, ator, diretor e produtor Gabriel Cândido entregaram a Ruth de Souza em 2019, falando da ideia da programação. Em sua 3ª edição, o festival tem alcance nacional, com atividades virtuais realizadas em parceria com o Itaú Cultural, o SESC SP, a Secretaria Municipal de Cultura, o Museu Afro Brasil e a Oficina Cultural Oswald Andrade. A programação completa pode ser conferida no site oficial do festival https://donaruthftnsp.com.br/.

“Para nós, tem sido fundamental o apoio institucional que recebemos do Itaú Cultural e de todas as demais instituições parceiras que constroem esta edição conosco, demonstrando compromisso no enfrentamento das estruturas que historicamente subalternizam, apagam e matam – também no campo das artes, da educação e da cultura – as presenças, as histórias, as lutas, as memórias e os saberes dos povos negros e indígenas”, conclui Ellen de Paula, uma das idealizadoras do festival.

PROGRAMAÇÃO

20 de outubro, quarta-feira, 20h

ABERTURA
Live da cantora Anelis Assumpção no show Itamares
Performance Centelhas de Ruth de Souza, da poeta Luz Ribeiro (gravada)
Duração: 120 min
Classificação: Livre

Sinopse
A cantora e compositora Anelis Assumpção, ao lado do cantor e compositor Saulo Duarte e do músico Edy Trombone, apresenta Itamares, show com canções que lhe foram companhias em períodos de reflexão, saudade e medo. O repertório apresentado faz parte do cancioneiro de seu pai, Itamar Assumpção, como forma onírica de conexão com suas raízes e destino, bem como uma homenagem à música negra brasileira.

21 de outubro, quinta-feira, 20h

ATO ARTÍSTICO 1
P E Ç A
Com Rita Rosa Lende (RS)
Após a apresentação, acontece a Gira de Conversa, com Rita Rosa Lende e Emerson Uyra, artista visual indígena
Duração: 30 minutos
Capacidade: 270 lugares
Classificação Indicativa: 16 – Cenas de nudez

Sinopse:
Um olhar sobre o corpo com cor, o corpo humano e a/na arte contemporânea. Performance que questiona a expectativa cultural lançada sobre o corpo da mulher negra em estado de artístico poético. P E Ç A divide o corpo em pedaços, como um corpo mutilado socialmente pela estrutura do carrego colonial/racismo, do machismo e da misoginia. Traz uma corpa dividido em partes, reitera a possibilidade única de uma marginalização e de um discurso de dor. P E Ç A evoca a subjetividade e a liberdade do corpo de uma mulher negra, que só quer ser/viver sua cor e sua liberdade de ser o que quiser ser de maneira literal. P E Ç A questiona: será que essa possibilidade existe?

22 de outubro, sexta-feira, 20h

ATO ARTÍSTICO 2
Oca no Buraco Fundo
Com Ziel Karapotó (PE)
Após a apresentação, acontece a Gira de Conversa, com Ziel Karapotó e a crítica Soraya Martins
Duração: 30 minutos
Capacidade: 270 lugares
Classificação Indicativa: Livre

Sinopse:
A obra inédita Oca no Buraco Fundo é uma produção audiovisual híbrida, encruzilhada entre vídeo-performance, videoarte e vídeo-dança. Por meio da corporeidade, almeja promover construções de paisagens contra narrativas aos discursos hegemônicos sobre as identidades e territorialidades indígenas na contemporaneidade. Consequentemente, sinalizar fabulações sobre o (r)existir no contexto periférico da Região Metropolitana de Recife, apresentando o lugar no qual o artista Ziel Karapotó elabora estratégias de territorialização e reafirmação de sua identidade originária.

23 de outubro, sábado, 20h

Neste dia serão exibidas duas apresentações da programação Ato Artístico. Após as apresentações, acontece a Gira de Conversa, com Naine Terena, Jones Barsou e Ana Caroline (Cia Casa Circo) e o jornalista Bruno Cavalcanti

ATO ARTÍSTICO 3
A Mulher do Fim do Mundo
Com Cia Casa Circo (AP)
Duração: 30 minutos
Capacidade: 270 lugares
Classificação Indicativa: 14 anos (cenas de nudez)

Sinopse:
O solo de dança-teatro A Mulher do Fim do Mundo é um tiro no escuro, que arremessa indagações, questionamentos, afirmações. Dentro de um estado reflexivo, uma mulher negra se depara com a existência de um corpo que respira a cada segundo para se manter de pé. Neste estado existencialista, estabelece um diálogo visceral e direto do corpo – e com os corpos –, onde, através do corpo negro e suas infinitas capacidades de afetação e do seu discurso de afirmação, valida a existência desses vários corpos que atravessa gerações flagelados socialmente.

ATO ARTÍSTICO 4
Póhutine – únicos
Obra inédita de criação coletiva (MT)
Duração: 30 minutos
Capacidade: 270 lugares
Classificação Indicativa: Livre

Sinopse:
Criação coletiva pensada especialmente para o Dona Ruth: Festival de Teatro Negro de São Paulo – 3ª edição, Póhutine traz relatos sobre o cotidiano afro-indígena. Inédito, inusitado, incomum, invulgar, insólito, inabitual, inusual, infrequente, sem precedentes, específico, Póhunite. A ideia de ser único perpassa por muitos sinônimos que foram pensados para a criação desta montagem, que transita entre o espetáculo teatral, a performance e a inserção da arte visual que se utiliza das tecnologias.

24 de outubro, domingo, 19h

Neste dia serão exibidas duas apresentações da programação Ato Artístico. Após as apresentações, acontece a Gira de Conversa, com Julie Dorrico, Kay Sara e Zora Santos.

ATO ARTÍSTICO 5
Asfixia
Com Kay Sara (AM / SP)
Duração: 30 minutos
Capacidade: 270 lugares
Classificação Indicativa: 10 anos – cenas de medo

Sinopse:
Inédito, Asfixia é uma grande metáfora para falar de outras coisas que são importantes nos tempos de hoje, quando se tem um perigo real rondando a humanidade, que está caminhando para o seu fim. A todo momento, seres humanos “criam” coisas para facilitar a vida, mas não fazem pelas pessoas, fazem pelo lucro. Hoje tem várias alternativas mais sustentáveis para produzir alimentos e outras coisas que são essenciais para a sobrevivência, mas os políticos fecham os outros e continuam com a destruição.

ATO ARTÍSTICO 6
Ano Que Vem Eu Vou
Com Zora Santos (MG)
Duração: 35 minutos
Capacidade: 270 lugares
Classificação Indicativa: Livre

Sinopse:
Trata-se de um experimento sonoro performático inédito, guiado por Zora Santos, guardiã de uma alquimia ancestral que aparentemente envolve cozinhar, mas que vai muito além do que sabemos sobre esse universo. Diante de uma mesa viva, ingredientes sonoros são servidos.

SERVIÇO:
Dona Ruth: Festival de Teatro Negro de São Paulo – 3ª edição
No Itaú Cultural.

Dia 20 de outubro (quarta-feira), às 20h:
Performance Centelhas de Ruth de Souza, da poeta Luz Ribeiro (pré-gravado)
Show Itamares, com Anelis Assumpção (ao vivo)
pelo YouTube do Itaú Cultural.

De 21 a 23 (quinta-feira a sábado), às 20h, e dia 24 (domingo), às 19h:
Ato Artístico
Com seis criações cênicas audiovisuais de artistas indígenas e negros do Amapá, Amazonas, Mato Grosso, Minas Gerais, Pernambuco e Rio Grande do Sul
Giras de Conversa
Em conversas com convidados sobre as apresentações
Pela plataforma Zoom. Ingressos via Sympla

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