Edson Diniz: “Todas as vidas têm o mesmo valor!”

O ativista e morador da Rocinha Davison Coutinho escreveu sobre as três mortes trágicas ocorridas nesta terça-feira (19) no Rio: na Ilha do Governador, Gilson Costa, 12, e o pescador Wanderson Martins, 23, foram assassinados por policiais durante uma operação; e na lagoa Rodrigues de Freitas o cardiologista Jaime Gold, de 55, foi assassinado a facadas ao ser assaltado. Ao comentar sobre a diferença de tratamento na mídia sobre as três mortes, ele citou Edson Dinis, da Redes da Maré: “Toda morte causada pela violência, seja na Lagoa, seja no Dendê, tem de causar indignação! Todas as vidas têm o mesmo valor!”

Por *Davison Coutinho, para o Jornal do Brasil

No Brasil 247

Assassinatos são inadmissíveis tanto na Zona Sul quanto na favela

Toda solidariedade à família do médico Jaime Gold, de 55 anos, esfaqueado na Lagoa na noite de terça-feira. Não podemos aceitar que crimes como esse continuem acontecendo em nossa cidade. É triste e revoltante assistir a um cidadão ter sua vida tirada de forma tão brutal e estúpida. A vítima não reagiu ao assalto, mas mesmo assim foi assassinada.

As autoridades se manifestaram, consideram “inadmissível” uma morte em plena Lagoa Rodrigo de Feitas, cartão-postal da cidade maravilhosa. Pois bem, mortes como essa acontecem todos os dias nas favelas da mesma cidade maravilhosa, nas periferias e Baixada Fluminense. Só que quem morre por violência nas áreas pobres não vira notícia, já naturalizou, a sociedade considera normal quando um favelado é assassinado.

Na mesma terça feira, Gilson Costa, de 12 anos e o pescador Wanderson Martins, de 23, moradores do morro do Dendê, foram assassinadas pela polícia. Wanderson estava indo comprar pão para seu filho de 4 anos. Mortes como essas, infelizmente, se repetem todos os dias, mas na nossa sociedade esses cidadãos viram apenas números, ninguém se importa. Na maioria das vezes, as vítimas ainda são acusadas, perdem a vida e perdem a honra de seus nomes por falsas acusações. Essas mortes não podem ser esquecidas.

Me questionam: “Como pode uma pessoa ser assassinada em plena Lagoa Rodrigo de Feitas?” Mas da mesma forma várias são assassinadas nas favelas e na Baixada e ninguém se manifesta. Não vende, não é noticia.

“Incrível ver todas as autoridades se pronunciaram sobre a morte do médico na Lagoa. Mas nenhum deles se pronunciou sobre as morte das duas pessoas assassinadas pela polícia na favela do Dendê, na Ilha do Governador. Inclusive, um deles era um jovem de 12 anos… não moravam na Zona Sul. Não foram mortos a facadas, foram assassinados por arma de fogo dentro de uma favela. Isso não é grave né? É normal. Brasil, um país de todos”, critica William de Oliveira, líder comunitário na Rocinha.

“Toda morte causada pela violência, seja na Lagoa, seja no Dendê, tem de causar indignação! Todas as vidas têm o mesmo valor!”, diz Edson Diniz, da Redes da Maré.

A violência no Rio de Janeiro não é de hoje, é de muito tempo. São décadas e décadas em que sofremos com a violência dentro das favelas e nas áreas afastadas da Zona Sul. Agora, vamos todos nos manifestar, considerar inadmissível a violências. Toda morte deve ser considerada inadmissível, seja de quem for e no território que for, a violência tem que ser inadmissível tanto para os ricos quanto para os pobres.

Cadê essa classe que não se manifesta quando a morte é na favela?
*Davison Coutinho, morador da Rocinha, é bacharel em desenho industrial pela PUC-Rio, mestrando em Design pela PUC-Rio, membro da comissão de moradores da Rocinha, Vidigal e Chácara do Céu, professor, escritor, designer e liderança comunitária.

 

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