segunda-feira, maio 23, 2022
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Educação e juventude negra: os gargalos a serem enfrentados em 2015

O percentual de jovens entre 18 e 24 anos no ensino superior no Brasil bateu recorde em 2013 – chegou a 16,5%, um aumento significativo comparado com os 10,5% de 2004. Mas  um índice pífio se comparado a países  como Argentina (40%), Chile (26,5%) e, incrível, a Bolívia com 20,6%. Tudo isto a despeito da grande expansão do ensino superior no Brasil, puxado principalmente pelo crescimento das instituições privadas que respondem por quase 75% do número de vagas oferecidas. Segundo dados do MEC, em 2013, 2.756.773 alunos ingressaram no ensino superior. Destes, apenas 1.056.059 concluíram no mesmo ano. O aumento de jovens negros no ensino superior foi significativo – passou de 4% para 19,8% entre 2003 e 2011.

Por Dennis de Oliveira na Revista Fórum

O professor Dennis de Oliveira – Foto: Marcos Santos/USP Imagens

Em relação ao ensino médio, os dados mostram que houve o ingresso de 7.066.417 alunos em 2013 neste nível de escolaridade. Apenas 54,3% dos alunos concluíram o ensino médio, que se aplicado ao número de ingressantes (na hipótese de tal taxa se manter estável), seriam 3.837.065 concluintes. Em outras palavras, há hoje no Brasil uma relação de 1,4 potenciais candidatos por vaga ao ensino superior se tomadas em conjunto todas as vagas. Ainda que se chegasse a universalidade de acesso de todos os concluintes ao ensino superior, o Brasil não alcançaria o percentual da Argentina que instituiu o acesso universal de concluintes do ensino médio à universidade. Em outras palavras, o fim dos processos seletivos para a entrada na universidade não resolveria o problema do baixíssimo índice de jovens no ensino superior.

Isto porque o problema está no ensino médio. É no universo de jovens de 15 a 17 anos que se encontram os gargalos do sistema educacional. A taxa de evasão altíssima foi estudada pela Unesco que concluiu que mais de 50% dos jovens que evadem do ensino médio tem o seguinte perfil: negros, oriundos de famílias chefiadas por mulheres e com renda per capita inferior a 2 salários mínimos. Abandonam os estudos para se dedicar a ajuda no sustento da família.  Não por coincidência, este é o mesmo perfil dos jovens vítimas de homicídios na periferia. E também, no caso das suas mães, é o perfil idêntico aos beneficiários dos programas de transferência de renda do governo (Cadastro Único e Bolsa Família).

Becos

Estes becos apontam para um esgotamento de políticas públicas centradas apenas e tão somente na oferta de oportunidades. Isto porque é necessário discutir a forma que tais oportunidades são ofertadas.

Primeiro, a expansão do ensino superior está concentrada na iniciativa privada que foi impulsionada com as verbas federais das bolsas do ProUni. Embora este programa tenha os méritos de ter proporcionado a inclusão de jovens trabalhadores e trabalhadoras, negras e negros, ao ensino superior, é fato que ele capitalizou estas instituições que rapidamente se fortaleceram, monopolizaram e estão sendo capitalizadas por empresas transnacionais (caso da norte-americana Laurentis, que controla a Universidade Anhembi Morumbi e a FMU-FIAM). Tais grupos atuam fortemente no sentido de desregulamentar o ensino superior, flexibilizando os sistemas de avaliação do MEC. Internamente, conquistam a simpatia e o apoio dos seus alunos que sentem-se agradecidos pela oportunidade de cursarem o ensino superior. Dado importante: a esmagadora maioria destes novos jovens no ensino superior não participa das organizações estudantis.

Segundo, o ensino médio vive uma crise imensa e, embora as ofertas de vagas tenham aumentado e praticamente garantem um acesso quase universal, questões estruturais impelem o jovem a abandoná-lo no meio do trajeto. Problemas sociais atingem diretamente o adolescente nesta fase crucial da sua vida e o racismo é um dos elementos principais. É como um encruzilhada em que o caminho de prosseguir os estudos e ingressar no ensino superior está a vista mas com uma valeta enorme para ser pulada. O outro caminho, escuro mas de imediato mais fácil de se adentrar, parece mais sedutor.

Terceiro, que a despeito dos discursos proferidos pela maioria dos empresários, estes ainda não estão dispostos a abrir mão de  interesses imediatos em prol da educação. Reclamam da falta de qualificação da mão de obra, mas grande parte da oferta de empregos oferecidos exige disponibilidade integral e até mesmo a preferência de que não esteja estudando, conforme se verifica na foto abaixo, tirada de anúncios de empregos em um mural no Raposo Shopping.

 

Gargalos: juventude e mulheres negras

Estas informações apontam que os dois focos centrais de opressão racial que se tem hoje no Brasil são os jovens e mulheres negras. O aumento da escolaridade e a maior oferta de oportunidades propiciadas pelos governos Lula/Dilma foram feitas sem tocar em questões estruturais da sociedade brasileira, que transforma o usufruto destas oportunidades em verdadeiras “ginásticas”. Mais que isto, em momentos de crise econômica internacional, este esquema de “mudar sem transformar” vai apresentando limites. Principalmente porque o enfrentamento dos gargalos exigirá vultuosos e recorrentes investimentos sociais (como, por exemplo, investir na qualidade e na permanência no ensino médio) que podem ser difíceis diante de uma agenda imposta pelo capital rentista de “corte de gastos”.

Além disto, dentro da oferta de oportunidades, não se vislumbra qual é o perfil desejado destes jovens que futuramente ingressarão no mercado de trabalho. Formados na sua grande maioria por instituições particulares de ensino de duvidosa qualidade, tendo o seu direito cidadão de educação oferecido como mercadoria subsidiada pelo Estado, quais são os valores que estão sendo formados na mente destes novos profissionais? Mais ainda, qual será o futuro desta grande massa de adolescentes que abandonou os estudos para ingressarem precocemente no mercado profissional para ajudarem no sustento das famílias? Em boa parte, o elemento principal de sedução destas novas gerações são as possibilidades de consumo. As mudanças sociais necessárias para o país que exige engajamentos coletivos podem ficar comprometidas se estas novas gerações forem mobilizadas única e exclusivamente pelas possibilidades de consumo. Consumismo que, diga-se de passagem, está na raiz de muitas ações violentas que ocorrem no país hoje.

 

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