Educação sexual

Os jovens estão mais e mais precoces na iniciação, mas cada vez menos aptos para responder por esse engajamento

Michael Bader/Corbis/Latinstock

Por Carmita H. N. Abdo

A iniciação sexual está ocorrendo cada vez mais cedo, enquanto uniões estáveis vêm sendo assumidas a partir da terceira década da vida. Consequentemente, múltiplas parcerias (simultâneas ou sucessivas) são habituais na vida sexual dos adolescentes. Alternativas que favoreçam o sexo responsável, porém, não têm acompanhado tal evolução.

A situação é, historicamente, bem diversa da desejável. No fim dos anos 1990, a chamada gravidez precoce resultava na primeira causa de internação de jovens entre 14 e 19 anos, em hospitais do Sistema Único de Saúde (SUS), por ocasião dos respectivos partos. Tal era a gravidade dessa situação que a sexta causa de internação no SUS de meninas nessa mesma faixa etária se devia a motivações externas à saúde física, entre as quais a tentativa de suicídio. Essa dura realidade ainda assombra a vida das nossas adolescentes.

Some-se a isso que o abuso sexual na infância é bem mais frequente do que se 
supõe, condicionando crianças e adolescentes à extrema falta de autoestima, dissociação do pensamento, autodestrutividade associada ao comportamento ­sexual de risco ou negação e recusa do contato sexual na vida adulta.
No Brasil, a iniciação sexual ocorre, atualmente, por volta dos 15 anos, com margem de dois anos para mais ou para menos (entre 13 e 17 anos de idade), tanto para meninos quanto para meninas. Em contrapartida, com jovens entre 18 e 25 anos, apenas 40% das mulheres e metade dos homens referem o uso de preservativo em todas as relações sexuais. Nas faixas etárias maiores esses índices são ainda mais baixos, mesmo entre solteiros e separados. Esses números denunciam a falta de padrão de uso adequado do preservativo no Brasil, em todas as faixas etárias.

O desequilíbrio entre o incremento da prática sexual e a precária prevenção de sexo de risco faz crer em desinformação sobre o assunto. Entretanto, conforme atesta trabalho realizado entre 1997 e 2001 pelo Programa de Estudos em Sexualidade (ProSex), do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, o nível de informação é, de longa data, bastante satisfatório nesse quesito (97,5% conhecem e sabem a função do preservativo), mas ­dissociado da prática de sexo protegido.

Persiste o mito de que a educação ­sexual não soluciona, mas incentiva a experimentação ou aumenta a chance de atividade sexual precoce, apesar de não haver evidência que comprove essa ideia, segundo revisão feita pela Organização Mundial da Saúde (OMS) em mais de mil artigos sobre programas dessa natureza. Estudo recente do Hospital da Criança de Cincinnati, nos EUA, demonstrou que, ao contrário do que muitos pais temiam, a vacina contra HPV (papilomavírus humano) não alterou o comportamento sexual das adolescentes. Ou seja, essa imunização não fez com que elas praticassem mais sexo desprotegido nem que passassem a fazer sexo com maior frequência. Vale lembrar que é cada vez mais habitual a precocidade com que crianças se tornam púberes, em todo o mundo. A maior exposição desses jovens a estímulos diversos (e não exclusivamente sexuais) explicaria, pelo menos em parte, essa crescente precocidade.

Segundo estudos americanos, adolescentes de raça negra e hispânicos se expõem mais à mídia, apresentando maior prevalência de iniciação sexual precoce, doenças sexualmente transmissíveis (DST) e gravidez, quando comparados aos brancos e asiáticos. No entanto, ainda não foi possível distinguir o que é causa e o que é efeito: maior exposição desencadearia os eventos sexuais ou, ao contrário, maior interesse sexual prévio favoreceria a exposição?

A infância perdeu em ingenuidade o quanto adquiriu em possibilidade de acesso ao conhecimento, o que se pode avaliar pelo apego e domínio dos assuntos de informática. A mesma informática a que se pode atribuir parte da desaceleração com que o adolescente de hoje evolui emocionalmente, em razão de estar menos estimulado pela imprevisibilidade dos relacionamentos interpessoais e mais motivado pelos softwares que obedecem incontestes a um comando digital.

Temos assistido, então, à adolescência prolongada, como medida de autopreservação contra um mundo em impressionante transformação. É nesse contexto que adolescentes precoces se transformam em adultos tardios, em nome de um maior “preparo” para as adversidades, condição que os próprios adolescentes se permitem e seus pais acatam.

A iniciação sexual é um excelente parâmetro que ilustra esse paradoxo de “início precoce de sustentabilidade protelada”: cada vez mais cedo se engajam em atividades sexuais e cada vez mais tarde estão aptos a responder integralmente por esse engajamento.

Tentando erraticamente modificar esse panorama, campanhas pela abstinência sexual foram prioridade no governo Bush e se consagraram por True Love Waits (Amor Verdadeiro Espera), Pure Love Alliance (Aliança do Amor Puro) e Silver Ring Thing (Anel de Prata), entre outros movimentos, para os quais foram investidas centenas de milhões de dólares ao ano, em meados da década passada. O professor de sociologia Mark Regnerus salienta que os objetivos práticos subjacentes dessa campanha, a qual teve alguma reper­cussão no Brasil, não foram alcançados: evitar gravidez precoce e DST.
Esses, entretanto, não são os únicos ou mais importantes problemas que a educação sexual deve encarar. Há quase duas décadas foi publicado um estudo comparativo entre universitárias que sofreram e que não sofreram abuso sexual na infância. Observou-se que as abusadas tinham mais atitudes negativas em relação ao sexo, menor uso de contraceptivos e menos recusa de sexo não desejado, menos prevenção de DSTs, mais negligência do parceiro quanto ao sexo seguro, mais vitimização sexual na vida adulta e mais uso de substâncias psicoativas.

Especialistas reconhecem que é fundamental antecipar e ampliar o conhecimento da sexualidade para se conseguir prática sexual consciente e saudável, antes que o exercício de “tentativa e erro” se imponha. Ora, não é possível preparar quem quer que seja para a iniciação sexual, sem instrumentalizá-lo para a vida, como um todo. Essa preparação não se restringe a fornecer informações sobre biologia, anatomia, reprodução, sexo seguro, sexo de risco, DST.

Aos adultos cabe trabalharem para transmitir, desde cedo, o que o computador ou o amigo mais próximo não estão capacitados. Não exatamente um modelo de desempenho em que o jovem se espelhe, mas a valorização da ética, do bom senso e da responsabilidade, na qual o jovem se inspire. Proximidade saudável que gera resultado.

*Carmita Abdo é psiquiatra, livre-docente e professora da Faculdade de Medicina da USP. Fundadora e coordenadora do Programa de Estudos em Sexualidade (ProSex) do Hospital das Clínicas de São Paulo

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