O El Niño — o fenômeno climático natural que eleva as temperaturas globais — começou oficialmente, segundo anunciaram cientistas americanos nesta quinta-feira (11/06).
A Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos EUA (NOAA) declarou que as condições do El Niño já estão em curso no Pacífico tropical, com um aumento acentuado da temperatura da superfície do mar nos últimos meses.
Diversas previsões das agências climáticas nacionais indicam que ele poderá ser um dos mais fortes já registrados – um possível “super” El Niño.
A Organização Meteorológica Mundial, da ONU, já havia alertado sobre a força do fenômeno esperado em 2026, gerando mais eventos climáticos extremos em grande parte do mundo.
Prever o momento exato e a força do El Niño pode ser difícil. Por isso, os cientistas vêm observando as condições em uma região reveladora do oceano Pacífico, em busca de alguma indicação.

Em dezembro, estas águas (exibidas aqui em azul) estavam mais frias que a média, sem a presença do El Niño

Mas, três meses depois, o panorama mudou.
A temperatura da região central do Pacífico (exibida aqui em laranja) ficou mais alta, com águas muito quentes atingindo a superfície no litoral da América do Sul.

Em abril, o El Niño estava claramente no horizonte. As temperaturas na região principal de monitoramento estavam subindo e aquelas águas continuaram se aquecendo desde então.
Foi assim que a chegada do fenômeno foi comprovada: as temperaturas da superfície do mar no Pacífico central e tropical já ultrapassaram o limite de 0,5°C acima da média.
O El Niño se forma quando uma mudança dos padrões do vento permite que águas mais quentes se espalhem pela região tropical do oceano Pacífico.
“Temos bastante certeza de que um grande evento está por vir”, afirmou o professor Adam Scaife, chefe de previsões de médio e longo prazo do Serviço Nacional de Meteorologia do Reino Unido, antes mesmo da confirmação desta quinta-feira. “Pode até ser um evento recorde.”

As temperaturas da superfície do mar na região de monitoramento no oceano Pacífico flutuam naturalmente acima e abaixo da média.

Quando elas se aquecem ou resfriam mais de meio grau em relação à média por um período mais extenso, surgem as condições para o El Niño ou sua irmã mais fria, La Niña.
Já o aquecimento acima de dois graus indica um fenômeno “muito forte”, o chamado “super” El Niño.

Poucos casos como estes ocorreram desde 1950. As previsões indicam que este novo El Niño pode igualar os picos do passado ou até ultrapassá-los.
Parte dos motivos que levam os cientistas a esperar um forte El Niño ficam muito abaixo da superfície do oceano.
Dados de satélites, boias e flutuadores oceânicos indicam uma onda enorme e incomum de água quente, mais de 6 ºC acima da média em alguns lugares. Ela vem atravessando o Pacífico para o leste, a centenas de metros de profundidade.
O calor dessas águas “se compara com alguns dos eventos El Niño mais fortes já observados”, afirma a cientista Michelle L’Heureux, do Centro de Previsões Climáticas da Agência Oceânica e Atmosférica Nacional dos Estados Unidos (NOAA).
O aquecimento em águas profundas, muitas vezes, é um precursor de águas mais quentes na superfície, que aquecem o ar acima dela, prejudicando os padrões climáticos em todo o mundo.
“As condições causadas pelo El Niño colocarão lenha na fogueira de um mundo em aquecimento”, declarou o secretário-geral da ONU, António Guterres. “Os impactos serão sentidos com mais força, a distâncias ainda maiores, e cruzarão fronteiras com velocidade devastadora.”
Não há dois eventos El Niño iguais e lugares diferentes podem ser atingidos em diferentes épocas do ano.
Mas um El Niño forte tipicamente causa clima quente e seco em partes da América do Sul, sudeste asiático e Austrália, aumentando a possibilidade de secas e incêndios florestais.
O evento pode também enfraquecer as monções na Índia e trazer condições mais secas para a região norte do chifre da África. E a maior quantidade de chuvas pode aumentar o risco de enchentes no sul dos Estados Unidos.
O El Niño pode até aumentar a possibilidade de que o inverno britânico comece de forma moderada e termine com frio, mas sua relação com o clima do noroeste da Europa não é tão forte.

Os eventos passados foram relacionados a altas dos preços dos alimentos e prejuízos de centenas de bilhões ou até trilhões de dólares em todo o mundo, com quedas da produção agrícola e interrupções do comércio atingindo a economia de diversos países e suas cadeias de abastecimento.
Como o pico do El Niño normalmente ocorre perto do Natal, é impossível saber ao certo, com tantos meses de antecedência, se ele irá estabelecer novos recordes.
O El Niño é muito sensível, por exemplo, aos padrões dos ventos, que são “o maior cartão de visita” do El Niño, segundo L’Heureux. E é muito difícil prevê-los com tanta antecipação.
Mas, mesmo que não se trate de um “super” El Niño, ainda poderá haver consequências extremas.
Isso ocorre porque nunca vivenciamos o El Niño em um planeta já tão aquecido pelas mudanças climáticas, causadas pela atividade humana.

Estas são as temperaturas globais mensais da atmosfera, em comparação com o final do século 19.

As temperaturas normalmente disparam durante os anos de El Niño, talvez em até 0,2 ºC, no caso de eventos fortes.

E as temperaturas normalmente caem durante La Niña.

Mas estes altos e baixos são apenas temporários. A tendência de aquecimento a longo prazo é a mudança climática.
O ano de “2027, muito provavelmente neste momento, será o ano mais quente já registrado”, afirma o climatologista Zeke Hausfather, do grupo americano Berkeley Earth.
Em 1998, o mundo teve um “evento El Niño incrivelmente forte e um ano incrivelmente quente na época”, destaca ele. “Se isso acontecesse hoje, seria um ano incrivelmente frio, em comparação com as duas últimas décadas.”
“Isso serve para mostrar o tamanho do impacto causado pelos seres humanos ao clima” do planeta.
Mapas da temperatura do mar
Fonte dos dados: ERA5 C3S/ECMWF. As temperaturas da superfície do mar são comparadas com a média de 1991-2020.
Gráfico de temperaturas do El Niño
Fonte dos dados: dados históricos do Índice Niño Oceânico Relativo da NOAA até março de 2026. O Índice Niño Oceânico Relativo tenta retirar a influência do aquecimento global, para exibir apenas as variações da potência do El Niño e La Niña. Fonte do intervalo projetado futuro para novembro de 2026: Zeke Hausfather. A previsão mostra a potência estimada do El Niño, com base em seis modelos climáticos da CanSIPS, Nasa, NCAR e CFS. O intervalo representa os 50% intermediários das previsões dos modelos.
Mapa de impacto sobre a precipitação
Fonte dos dados: Lenssen, Goddard e Mason, 2020.
Gráfico de temperaturas globais
Fonte dos dados: ERA5 C3S/ECMWF, Índice Niño Oceânico Relativo da NOAA, dados até março de 2026. A média pré-industrial refere-se ao período 1850-1900. A linha da tendência regressiva é apenas indicativa.