Recomendações de Geledés para a Conferência de Bonn com foco em racismo ambiental

08/06/26
Por Mariana Belmont

A participação do Geledés – Instituto da Mulher Negra na Conferência de Bonn (SB64), realizada em 2026 na Bonn, reforça a consolidação da agenda de justiça climática racial no âmbito das negociações internacionais do clima. Neste ano, o Geledés leva para os espaços de negociação e incidência política uma contribuição centrada no enfrentamento ao racismo ambiental, na defesa da adaptação climática com justiça social e na construção de mecanismos de transição justa que incorporem raça, gênero e território como elementos estruturantes da governança climática.

Entre os principais temas apresentados pela organização estão os debates sobre adaptação climática, financiamento climático com perspectiva interseccional e operacionalização da agenda de transição justa após a COP30 de Belém. Nas notas técnicas elaboradas para a SB64, o Geledés destaca que a adaptação climática não pode ser tratada apenas como uma agenda técnica, mas como uma ferramenta política de reparação histórica e redução das desigualdades, especialmente para populações negras, indígenas, quilombolas e comunidades tradicionais. O documento sobre adaptação defende o fortalecimento da participação da sociedade civil na construção dos indicadores globais de adaptação e a ampliação do financiamento climático direto para territórios vulnerabilizados, incorporando mecanismos de monitoramento com recorte racial e de gênero.

Outro eixo central da participação do Geledés em Bonn é a agenda de transição justa. A organização acompanha os debates sobre a implementação do Belém-Antalya Mechanism (BAM), criado após a COP30, defendendo que o mecanismo incorpore participação efetiva da sociedade civil, financiamento não gerador de dívida e salvaguardas robustas de direitos humanos. O documento também enfatiza a necessidade de reconhecer a economia do cuidado, historicamente sustentada por mulheres negras, como parte central das políticas climáticas e energéticas.

No campo do financiamento climático, o Geledés apresenta ainda uma submissão internacional sobre instrumentos financeiros sensíveis a gênero e raça, destacando experiências lideradas por mulheres negras, quilombolas e comunidades tradicionais no Brasil. O texto argumenta que o acesso desigual ao financiamento climático aprofunda vulnerabilidades históricas e propõe mecanismos mais acessíveis, participativos e direcionados a organizações comunitárias.

Como parte da programação da SB64, o Geledés também organiza o side event “Racismo Ambiental e Justiça Climática: desigualdades estruturais na governança e na implementação climática”, que acontecerá no dia 12 de junho de 2026, no World Conference Center Bonn. O evento discutirá caminhos para integrar justiça racial, equidade territorial e participação comunitária nas NDCs, nas políticas de adaptação e nos mecanismos de financiamento climático.

O painel contará com a participação de Carolina von der Weid, do Ministério das Relações Exteriores do Brasil; Thaynah Gutierrez, do Geledés – Instituto da Mulher Negra; Kátia Penha, da CONAQ – Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas; Taily Terena, representando o Treaty Council; além de representante do African Group of Negotiators (AGN). A mediação será realizada por Lígia Cerqueira, do ISER – Instituto de Estudos da Religião. A atividade reforça a articulação entre movimentos negros e organizações da sociedade civil do Sul Global para pressionar por uma governança climática mais justa, inclusiva e antirracista.

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