Reunidas no Panamá, juventudes afrodescendentes reivindicam espaço na governança global

02/06/26
Por Kátia Mello [email protected]
Com participação de Geledés, Congresso Regional Afrolatino-Caribenho reúne mais de 300 jovens de 42 países para fortalecer a incidência política negra nos espaços multilaterais

O Congresso Regional Afrolatino-Caribenho de Juventudes, realizado nos dias 29 e 30 de maio em Colón, no Panamá, deve ser compreendido como parte de um cenário político regional marcado pela convergência entre memória histórica, disputas democráticas contemporâneas e esforços de renovação do multilateralismo em um contexto de crescente instabilidade global.  O evento reuniu mais de 300 participantes de 42 países e territórios das Américas para discutir o lugar da população afrodescendente nos processos decisórios regionais e internacionais. Entre os participantes, esteve Ester Sena, assessora de Clima e Juventude  de Geledés- Instituto da Mulher Negra.

O congresso se insere em um momento estratégico, marcado simultaneamente pela implementação do Segundo Decênio Internacional para os Afrodescendentes (2025-2034), pelos 25 anos da Declaração e Programa de Ação de Durban e pela crescente preocupação com o avanço de forças políticas antidemocráticas em diferentes países da região. Também dialoga diretamente com os compromissos assumidos no Pacto para o Futuro, adotado na Cúpula do Futuro das Nações Unidas, que propõe reformas na governança global, buscando acelerar o desenvolvimento sustentável e, de forma inédita, posicionando formalmente os jovens no centro dos processos multilaterais de tomada de decisão. 

Para Ester Sena, a constatação do papel das juventudes e afrodescendentes nesses marcos internacionais cria condições mais favoráveis para a incidência política dos movimentos sociais. “O reconhecimento do potencial da juventude e das populações afrodescendentes em documentos como o Pacto para o Futuro e a Agenda Global de Juventudes da ONU garante maior visibilidade a essas agendas, orienta a alocação de recursos e financiamento, fortalece os mecanismos de participação e contribui para corrigir lacunas históricas na governança global”, afirma. Ao defender a equidade intergeracional como princípio estruturante das respostas aos desafios do século XXI, o pacto oferece um marco particularmente relevante para as juventudes afrodescendentes, que continuam sub-representadas nos espaços de poder apesar de serem diretamente afetadas pelas desigualdades raciais, econômicas e climáticas.

A dimensão histórica e geopolítica do congresso também merece atenção. Afinal, a proposta do encontro foi concebida à luz do bicentenário do Congresso Anfictiônico do Panamá, convocado por Simón Bolívar em 1826 com o objetivo de construir mecanismos de integração política entre os países recém-independentes da América Latina. Duzentos anos depois, a realização deste congresso e a proximidade da Assembleia Geral da Organização dos Estados Americanos (OEA), que ocorrerá no Panamá ainda em 2026, revelam uma tentativa do governo panamenho de reposicionar o país como um espaço privilegiado de articulação regional e internacional. 

Ao reunir jovens afrodescendentes de todo o continente em Colón — uma cidade profundamente marcada pela presença histórica da diáspora africana e pelas desigualdades produzidas ao redor da economia do Canal —, o congresso buscou atualizar o significado político da integração latino-americana a partir das demandas de grupos historicamente excluídos dos pactos fundadores da região. Nesse contexto, o congresso reflete uma tentativa de atualizar os mecanismos de cooperação hemisférica a partir de uma perspectiva racializada da democracia, reconhecendo que a inclusão das populações afrodescendentes não constitui uma agenda setorial, mas um elemento fundamental para a legitimidade das instituições regionais.

Os resultados do encontro apontam para o fortalecimento de uma infraestrutura política transnacional das juventudes afrodescendentes. Embora a Declaração das Juventudes Afrolatino-Caribenhas ainda esteja em processo de consolidação, o congresso demonstra avanço na construção de consensos em torno do debate sobre participação política, inclusão econômica, educação, direitos humanos, combate ao racismo estrutural e justiça climática. Isso porque, como aponta Sena, estão entrando as demandas destas juventudes da América Latina e Caribe. 

Em vez de restringir sua incidência à denúncia das desigualdades raciais, as lideranças presentes reivindicaram o papel de formuladoras de propostas para o futuro das Américas. Segundo Sena, o principal desafio agora consiste em transformar os avanços normativos conquistados nos espaços multilaterais em compromissos políticos efetivos por parte dos governos e organismos internacionais. “Para Geledés, isso significa que a principal disputa contemporânea, no contexto regional, está relacionada à capacidade de diferenciar a adesão diplomática do compromisso político efetivo. Mais do que um encontro temático, este Congresso pode se consolidar como um espaço estratégico para compreender e mapear como a agenda afrodescendente disputará legitimidade política em uma América Latina e Caribe atravessados por múltiplas crises sociais, econômicas, ambientais e democráticas.” 

Ao questionar como mecanismos já existentes, como o Stakeholder Group de Afrodescendentes e o Grupo de Trabalho dedicado às juventudes afrodescendentes, podem ser utilizados para produzir mudanças concretas, a representante de Geledés recebeu de Felipe Paullier, subsecretário-geral e chefe do Escritório das Nações Unidas para a Juventude como resposta que “estas plataformas são espaços para continuar aprendendo e encontrando novos espaços”. 

O representante da ONU recordou que o diálogo com Geledés e o Stakeholder Group de Afrodescendentes já vinha sendo construído em encontros anteriores, como o realizado em Nova York, ressaltando que esses mecanismos existem para “realmente representar as vozes e, particularmente, as juventudes afrodescendentes” em âmbito global. Segundo ele, o desafio atual das Nações Unidas é justamente “como transversalizar esta agenda” por meio da Estratégia de Juventude do Sistema ONU, implementada desde 2018 para ampliar a participação juvenil nas ações da organização em escala global e nos países. 

Paullier ressaltou ainda que o sistema das Nações Unidas está em processo de diálogo para “visibilizar mais esta agenda, particularmente em regiões onde a população afrodescendente é uma população muito ampla, como acontece na América Latina e no Caribe”. Referindo-se ao próprio congresso, observou que o encontro surgiu porque “havia uma comunidade como a de Colón, um governo como o do Panamá, que quis que isso acontecesse”, e defendeu que os resultados construídos pelos participantes possam servir de referência para os processos de incidência junto ao sistema internacional e às instâncias regionais de tomada de decisão. 

Sua avaliação sintetiza uma das mensagens centrais do encontro: a de que a luta contra o racismo estrutural está cada vez mais conectada à disputa pelos rumos da democracia, do desenvolvimento sustentável e da governança global, em um momento em que as juventudes negras reivindicam não apenas reconhecimento, mas protagonismo real na construção das respostas para os desafios do século XXI.

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